O encantador de serpentes

POR GERSON NOGUEIRA

Com o já costumeiro tédio que cerca a entrevista do técnico da Seleção Brasileira, foi anunciada na sexta-feira a nova lista de convocados por Tite para dois daqueles amistosos que nada acrescentam aos preparativos do Brasil para a Copa América – contra Uruguai e Camarões.

Na convocação, nenhuma grande novidade, a não ser um ligeiro agrado ao goleiro sub-20 do Cruzeiro, a volta de Paulinho e a presença de Alan, um meio-campista que preenche a cota habitual de falsas descobertas de Tite.

O fato é que desse jeito, empurrando com a barriga, Tite vai levando o barco, safando-se aos poucos da maré mais braba de rejeição pós-fiasco na Rússia. Continua prolixo, chato, professoral e com a eterna pretensão de reinventar o idioma.

Alguém já comentou que Tite tem o perfil de um encantador de serpentes. Convenceu boa parte da mídia de que iria levar a cabo uma verdadeira revolução de hábitos e prioridades na Seleção. Foi parcialmente bem-sucedido.

Mas, depois do tropeço na Copa do Mundo, fica difícil reeditar a empolgação criada na torcida durante as Eliminatórias em 2017, quando o Brasil saiu triturando adversários pelo continente. É bom lembrar que quase todos os oponentes estavam alquebrados, sem forças para oferecer resistência a um time que ganhou motivação extra com a troca de técnico.

Cabe reconhecer que há méritos inegáveis de Tite naquela campanha, mas a Copa se encarregaria de revelar as mazelas e fragilidades da equipe. De quebra, serviu para quebrar o encanto do técnico junto à massa torcedora, embora seu charme continue intacto com boa parte da mídia nacional.

Como o Brasil atravessa um período prolongado de entressafra, com o surgimento de bons jogadores sem aquele brilho singular que distingue craques de jogadores comuns, as dificuldades de Tite tendem a aumentar.

DESENHOS-03

A unanimidade do período que antecedeu a Copa já não existe. Meses antes do mundial, Tite era o principal garoto-propaganda em atividade no país, rivalizando diretamente até com Neymar, principal astro da companhia.

Os últimos amistosos mostraram um visível relaxamento do próprio Tite, cujas crenças táticas vêm sendo gradativamente derrubadas. As argumentações continuam sólidas, mas o discurso não tem conexão com o que se vê em campo.

Artur, o volante moderno que não foi levado à Rússia por simples capricho, emerge como sopro de redenção de um meio-campo atrapalhado pela sombra de Neymar – cada vez mais posicionado atrás, como se reunisse as características de Messi, um improvisador nato, de fino quilate e que consegue mudar de direção em alta velocidade.

Mas, mesmo com presença satisfatória, Artur sozinho não é capaz de enfeixar as responsabilidades que a meia-cancha exige. Joga ao lado de Casemiro, mas precisa de espaço para avançar mais. Contra a Argentina ficou estampada a limitação criativa do setor.

Talvez a Copa América permita à Seleção um renascimento, mesmo discreto, que pode também beneficiar Tite. Há, porém, o risco óbvio de um vexame ainda maior do que o insucesso na Copa do Mundo.

A falta de jogadores acima da média dificulta a formação de um time nos moldes pretendidos por Tite: com capacidade de marcar em seu campo, alternando presença no território inimigo e que explore infiltrações em velocidade de Gabriel, Neymar e Firmino (ou Douglas Costa). Para piorar, as peças que o técnico utiliza preferencialmente não evidenciam evolução. Uma encruzilhada.

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Pizza em compasso de espera

Continuava, até a noite de sexta-feira, a espera pela decisão da Assembleia Geral do Remo acerca do pedido de impugnação da chapa 10, encabeçada por Manoel Ribeiro. Conselheiros e beneméritos que conhecem o estatuto do clube garantem que o caso, se julgado com rigor técnico, compromete inapelavelmente a candidatura da situação.

Como no Remo atual não há como esperar rigor e neutralidade quando o julgamento envolve um cacique do porte de Ribeiro, a expectativa é de que a pizza aquecida na Junta Eleitoral deverá prevalecer na AG.

Na disputa, a chapa da situação é favorita, caso os embaraços jurídicos sejam sanados. Fábio Bentes e Marco Antonio Pina correm por fora, com forte inserção do primeiro junto à nova geração, mas suas chances seriam bem maiores com o voto de sócios torcedores, impedidos justamente para evitar danos ao controle do Marechal sobre o colégio eleitoral.

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Bola na Torre

Guilherme Guerreiro comanda o programa, hoje excepcionalmente às 23h50, em função da cobertura da eleição. Tommaso e este escriba de Baião compõem a bancada.

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O futuro em nossas mãos

Este é o domingo mais importante de nossas vidas nas últimas seis décadas. Um dia crucial para a democracia no Brasil, para o futuro de nossos filhos. As opções estão bem claras, inconfundíveis. É só escolher o caminho.

A hora exige consciência, esclarecimento e equilíbrio.

(Coluna publicada no Bola deste domingo, 28)

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