Livro póstumo de Alberto Léo resgata história do jornalismo esportivo na TV

Por Maurício Stycer

Morto em junho de 2016, aos 65 anos, o jornalista Alberto Léo deixou um pequeno tesouro para quem se interessa pela história da televisão no Brasil. Lançado esta semana, o livro “História do Jornalismo Esportivo na TV Brasileira” (Maquinária, 288 págs., R$ 48) reúne depoimentos e informações preciosas sobre este ramo hoje essencial na programação. O projeto de Alberto Léo era ambicioso.

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Entre 2001 e 2005, ele fez dezenas de entrevistas e colheu vários testemunhos sobre episódios importantes, mas não chegou a concluir o livro, que pretendia chegar até os dias atuais. Depois de sua morte, por causa de um câncer, um irmão do jornalista entregou o material para a editora Maquinária, que aceitou o desafio de organizar e editar o livro.

A pesquisa é bastante detalhada sobre o desenvolvimento do jornalismo esportivo na TV entre os primórdios, na década de 50, e o fim dos anos 80. Falta, infelizmente, uma análise do material, que Alberto Léo provavelmente teria feito se tivesse tempo de concluir o livro. Ainda assim, pela reunião de dados importantes e detalhes laterais, “História do Jornalismo Esportivo na TV Brasileira” é um livro formidável para quem se interessa pelo assunto.

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Alberto Léo reconstitui, passo a passo, o nascimento do gênero na TV – os primeiros programas e transmissões esportivas, os profissionais que trocaram o rádio pela nova mídia e os desafios, muitas vezes heróicos, envolvidos na tarefa de mostrar uma partida de futebol na televisão.

O livro presta tributo a dezenas de narradores, comentaristas e repórteres pioneiros que atuaram em emissoras que não existem mais, como Tupi, Paulista, Rio, Continental, Excelsior. É uma lista enorme, que não cabe neste texto, mas vale observar que pelo menos dois pioneiros, Silvio Luiz e Leo Batista, ainda estão em atividade. Já no final década de 50 surgem os primeiros conflitos entre emissoras de TV, clubes e federações por questões de direitos.

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Em 1961, o medo de que o futebol na TV afugentasse o público dos estádios leva à proibição de transmissão ao vivo de jogos no Rio. A primeira Copa do Mundo transmitida ao vivo no Brasil foi a de 1970. Nas anteriores, entre 1954 e 66, os jogos da seleção eram exibidos em vídeo-tape um ou dois dias depois de realizados.

Alberto Léo dedica cuidado especial na pesquisa a cada uma das coberturas, até a da Copa de 90, que ficou marcada não apenas pelo fracasso da seleção de Lazaroni, mas pela morte, em Roma, do comentarista João Saldanha (1917-1990), então trabalhando na Manchete.

Uma das histórias mais surpreendentes do livro é a da demissão do próprio Saldanha e do narrador Geraldo José de Almeida (1919-1976), que formavam a dupla número 1 da Globo na Copa de 74. Eles foram dispensados logo após a competição. Um depoimento de Boni a Alberto Léo esclarece o que por muito tempo foi motivo de versões desencontradas.

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“Decidimos dispensá-los, não por uma questão de competência, mas de desobediência”, diz Boni, então o segundo principal executivo da emissora, abaixo apenas de Walter Clark (1936-1997). Segundo ele, Saldanha e Geraldo José de Almeida desobedeceram dois procedimentos estabelecidos pela direção – conversavam entre eles durante os jogos, o que a emissora havia proibido, e deram um tom excessivamente pessimista às transmissões. “Queríamos críticas, mas proibimos lamentações”, diz Boni.

A pesquisa de Alberto Léo é centrada em Rio e São Paulo, mas há também espaço para rememorar feitos alcançados em outros pontos do país. O número de profissionais e programas lembrados é gigantesco – falta um índice onomástico, essencial num livro destes. Para mim, pessoalmente, o livro proporcionou o prazer de ler a respeito do primeiro programa esportivo que me lembro de assistir, o “Ataque e Defesa”, apresentado por Ruy Porto entre 1968 e 1974 na TV Tupi.

Ia ao ar nas noites de domingo, depois do “Programa Flavio Cavalcanti”, e marcou época por duas novidades. Exibia os gols da rodada em diferentes Estados e o comentarista usava uma mesa de botão com imãs, pregada na parede, para explicar como as equipes do principal jogo do domingo atuaram.

Alberto Léo reconstitui outro programa lendário da década de 60, a “Grande Resenha Esportiva Facit”, exibida a partir de 1963 na TV Rio, sob o comando de Luiz Mendes (1924-2011), e de agosto de 1966 a meados de 1970 na Globo, apresentado por Luiz Alberto. A grande atração eram os três comentaristas que duelavam de forma abusada e inteligente em defesa de seus times de coração: o tricolor Nelson Rodrigues (1912-1980), o botafoguense João Saldanha e o flamenguista José Maria Scassa.

Outro projeto importante abordado pelo livro foi o “Show do Esporte”, iniciativa de Luciano do Valle (1947-2014) na Band, nos anos 80, que configurou o que viria a ser, com a TV por assinatura, um “canal do esporte”. O livro deixa algumas lacunas, talvez a mais importante seja não se aprofundar na questão de negócios em que se transformou o esporte na TV.

Alberto Léo relata vários episódios envolvendo disputas por direitos esportivos desde a década de 60, mas não atenta para o fato de que esta questão seria determinante para os rumos do próprio jornalismo esportivo na TV. É bem possível que tratasse deste tema com mais profundidade no segundo volume do livro que projetou. Em todo caso, esta “História do Jornalismo Esportivo na TV Brasileira” é um legado importante que deixou para todos que se interessam e pesquisam sobre o assunto.

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