Jann Wenner e a Rolling Stone: como um editor inventou o rock

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Por André Forastieri, em seu blog (andreforastieri.com.br) 

Quando a Rolling Stone estava começando, perguntaram para seu criador, Jann Wenner, 20 anos: mas você quer fazer jornalismo, uma revista de crítica musical, ou um trambique para tirar dinheiro dos adolescentes?

Todas as alternativas, é a resposta de Joe Hagan, autor de “Sticky Fingers – The Life And Times of Jann Wenner and Rolling Stone Magazine.” É a biografia autorizada de Wenner, que a desautorizou. É detonado por Hagan já a partir do título, “Sticky Fingers”, Dedos Lambuzados. É referência ao álbum clássico dos Rolling Stones, mas também gíria para mão leve (e para sexo manual a dois; dedos melecados de fluidos vaginais).

Wenner escolheu pessoalmente Hagan, jornalista “sério”, investigativo. Deu acesso a cinco décadas de arquivos, diários, cadernos, acesso total, e horas e horas de entrevistas.

Hagan negociou liberdade quase absoluta. Fez dezenas de entrevistas. Trabalharam juntos no projeto por quase quatro anos.

O resultado é irresistível para leitores de uma certa geração – a minha. Fui editor de revista de rock (Bizz, 1990-93) e encabecei uma tentativa de trazer a Rolling Stone para o Brasil no ano 2001, na editora que eu era sócio, a Conrad.

Lembro de entrar na redação, na Sexta Avenida, Nova York, e pensar: é tudo que uma revista de rock não devia ser. Um claustro sepulcral, sombrio, polar. Jornalistas isolados em baias altas, concentrados como monges.

Éramos André Barcinski, que seria o editor da revista; o amigo e colega de Conrad, Odair Braz Jr.; e eu. Três ainda jovens jornalistas. No longo corredor que leva à sala de reunião, ampliações de capas da revista dos últimos meses. Velhas lendas anti-establishment, Dylan, U2. Jovens fenômenos com pouca roupa: Britney, N´Sync.

Pergunto para a jovem executiva com quem estamos negociando: os leitores fiéis da revista (homem, branco, 40 anos pra mais, abonado) não ficam furiosos com galãzinhos teen desnudos na capa da Rolling Stone?

Ela explica: os coroas já são assinantes, 90% da circulação normal. Os ídolos das garotinhas vendem um monte nas bancas. Essa venda extra joga a circulação média anual para cima, o que faz subir o preço das páginas de publicidade.

Wenner sabia desde jovem que “enfrentar o sistema” era só mais uma estratégia de marketing das bandas e gravadoras, e sua, para faturar. “Nós não queríamos ser hippies”, diz a Hagan. “Eu sempre fui burguês. A Rolling Stone é burguesa. Seus leitores são burgueses. Toda essa besteira de contracultura é merda.”

A infância e adolescência de Jann são cenários de David Lynch, bizarria e crueldade sob a normalidade suburbana. Sua obsessão é ser aceito pelas pessoas “certas”. O jornalismo é seu caminho natural para a ascenção social na São Francisco de 1967. A cidade dos beatniks e da revolta estudantil é o centro mundial da revolução cultural, da psicodelia, contracultura, contestação.

O jornalista Chet Flippo o compara a um tubarão: “a única coisa que ele tinha dentro de si era apetite”. Jann sacrifica muito em busca de status – até sua natureza homossexual. Para ser aceito como editor, e depois empreendedor e magnata, é necessário manter as aparências. Sexo com homem, só escondido.

Passa por cima de tudo e alucina geral. Ao saber da morte de Janis Joplin por overdose, em 1970, ordenou para a secretária: “cancele a assinatura dela.” Chapado de cocaína, se empanturra de comida congelada, sem lembrar de descongelar antes, e quase morre.

Em 1975, encana de se candidatar à presidência dos EUA, e por pouco não se lança. “Jann decidiu que é mais descolado andar com políticos do que com roqueiros”, disse Hunter Thompson, seu amigo e colaborador da revista, ao Washington Post. “Claro que ele quer ser presidente. É o máximo de poder!”

Wenner tinha dedos leves desde o comecinho. Copia o design e abordagem da revista em que colaborava, a Ramparts. Chupa de um amigo hippie o conceito de tratar o rock como arte adulta e sua lista de potenciais assinantes. Trai de cara seu ídolo máximo, John Lennon, que salvou a revista logo no começo, lançando em formato de livro uma longa entrevista com ele, sem sua autorização.

Rouba o Rock’n’Roll Hall of Fame de seus fundadores, na cara dura, e se jacta: “fodemos eles”. Passa a perna em sócios, inclusive Mick Jagger, com quem lançou a edição britânica da revista (pragmáticos, a dupla mantém uma amizade interesseira há décadas).

Dá cambau até na mulher, Jane. “Jann era a pessoa mais ambiciosa que eu já conheci”, diz ela hoje. Lânguida princesinha judia de Nova York, era o contraponto perfeito ao instinto predatório de Jann. Seus pais financiaram o começo da revista.

As histórias dos colaboradores da Rolling Stone são quase tão saborosas quanto as sobre Jagger, Lennon e cia. Como o próprio Hunter S. Thompson, consumindo montanhas de drogas, sempre afiado e treteiro, parindo reportagens alucinadas. E Lester Bangs, Tom Wolfe, Ben Fong-Torres, Greil Marcus, Joe Eszterhas, Jon Landau.

A equipe enfiava o pé na jaca, com estímulo e colaboração do chefe. O escritório tinha uma salinha dedicada ao consumo de drogas. Wenner pagava bônus para os melhores funcionários em papelotes de cocaína. Assediava sexualmente funcionários, gays e heteros, homens e mulheres.

A fotógrafa Annie Leibovitz foi descoberta por Jann aos 21 anos. Ela soube como ninguém capturar o sex-appeal do rock. “Quando eu digo que quero fotografar alguém, quero dizer que quero conhecer essa pessoa – transar com ela.” E de fato pegou grande parte dos fotografados. Teve uma longa e complicada relação romântica com Mick Jagger. E também com Wenner e Jane.

Annie registrou todos os principais nomes da época: Warren Beatty e Ken Kesey, Truman Capote e Jane Fonda, Salvador Dali e Alice Cooper. Foi pirando até virar junkie de anedota. Mais de uma vez foi largada pelo seu traficante, desacordada na porta de um hospital. Coroa, entrou na linha – e se casou com a escritora Susan Sontag.

A Rolling Stone, Annie à frente, aproximava o leitor dos bastidores dos famosos, nas fotos íntimas, nas fofocas: “Rumores de romance: Faye Dunaway e / ou Peter Wolf e/ou Jack Nicholson e/ou Roman Polanski.” Quando a revista mudou de San Francisco para Nova York, mais ainda. É o mundo do Studio 54, da celebridade pela celebridade, da decadência glamurosa, dos polaróides de Andy Warhol.

O apartamento de Jann e Jane era uma festa permanente, drogas a rodo, porta jamais trancada. Por ela passavam roqueiros de todos os naipes e gente como os atores Michael Douglas e Richard Gere, o bailarino Mikhail Baryshnikov e o comediante John Belushi, que é a cara da Rolling Stone na virada para os 80. Morre em 82 de uma overdose de cocaína e heroína após uma noitada com Robert de Niro e Robin Williams.

Wenner queria sempre mais. Queria Hollywood e tentou inutilmente ser produtor de TV e cinema. Queria ser respeitado no jet set e comprou seu próprio jatinho. Queria ser recebido pelo dinheiro velho, e cortejado pelo dinheiro novo.

Aos 53 anos, queria se assumir homossexual. Depois de anos de casos às escondidas, Jann anunciou ser gay em 1995, apaixonado por um jovem modelo e designer, Matt Nye. O casal adotou três filhos e está junto desde então.

Essa história de muito sexo, drogas demais e tudo por dinheiro talvez se beneficiasse de um narrador de ambições mais desmedidas. Convidativo imaginar esse livro reescrito por um grande jornalista da geração de Wenner, como Tom Wolfe, que há pouco nos deixou. Mas os personagens do livro já são maiores que a vida, à sua maneira comezinha. Ícones do New Journalism competiriam com seus entrevistados pelo holofote.

A Rolling Stone começou a perder a importância quando o Rock deixa de ser o principal disseminador do Novo, perdendo esse papel para algo muito maior e melhor: a internet. Wenner perdeu o barco digital, como toda a velha mídia. Hoje a RS é uma sombra do que era. Lá e aqui.

E não, não fui eu que publiquei… nossa negociação de 2001 empacou por razões várias; principalmente ganância. Foi outra editora, anos depois. Publicou ótimos artigos, sob direção de jornalistas como Ricardo Cruz e Pablo Miyazawa; nunca teve o ataque político da americana. Ainda bem que nosso projeto furou, vejo em retrospecto. Não tínhamos uma estrutura de venda de publicidade para isso; a música foi ficando desimportante; a própria Conrad racharia em 2005, cada sócio para um lado; não sou Jann Wenner.

Mas o impacto social da revista foi gigantesco. Não dá para não se emocionar com o depoimento de Bruce Springsteen ao livro. Isolado na sua cidadezinha do interior, encontrando seu rumo ao ver o primeiro exemplar da Rolling Stone na drugstore da esquina: “A revista era a única prova de que alguém, lá fora, pensava no Rock da mesma maneira que a gente”.

Hoje Wenner é um senhor de 71 anos, mesma idade de Donald Trump, e eles têm muito em comum, observa Joe Hagan: “o egoísmo cru, a carência emocional, a devoção total à celebridade e ao poder… Wenner foi um pioneiro da Era do Narcisismo. Ele adora a fama, e viu a ascensão de Trump como tudo na vida: mais uma oportunidade.”

Enquanto a Rolling Stone criticava Trump, outra revista sua, a US Weekly, publicava lindas fotos dele com Melania e sua “linda família”. Wenner disse: “Você tem que respeitar Trump, ele trabalha duro.” Estas edições venderam muito; pouco tempo depois, Wenner vendeu a US Weekly para um milionário apoiador de Trump, David Becker.

E se completa assim a trajetória do Rock: era potente agente de mudança, caldo alucinante e contraditório, mistura explosiva. Hoje sobrou só o oportunismo. O rockstar máximo da nossa época é Trump, que se elegeu gritando com seu sistema, em turnê permanente dando show para a tietagem, mentindo nas redes sociais, tudo pela fama e fortuna. E assim chegou onde Wenner, o maior editor da história do rock, somente sonhou: é o homem mais poderoso do mundo.

(Versão de um artigo que escrevi em junho de 2018 para a Revista Cultura, da Livraria Cultura, a pedido do editor Ivan Marsiglia. Ivan me levou a colaborar para o Aliás, no Estadão, anos atrás, e fez uma bela revista. A Cultura cancelou na terceira edição, uma pena. Com a crise no mercado de livros e revistas, somada à crise geral do Brasil, o bom conteúdo editorial vai sumindo do mapa. Bem, costumo dizer que demorei 20 anos para aprender a fazer revista, e quando estava quase aprendendo, acabou… mas deixa a nostalgia para lá, que é um mundo melhor e mais livre, hoje.)

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