Saída de cubanos abre primeira crise grave envolvendo Bolsonaro

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A saída dos médicos cubanos do Brasil é uma porrada política forte no novo governo que ainda não começou. Talvez a mais forte delas até agora porque, dessa vez, por mais que tente, Bolsonaro não controla a narrativa.

O problema objetivo: os médicos cubanos atuam, sozinhos, em 1575 cidades (lembrem que o Brasil tem 5.570 municípios). Esses médicos cubanos cuidam de 24 milhões de pessoas. Ainda não há data para que os profissionais parem de atuar no Brasil mas, de uma hora pra outra, muita gente pode ficar sem médico. É uma crise gigantesca sem solução fácil. As bravatas de Bolsonaro, dessa vez, não servirão para nada além de agradar ao fandom. Isso abre as portas para que milhões de pessoas comecem o ano irritadas com o novo governo.

Leiam o que escreveu a repórter Nayara Felizardo em uma reportagem sobre a cidade de Guaribas, no interior do Piauí, publicada no mês passado:

“Outro programa que os moradores temem que termine é o Mais Médicos. Os médicos cubanos, contam, estão disponíveis todos os dias e ainda visitam as famílias em casa, se for preciso. Antes, não havia nenhum médico residente na cidade, e o atendimento acontecia uma vez a cada um ou dois meses.”

Guaribas não é exceção. Muitas cidades não tinham médicos antes do começo do programa, em 2013.

Do ponto de vista da retórica de Bolsonaro, as opções postas na mesa até agora são péssimas:

1. Ele pode voltar atrás de suas declarações (pra variar) estapafúrdias e sem pé na vida real e negociar com Cuba pra manter os 8.612 médicos por aqui – e se tornar automaticamente aquilo que critica, um “financiador de uma ditadura comunista®”, o que deve pôr boa parte de seus eleitores em tilt ideológico.

2. Ele pode ver os cubanos indo embora e começar a lidar nos primeiros meses de governo com a insatisfação de milhões de pessoas em todo o país.

Bolsonaro fala demais. Verba volant, mas às vezes é um bumerangue que volta direto na sua cara.

Bom feriado.

(Transcrito do The Intercept_Brasil)

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