Ryan Williams: a louca aventura de um inglês nos trópicos

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Por Leandro Stein, no Trivela

“Foram os cinco meses mais malucos da minha vida. Eu sabia que seria diferente, mas não imaginava que fosse acontecer assim”. As palavras de Ryan Williams resumem uma das contratações mais atípicas do futebol brasileiro nos últimos tempos. Jogador das divisões de acesso na Inglaterra, com passagens por Morecambe e Brentford, o meia desembarcou em Belém. Defenderia o Paysandu, em contrato assinado por três meses. O inglês se juntou ao time em fevereiro, mas sofreu com a burocracia. Apenas no final de março ficou apto a atuar. Assim, não conseguiu entrar em campo no Campeonato Paraense ou na Copa Verde. Restou apenas a Série B, na qual jogou por 20 minutos, saindo do banco contra o São Bento em meados de maio.

A experiência de Ryan Williams no Brasil durou pouco. Em junho, o meio-campista optou por encerrar seu vínculo com o Papão. Alegou questões pessoais para tomar a decisão, com a falta de chances pesando em sua postura. Então, quase dois meses depois, o meia abriu seu peito. Deu uma extensa entrevista a Adam Bate, da Sky Sports. Falou sobre a vida no Brasil, o estilo de jogo, a paixão da torcida do Paysandu e a violência em Belém. Abaixo, destacamos os principais trechos. A dica é do leitor RDenys:

Os problemas na chegada

“O que me atrapalhou foram aspectos da organização. Eu pensei que jogaria no sábado, mas eles perceberam que eu precisava de um visto. No Canadá, foi a primeira coisa que fizeram. Eu tinha que pegar os documentos da Inglaterra, depois sair do país para a Argentina e voltar para conseguir meu visto na fronteira. Neste momento, eu estava no Brasil fazia seis semanas e estava ficando bravo. Dois dias antes do prazo, cheguei ao escritório para assinar, mas o sistema estava fora do ar em todo o país. Eu acabei perdendo a data”.

“Isso significava que eu não pude jogar pela Copa Verde, que conquistamos. O técnico obviamente precisava de outros jogadores na minha posição e acabou trazendo dois ou três meias. Normal para ele, não tinha escolha e um dos rapazes veio emprestado do São Paulo. Quando eu pude jogar, estávamos invictos fazia sete jogos. Eu joguei por 20 minutos na minha estreia, quando estávamos perdendo, e eu participei do pênalti que nos deu o empate. Penso que os torcedores estavam empolgados em me ver jogar e estavam empurrando para que eu jogasse mais. Definitivamente fiz um bom jogo e esperava mais chances, mas não aconteceu de novo”.

O futuro

“Não me importo em me sacrificar e viver em uma cidade difícil, se eu estiver jogando futebol. Se eu não estiver, então, prefiro voltar para casa. Estou esperando para ouvir quais as propostas, mas nunca é fácil. Sei que todo mundo diz que mais jogadores ingleses devem sair do país, mas quando você volta, não é fácil voltar porque dizem que você saiu da vista. As pessoas apontam que você esteve fora por dois anos e eles têm outros alvos em mente”.

“Não é desrespeito à League One ou à League Two, provavelmente o que desejo, mas o nível do Paysandu na Série B é muito maior. Os times na Inglaterra não têm noção disso. Você precisa de um técnico com um pouco de coragem e um pouco de visão mesmo para te deixar entrar e treinar”.

Arrependimentos?

“Não tenho. Parece loucura, mas foi importante para o meu desenvolvimento como pessoa ir para lá. Meus companheiros eram ótimos, o futebol era fantástico e eu cresci muito. Foi um caminho que nunca pensei que seguiria, mas recomendo 100%. Eu me desenvolvi mais em dois anos do que nos dez anteriores. Agora, só quero jogar futebol”.

O estilo de jogo

“O estilo de jogo definitivamente me agradou. Nas ligas menores da Inglaterra, talvez você não precise ter habilidade para jogar em espaços pequenos. No Brasil, você precisa de diferentes habilidades. Na Inglaterra, mesmo que você não seja um jogador técnico, pode encontrar uma maneira de atuar se trabalhar duro, correr, marcar e chutar. Um técnico achará espaço para você. O que você precisa na Inglaterra é a habilidade para ler bem a segunda bola. Mas devido à maneira como jogam no Brasil, se você não for bom com a bola, não terá chance de jogar”.

A cultura do futebol

“Tive muitas ideias para pensar o quão diferente você pode jogar. É fascinante, porque isso me fazia pensar como a cultura impacta na maneira como os jogadores se desenvolvem. Isso moldou o futebol brasileiro e os rapazes são muito abertos quanto ao assunto. Eles não gostam de correr atrás da bola, então fazem de tudo para segurá-la. Por exemplo, na League One ou na League Two, se um time é pressionado, ele vai olhar para os atacantes e mandar bolas longas para correrem atrás. No Brasil, eles te encorajam a pressionar. Querem que você pressione, porque são tão confortáveis jogando sob pressão que passarão por você. De repente, estarão correndo para cima da sua defesa”.

“Se eu estivesse treinando um time na Inglaterra, eu os colocaria para jogar em pressão alta, porque muitos adversários não têm a qualidade para jogar sob pressão extrema. Mas no Brasil, por causa da cultura, eles são bons em não jogar a bola longe, porque não querem ganhá-la de volta na confusão. Eles jogam assim desde que são crianças. O resultado é que são resistentes à pressão. Com um pouco de passes e uns dribles, você ficará exposto se pressionar. Então, se eu fosse técnico no Brasil, marcaria em meio campo, porque você quer que eles tenham a bola onde são menos perigosos”.

Adaptação a Belém

“Não era uma questão de confiança, e sim de segurança. A situação de vida era difícil para mim. Se você está em uma cidade cosmopolita como o Rio, São Paulo ou Florianópolis, ainda não será fácil, mas definitivamente dá para se adaptar. Belém era diferente. Mesmo alguns dos brasileiros me diziam que a cidade não era para eles. Então, enquanto eu estava realmente feliz em encarar o desafio, reconheci logo que seria difícil”

A violência

“No início, eu apenas saía do meu apartamento para comprar pão ou leite, mas o rapaz com quem eu vivia, Fernando Timbó, dizia que eu não sabia quão perigoso era sair. Mesmo se fosse de dia, crianças vinham até mim e diziam em um inglês ruim que não era seguro. Isso foi um pouco surpreendente. Ficava escuro bem cedo, por volta das seis da tarde. Então, às vezes eu chegava às sete e percebia que precisava de algum ingrediente para o jantar. Mas você simplesmente não podia sair à noite. Eu tenho um vídeo em meu celular de um rapaz sendo sequestrado a poucos quarteirões. Nos jornais, você regularmente via fotos de pessoas mortas no chão”.

“O problema é que você pode apenas jogar futebol por três ou quatro horas em um dia de treinamento, então eu estava passando o resto do tempo trancado em casa. Eu tentava usar o tempo construtivamente, lendo alguns livros e focando em minha melhora, mas você precisa de vida social também. Mesmo se fosse para tomar um café ou uma caminhada nas lojas”.

A paixão da torcida

“Não me entenda mal, eram pessoas amáveis e, como um inglês jogando no maior clube da cidade, eles ficavam malucos comigo. Nós tivemos torcidas de 40 mil para alguns jogos, são muito apaixonados. Quando foi anunciado que eu estava chegando, eu tive a impressão que haveria muita exposição na imprensa, porque meu Instagram explodiu. Mais de 10 mil brasileiros me seguiram em um mês. Eles eram muito ativos, então logo minha conta estava cheia de comentários em português e eu não tinha ideia do que eles estavam falando”.

“Uma coisa engraçada era quando chegava em casa do treino e mudava de canal na TV, eles mostravam nosso treino pela manhã. No Morecambe, você aparece na televisão uma ou duas vezes na temporada, particularmente se você jogar bem em um jogo de copa. Era divertido, mas no Paysandu acontecia todos os dias”.

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