Carnaval de treinos e mudanças

POR GERSON NOGUEIRA

A dupla Re-Pa tem a chance de rever seus planos e expectativas para a fase mais aguda do campeonato. A pausa na tabela propiciada pelo Carnaval deu, por exemplo, 14 dias aos bicolores para treinar e buscar corrigir problemas que o time apresenta, apesar da excelente campanha.

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O técnico João Brigatti tem questões pontuais para resolver. O meio-campo segue com rendimento muito aquém do necessário para dar ao time ritmo e harmonia, para aproveitar analogias momescas.

O armador Tiago Primão estreou em Bragança, no meio da semana, sem mostrar as qualidades esperadas. Como organizador, Leandro Lima parece bem mais consistente para a equipe, devendo voltar contra o São Francisco, no próximo dia 10.

As carências de criação têm sido até aqui obscurecidas pela movimentação que Nicolas imprime ao setor de meia-cancha, aproximando-se dos atacantes e até mesmo fazendo jogadas de centroavante, como no gol contra o Águia. Em outros momentos, exibindo versatilidade, cumpre o papel tático de um falso articulador.

Outro ponto à espera de providências é a linha defensiva. Na direita, Bruno Oliveira é o único especialista, o que deixa o time sob o risco da improvisação quando ele se ausenta. No miolo da zaga, a carência é ainda mais grave. Micael e Vítor Oliveira são titulares desde o começo da temporada, mas não caíram no agrado da torcida até hoje.

Há uma insistente desconfiança em relação a ambos, principalmente pelas atuações contra o Bragantino e o Castanhal. Com o bom momento vivido no Re-Pa, ambos pareciam ter superado os olhares de reprovação, mas o pálido desempenho do ataque remista prejudicou a análise do comportamento da dupla.

Enquanto isso, Perema pede passagem para reocupar um lugar na defesa. É hoje o mais experiente zagueiro do elenco, mas a contusão recente o tirou de combate temporariamente. Os treinos da semana que entra devem servir para clarear as ideias e se encarregar de deixar as coisas em seus devidos lugares.

No Remo, a situação é mais complexa. Márcio Fernandes terá a folga carnavalesca como única janela para observar e conhecer os jogadores. O time volta a campo no dia 7, em Santarém, contra o Tapajós, e o novo técnico tem o desafio de formatar novo desenho tático ou fazer variações em cima do que João Neto deixou.

Obviamente, Fernandes sabe que as cobranças virão em dose cavalar, mesmo com o pouquíssimo tempo para ajustar a equipe a seu gosto. A sombra do antecessor, agora coordenador técnico, sempre vai pairar sobre ele. Para não desafinar logo de cara, precisa tirar todos os truques da cartola em tempo recorde.

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A grata surpresa do jovem Vinícius

Ele saiu do Brasil em meio a sérias dúvidas quanto às suas chances de sucesso – e até de permanência – no gigante Real Madri. Seu futuro era incerto e duvidoso, a partir do histórico pouco consistente como jogador do Flamengo. Vinícius Jr. havia atuado um número insuficiente de partidas como titular, passando a maior parte do tempo sendo utilizado pelos técnicos como opção para o segundo tempo dos jogos.

Criou-se a impressão, não sem alguma razão, de que o atacante era algo assim como um produto bem elaborado de marketing, rendendo milhões de reais ao Flamengo na transação mais surpreendente do futebol brasileiro. Um jogador recém-saído das divisões de base contratado a peso de ouro por um gigante europeu, antes mesmo de ser convocado para a Seleção Brasileiro, fato inusitado em termos de transações internacionais.

É verdade que, depois de sacramentado o negócio com o Real, a imprensa carioca chegou a ensaiar um lobby, mas Tite nem deu trela. Eu mesmo aqui neste espaço pus em dúvida o potencial do jovem atacante rubro-negro, principalmente quando se fazia mais estridente a defesa de sua ida à Copa do Mundo por uma parcela da mídia carioca.

Pois agora, menos de um ano depois, Vinícius Jr. irrompe gloriosamente no Real Madri, realizando 28 partidas (21 como titular), fazendo gols e mostrando uma confiança cega no próprio talento. Parte sempre com a bola nos pés em direção à área inimiga, ameaçando driblar quem apareça pela frente. Não demonstra temor ou inibição, o que seria inteiramente normal num jogador tão jovem.

A nova fase vivida pelo Real, depois da saída de Cristiano Ronaldo, poderia acarretar uma sobrecarga de responsabilidade a Vinícius e aos demais jogadores, mas se isso existe o brasileiro não deixa transparecer. Virou a principal arma ofensiva da equipe, situação admitida pelo técnico Santiago Solari e até pelos adversários.

A torcida passou a comprar a camiseta com o 28 às costas e não para de incentivá-lo, mesmo quando o time leva uma chinelada vexatória como no meio da semana contra o Barcelona. Soube reconhecer o esforço do brasileiro, solitária figura vestindo branco a incomodar a zaga catalã.

Antes de atribuir a Vinícius qualidades que não possui, é necessário reconhecer que as arrancadas vertiginosas ainda lembram o que fazia Robinho e suas pedaladas. Todo mundo sabe como aquilo terminou e Vinícius tem a chance de reescrever esse caminho, driblando e pedalando, mas sendo útil e participativo.

Não finaliza com a destreza que um ataque historicamente poderoso exige, mas está melhorando nos arremates. Com a força de vontade demonstrada é bom não duvidar que, em breve, esteja finalmente apto a aproveitar as muitas oportunidades que cria e não conclui com perfeição.

Sua convocação para o escrete na recente lista de Tite faz crer que a maturidade de seu futebol – e o consequente reconhecimento – pode estar vindo mais rápido do que o esperado.

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Bola na Torre

Guilherme Guerreiro comanda o programa, a partir das 21h, na RBATV. Giuseppe Tommaso e este escriba de Baião participam como debatedores. Tudo sobre o Parazão, com direito à participação dos telespectadores através de perguntas dirigidas à mesa.

(Coluna publicada no Bola deste domingo, 03)

Um comentário em “Carnaval de treinos e mudanças

  1. Sempre é digno reconhecer que erramos. Não há nenhum problema nisso. A minha dúvida em relação à capacidade de Vinícius vinha mais da sua origem clubística do que propriamente de seus dotes como jogador de futebol, pois nunca o considerei como um perna de pau. O histórico de invenções lucrativas de “craques” no clube de origem de Vinícius é extensa. Mas, se ele aproveitar tudo o que um clube como o Real pode lhe oferecer, poderá ser um gigante do nosso futebol.

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