Sem unanimidade, Tite encara o desafio de renovar a Seleção

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Por Dassler Marques e Pedro Lopes

A passagem da Seleção Brasileira que se inicia nesse domingo (2), nos Estados Unidos, inaugura um novo ciclo para a seleção brasileira. No comando da equipe que enfrentará os EUA em 7 de setembro, e El Salvador, no dia 11, Tite tem pela frente o desafio de promover uma renovação no grupo, mas sem abrir mão de resultados satisfatórios. É um processo que requer equilíbrio, e no qual o treinador encontrou dificuldades em trabalhos recentes em clubes.

Desde que substituiu Dunga, Tite esteve nos “braços do povo” à frente do Brasil. Com méritos indiscutíveis nos resultados, foi pouco contestado, e ganhou estofo para permanecer no comando técnico mesmo após uma eliminação em Copa do Mundo. Com a queda nas quartas de final na Rússia diante da Bélgica, entretanto, vem a abertura para questionamentos.

O técnico brasileiro indica estar ciente da possibilidade de mudança de clima. A prova disso foi uma entrevista coletiva de mais de 1h no anúncio da convocação para os amistosos. A mensagem foi de exposição a toda forma de contestação.

“Ela é maior (a pressão), na medida que não vence a Copa, é maior. Estabelecer os passos, o próximo passo, é o mais importante. Esses passos bem dados fortalecem lá na frente. Em nenhum momento na nossa fase pegamos individualmente oscilando em um nível de consciência baixo. Os resultados apareceram, a equipe estava bem, mas em algum momento na Copa isso mudou. Faltou confiança. Queremos consolidar essas etapas de agora. Jogando muito, para que as pessoas possam analisar, que vejam que estávamos bem em diversos aspectos”, disse.

O início de ciclo irá apontar o reflexo prático das palavras de Tite. Diante do treinador, se apresenta um dilema que foi seu algoz quando esteve à frente do Corinthians. O processo de substituir nomes experientes e de confiança por jovens com futuro promissor, sob a pressão obter resultados, foi problemático no passado.

Exemplo de dificuldade

Marquinhos vinha como titular durante a preparação para a Copa, mas perdeu a vaga na reta final. Tite preferiu apostar em Thiago Silva, mais experiente e que acabou fazendo um grande Mundial ao lado de Miranda. O zagueiro de 25 anos do PSG é, por outro episódio, um emblema da dificuldade de Tite no lançamento de jovens.

Em 2012, ao subir para os profissionais depois da Copa São Paulo de Juniores, Marquinhos atuou no Corinthians de Tite como lateral ou volante em diversas ocasiões – a estatura levava o comandante a questionar sua eficiência como zagueiro.

Com a saída de Paulinho, o técnico deu aval para que o defensor fosse negociado com a Roma, da Itália, já que surgia a necessidade de reforçar o meio de campo. Os italianos pagaram cerca de 3 milhões de euros, e negociaram o brasileiro com o PSG meses depois por 35 milhões de euros.

Há outras situações similares. Titular com Mano Menezes, Malcom, atualmente no Barcelona, foi barrado por Tite no Corinthians em 2015, e só recuperou a posição com uma lesão de Rildo. Antes de dar oportunidade a Arana, testou o zagueiro Yago e o lateral-direito Edilson no lado esquerdo corintiano.

A convocação de Tite para os amistosos nos EUA sinaliza a relutância em promover uma renovação radical. Ao lado de novidades como Arthur, Andreas Pereira, Paquetá e Richarlison, há o apoio de jogadores mais experientes, que dificilmente chegarão a 2022 em alto nível físico, como Thiago Silva, Filipe Luís e Willian.

Fagner e Renato Augusto estariam nesse grupo, mas o primeiro teve uma lesão na coxa constatada pelo Corinthians e já foi cortado, enquanto o segundo pediu dispensa por motivos particulares.

Pressões internas

A eliminação diante da Bélgica na Rússia gerou os primeiros sinais de pressão sobre Tite dentro da própria CBF. Antes de negociar a renovação do treinador, o discurso na entidade era de reduzir a autonomia durante o novo ciclo. No Mundial, os departamentos de fisioterapia, preparação física e departamento médico não falaram a mesma língua, e isso incomodou a confederação.

O excesso de lesões e as discordâncias no discurso de recuperação e prazo de retorno dos jogadores criaram uma situação desconfortável entre o preparador físico Fábio Mahseredjian, o fisioterapeuta Bruno Mazziotti e o médico Rodrigo Lasmar. Nesse contexto, houve uma redução da comissão técnica. Mazziotti não integra mais o quadro.

O preparador Ricardo Rosa e o fisiologista Luiz Crescente também foram colocados de lado. O desempenho do coordenador de seleções Edu Gaspar também deve ser avaliado de perto pela cúpula da CBF, e caberá a Tite balancear as relações e pressões. O ambiente político do futebol brasileiro também respinga no treinador.

Frequentemente Tite é questionado, seja sobre o passado de escândalos envolvendo os ex-presidentes da CBF José Maria Marin e Marco Polo Del Nero, seja sobre os problemas no calendário brasileiro. Datas Fifa, os amistosos nos EUA acontecem em meio às semifinais da Copa do Brasil. Até hoje, o comandante da seleção tem evitado posicionamentos contundentes sobre os temas. “Tenho aqui todas as condições de trabalho. É preciso manter o foco. Podemos tratar disso em outro momento, de outra forma. O momento agora não é propício”, disse, antes da Copa, sobre os escândalos. “Vejo a possibilidade de aperfeiçoar o calendário, sim. Se pudermos ter a condição de contornar, sim. Queremos o melhor. Há espaço para aperfeiçoamento. Mas temos muitos campeonatos, muitas datas”, foi a posição sobre calendário no momento da convocação. São questões que, provavelmente, não irão a lugar nenhum, e voltarão a aparecer nos próximos quatro anos. O desempenho brasileiro dentro de campo será determinante no impacto que elas podem ter sobre a percepção de Tite aos olhos do público.

A comissão técnica chega aos EUA neste domingo. A partir de segunda e terça-feira chegarão os jogadores. O confronto diante dos donos da casa será no dia 7, em Nova Jersey, no Metlife Stadium. Contra El Salvador, no dia 11 de setembro, no FedEx Field, em Washington. (Do UOL)

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