Ode à animação, “Homem-Aranha no Aranhaverso” revisita mitologia dos super-heróis

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Por Pedro Strazza, no B9

Já faz alguns anos – mais precisamente, à partir de meados do começo dos anos 2000 – que o cinema de super-heróis se estabeleceu como gênero dominante na grande indústria de Hollywood. Dos experimentos pontuais nos anos 70 e 80 que ajudaram a solidificar determinados personagens no imaginário pop, os filmes sobre seres poderosos e dotados de senso de moral e justiça ganharam espaço suficiente para provar seu poder de fogo financeiro, algo que chamou a atenção e o interesse dos grandes estúdios por conta da lógica de produções cada vez maiores com retornos ainda mais estrondosos. De um ou dois longas por ano, os heróis passaram a contar com 7 ou 8 aventuras nas telonas do mundo todo a cada 12 meses.

Mas enquanto esta dominação se estende no circuito em busca de eventuais desgastes e reinvenções da “fórmula”, o cinema de super-herói também adentra um território que já é bastante conhecido não só por outros gêneros como também pelos quadrinhos, a fundação maior de onde produtores e realizadores tiram inspiração para filmar suas histórias: a noção de ciclo. Por terem um caráter atemporal, os personagens destas aventuras passam a contar com diferentes encarnações e atores, que cada um a seu jeito proporcionam novas formas de compreensão e assimilação destas figuras. Destinados a repetirem seus traumas e conquistas continuamente com interesse claro de manter intacto o olhar deslumbrado de seu público, os super-heróis são hoje os novos e vitaminados James Bond das telonas, prolongando esta necessidade do público ao retorno a itens passados que se alonga desde as primeiras adaptações de clássicos da literatura para a mídia audiovisual.

Embora este processo possa se alongar por décadas com “fases” e “versões” de anos de duração – como o próprio 007, que ao longo de quase 60 anos contou com 6 intérpretes – ele também pode ser trabalhado por meios mais acelerados, e neste sentido nenhum outro personagem foi tão recorrente nesta última década quanto o Homem-Aranha. Desde seu debute em 2002, o herói aracnídeo foi vivido por três atores diferentes em um espaço de quinze anos e oito filmes, uma sequência de atos capaz de deixar escancarado ao público esta sensação de rotação extrema que parece ser parte fundamental da mentalidade do novo século. O curioso, porém, é que se esta repetição acelerada soou por muito tempo como esgotamento, ela agora é parte fundamental para “Homem-Aranha no Aranhaverso”, quarta adaptação do herói para as telonas que é também sua primeira animação para o cinema.

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Esta decisão tomada pelo filme comandado por Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman passa, claro, pela proposta de introduzir pela primeira vez ao espectador a figura de Miles Morales (Shameik Moore) – jovem negro de origem latina que foi criado nos quadrinhos para renovar a imagem do herói perante o público jovem – junto de uma verdadeira galeria de versões diferentes do “amigão da vizinhança” que foram criadas ao longo dos anos pela Marvel Comics em suas revistas e outras mídias. A conexão com os gibis também se propõe como parte fundamental da produção, que não só emula o viés pop das HQs no estilo da animação (que continuamente reforça traços lisérgicos e baseados no impacto do momento) mas pelo uso da referência direta, como a menção instantânea ao selo do Comics Code Authority no início já bem revela.

Mas se “Aranhaverso” a princípio soa como mais uma destas animações que segue a tendência atual de viver neste “lá com cá” do aceno a itens e nomes já conhecidos dos fãs até que ele se esgote por completo dentro de um ritmo frenético, esta sensação logo se dissolve perante sua narrativa mais compassada. Ao invés da piada, o roteiro de Rothman e Phil Lord assume o parentesco com os quadrinhos como base para um olhar mais interessado nos alicerces do gênero, usando a história de origem de Miles como ponto de partida para compreensão do conjunto de valores por trás do arquétipo do super-herói que compõe estas aventuras.

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Por este olhar, não é difícil pensar no longa como revisionista das estruturas que segue, ainda mais dado a trajetória do protagonista na trama e a forma como ela se desenrola à partir da justaposição dos arcos de formação dos diversos Homem-Aranha que se anunciam um de cada vez na tela. A diferença de Miles para estes outros, porém, é que ele passa pelos rumos da condição de elevação do fã a personagem principal (uma premissa que vem se tornando cada vez mais comum na Hollywood de hoje) quando ele se vê na obrigação de assumir o posto de herói da cidade após o Aranha original (Chris Pine) ser morto em uma de suas lutas contra o Rei do Crime (Liev Schreiber).

Mas se estas inseguranças de Miles com o papel ao qual precisa honrar são traduzidas em suas interlocuções com outras encarnações do herói – os quais incluem uma versão de Peter Parker em crise de meia-idade (Jake Johnson), uma Spider-Gwen (Hailee Stenfield) e tipos noir (Nicolas Cage), anime (Kimiko Glenn) e cartum (John Mulaney) – esta aproximação entre os personagens se relaciona menos no interesse da animação em refazer arquétipos a novos tempos (tal qual o ocorrido com franquias como “Star Wars” e “Jurassic World”) que neste jogo do filme em evidenciar a seu espectador o que de fato torna estes heróis tão atrativos a ele.

Tudo isto é feito no jogo rápido de ironização cômica que consagrou Lord e Miller como diretores no cenário, mesmo desta vez desacelerado para tornar mais claros os pontos de interesse dos realizadores sob a jornada de Miles para se tornar o novo amigão da vizinhança – e neste ponto é fascinante perceber como o trio de diretores inverte a posição da situação de trauma que há de mover o herói, instituindo a tragédia elemental em determinada altura do fim do segundo ato.

O lado mais forte de “Aranhaverso”, porém, é mesmo a animação e – mais especificamente – a forma como o filme se relaciona com os meandros desta. Nestas idas e vindas que ressaltam valores como responsabilidade, heroísmo e a importância de acreditar em si mesmo, Persichetti, Ramsey e Rothman vão aproveitando dos momentos de contato e humor entre os diferentes Homem-Aranha para criar uma espécie de grande homenagem silenciosa ao desenho, unindo especificidades dos gêneros pulp, anime, cartunesco e (óbvio) quadrinhos em uma aventura que reitera seus valores sentimentais para o público. O grande clímax do longa, imerso em um palco feito de abstrações, parece surgir exatamente para cumprir com este propósito de encontro e intercâmbio de estilos, ao mesmo tempo que reduz toda a ação àquilo que a produção considera os pontos essenciais do gênero super-heroico: o herói, o vilão e o espectador.

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É evidente que dentro de toda esta armação não deixa de haver um certo tom de adequação da parte “Homem-Aranha no Aranhaverso” no que tange sua proposta. Além de ser um exercício de multiplicação que mostra-se ideal para preservar esta lógica de renovação da marca do personagem, o filme nunca se arrisca a confrontar os modelos prévios, fazendo a reverência ao gênero (e gêneros) sem nunca testar o limite de suas estruturas.

O que impede todo este colapso de “bom comportamento”, no fundo, é que todo o tom de homenagem nunca se deixa passar por um reforço da imagem principal do Homem-Aranha, mas permite que esta se difunda em vertentes e possibilite novas reinterpretações dos mesmos elementos em cenários e contextos diferentes, levando em conta o fascínio do espectador em todo o processo. Neste sentido, a fala da participação de Stan Lee na história define parte do sentimentalismo e do tom cíclico eterno que são parte fundamental do tom da animação: “O uniforme sempre cabe”.

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