‘Aquaman’: o heroísmo em tintas hipercoloridas e alguma cafonice

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Por Pedro Strazza

Desde que a Warner Bros. resolveu seguir os passos da Disney com o Marvel Studios e criar nos cinemas um universo compartilhado de super-heróis para chamar de seu, os longas baseados nos personagens da DC Comics parecem orbitar dentro de uma redoma de valores que no fundo parecem estarem sendo repetidos à exaustão por estes projetos. É uma condição no mínimo esquisita para o estúdio pois, enquanto os heróis da concorrência são alvo de debate do público e da crítica por recorrerem filme após filme a uma mesma base visual e narrativa pré-formatada, suas produções são exaustivamente criticadas por não “acertarem o tom” de suas histórias e personagens, como se tudo não passasse de um problema de pausterização mal bolada pelos realizadores.

Mas embora muito se critique o “universo DC Comics” pela ausência de um “grande criador” que norteie seus rumos da mesma forma que Kevin Feige faz com a Marvel, o problema destes projetos no fundo reside nas reminiscências de uma relação um tanto má-finalizada do estúdio com Zack Snyder, seu “primeiro” arquiteto e responsável pelas três primeiras grandes apostas da Warner com este formato (“O Homem de Aço”“Batman vs Superman” e “Liga da Justiça”). Mesmo tendo sua participação criativa reduzida ao mero posto simbólico desde meados da produção de “Liga”,
Snyder ainda parece se manter como uma sombra nos rumos deste encadeamento de longas porque sua compreensão dos personagens da editora como heróis divinos destinados a ter seus ideais postos em crise insiste em permanecer presente nestas novas histórias, que mantém de certa forma intocado estes temas apesar das diversas danças das cadeiras executivas e as variadas contratações de novos diretores e roteiristas para promover um “novo olhar” a estas histórias de forma a recuperar os bons números de bilheteria perdidos.

É um processo ainda muito recente (até aqui são “apenas” seis episódios lançados em um espaço de cinco anos), mas este postura conflituosa perante os signos e legado do diretor mostra-se reiterado continuamente pelos novos capítulos mesmo quando eles procuram criar todo tipo de distância visual da sobriedade caricata daqueles filmes. Em “Mulher-Maravilha”, por exemplo, esta aproximação com os temas trabalhados por Snyder se dava por vias bastante diretas ao apresentar como principal dilema de Diana a sua própria relação com a humanidade enquanto uma figura sobre-humana – uma discussão que era central aos rumos de “Batman vs Superman”, vale acrescentar.

Já o caso de “Aquaman” é – a exemplo de sua própria estrutura – um pouco mais berrante nos contornos desta relação de atração e repulsa pelo antecessor. Filho único de uma primeira tentativa da Warner de superar em termos executivos este momento inicial conturbado de seu universo – o longa foi produzido no breve intervalo de tempo em que o quadrinista Geoff Johns foi escolhido para assumir o posto de “maestro” do braço heroico do estúdio – o debute do filho de Atlântida nos cinemas ainda carrega em seu DNA parte dos pressupostos “mitológicos” deixados por Snyder, mas também é quase antagônico a todo o clima de ceticismo sombrio do cineasta ao abraçar o cafona como base para a materialização do verdadeiro épico em mãos.

Como os elementos dispostos bem sugerem, esta quebra não é nada discreta, ainda mais pelo do desafio disposto ao diretor James Wan ao ter de trabalhar um filme cuja maioria das cenas se passa debaixo da água. Com verdadeiras montanhas de efeitos visuais à mão, a obra não demora a revelar um mundo aquático hipercolorido e dominado pelo néon que dê cabo da missão de traduzir para as telas – e algumas vezes de forma quase literal – o lado mais vibrante dos quadrinhos, seja no visual dos personagens e das criaturas marinhas (que chega a ser próximo do plástico em algumas horas, a exemplo das armaduras mais futurísticas dos soldados) ou no retrato de Atlântida e outras cidades submarinas como verdadeiras metrópoles futurísticas ou grandes impérios exóticos dotados de sábios conhecimentos. Em termos visuais, tudo no filme de Wan sugere uma grandiosidade guiada pelos caminhos do ridículo, à altura de um personagem de sangue real que por décadas se manteve como chacota dos quadrinhos por “conversar com os peixes”.

Mas se o longa de Wan funciona à base do deslumbre perante as imagens de um mundo dominado por exotismos e o fantástico, a narrativa desenvolvida em cima do roteiro de David Leslie Johnson-McGoldrick e Will Beall também busca abarcar uma trama que esteja à altura do épico grandioso apresentado e passe por uma dramaturgia capaz de dar estofo a seu protagonista. Para isso, o filme não economiza na hora de promover questionamentos sobre a figura gigante de Arthur Curry (Jason Momoa), cuja relação com Atlântida é do princípio tratada como tema maior da aventura: do tratamento do herói como ovelha negra por conta das diferentes origens de seus pais – sendo o pai (Temuera Morrison) humano e a mãe uma rainha atlante (Nicole Kidman) – até sua relação conflituosa com o irmão Orm (Patrick Wilson, um dos membros do elenco mais à vontade graças ao papel de vilão), a trajetória de Aquaman para ir além do papel de herói e se tornar um rei para “seu povo” passa por questões de identidade e responsabilidade cujas crises não deixam de carregar um viés mitológico parecido com os outros filmes do universo DC.

O grande obstáculo que separa a jornada do herói aquático de seus irmãos de obter o mesmo resultado – e, portanto, torna-se um problema incontornável à produção – acaba sendo na verdade dois. O primeiro, mais enfático e sensível, é o suposto agigantamento destas questões para situar tamanho drama dentro de um cenário de realeza  e suas lutas de corte, uma dinâmica nobre que o texto escrito por Johnson-McGoldrick e Beall se mostra hesitante para conceber.

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Enquanto é um erro dos roteiristas a opção por multiplicar tramas para alcançar o status de épico – toda a história de origem do vilão Arraia Negra (Yahya Abdul-Mateen II), por exemplo, soa gratuita e mesmo prejudicial aos caminhos do protagonista – esta oscilação é sentida com maior força na direção de Wan, que muitas vezes recorre a seus malabarismos de câmera e o farto orçamento de efeitos visuais para acobertar a flacidez inchada de seu roteiro – não que as decisões criativas do diretor não ajudem a conferir certo arrasto ao filme em alguns momentos, especialmente na ação onde tudo vira uma montanha-russa sem nenhum fundamento lógico básico.

Já a segunda questão é um tanto mais displicente e se relaciona justo com esta inevitabilidade sonsa com a qual a obra insiste em navegar por estes dilemas existenciais super-heroicos, uma narrativa que dada as proporções e proposta de “Aquaman” se prova muito deslocada no campo temático. Enquanto Wan almeja aqui uma produção mais clássica para apresentar a origem de seu herói como uma grande ascensão fabular ao trono do reino, o filme seguidas vezes também parece querer fazer o caminho contrário em busca do choque, promovendo certa seriedade temática a situações periféricas para pincelar um retrato um tanto complexo da disputa pela coroa, desde a menção a temas contemporâneos como a poluição marinha até o próprio arco do Arraia – cuja sede de vingança contra o herói surge de uma motivação que mais ou menos problematiza a imagem de mocinho do protagonista.

O problema desta vontade de complicar o cenário é que dentro da estruturação mais básica do épico disposto todos estes questionamentos acabam saindo caricatos, e é partir daí que “Aquaman” de fato começa a girar em falso em suas pretensões. Feitas para equilibrar um pouco do maniqueísmo presente no longa, estas supostas “complexificações” da história acabam restritas ao caráter pontual e só reforçam o quão efêmeras são as movimentações da narrativa, que não hesita em largar arcos pela metade em uma ânsia um tanto mequetrefe de gerar momentos de catarse ao fã. Por mais que se busque aprofundar nos incômodos de Arthur com Atlântida ao longo do filme, por exemplo, tudo isto é subitamente descartado para possibilitar a ele a oportunidade de “vestir o manto” e se tornar o Aquaman dos quadrinhos, cavalo-marinho de montaria e tudo.

Esta relação quase exclusiva do longa com o fã não deixa de ser reflexo de um filme que parece existir somente da pose e do efeito instantâneo, uma condição que além de uma deturpação muito clara do cinema de Snyder (cujas pretensões a princípio partem justo desta vontade imediatista de “materializar” o produto original, seja ele qual for) também explica o desequilíbrio de tom notável de “Aquaman” enquanto obra. É uma falta de pulso tamanha para orbitar em um meio termo entre a aventura mais pura e a sátira do gênero que o elenco em grande parte do tempo se vê engolido por esta discrepância, incapacitado de encontrar uma voz para seus papéis que acate tanto a caricatura quanto a dramaturgia – quem mais sofre com isso, claro, é Momoa e Heard, cuja dinâmica entre seus heróis no papel é fundamental para a mediação de todos os lados e na prática se perde com a completa falta de perspectiva.

Não deixa de ser uma ironia divertida, então, que no fim o filme se revele interessado apenas em contar uma história sobre um amor impossível e (por consequência) como ela contornou barreiras para encontrar o “felizes para sempre”. Junto da própria ironia auto-imposta de outro conto de super-heróis da DC Comics sobre o que no fim são questões maternas, este desejo da produção por um ideal mais ingênuo dentro de um mar de falsas complexidades soa exatamente como o tipo de triunfo vazio buscado por um estúdio em seu esforço de “reabilitar sua imagem” perante um fanatismo um tanto torpe. (Do B9)

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