As feridas da vida e a vida em feridas

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Por Júlio Sosa, em A Postagem

Era de se esperar que o suicídio de Anthony Michael Bourdain, chef, escritor e apresentador de televisão norte-americano, despertasse a curiosidade de muitas pessoas, afinal, ele não era um estranho, como muitos dos que desistem da vida pelo mundo, todos os dias. Não seria surpresa, igualmente, que os “humanos” deixassem transparecer seu lado mesquinho.

Bourdain tinha uma sensibilidade humana diferenciada, não era, apenas, mais uma estrela, tão pouco era somente um grande chef. Ele era um humano e, talvez, essa tenha sido sua grande pena, a saber, ser um humano num mundo desumanizado.

Desumanizado a tal ponto que, mesmo diante da tragédia que leva ao fim de uma vida; fim esse gerado pela desistência, alguns além de não serem capazes da solidariedade, se sentem livres à crítica. Sempre que acontece de alguém conhecido desistir da vida, surgem comentários maldosos sobre a fraqueza da pessoa, entre outros ainda mais maldosos, a crueldade humana não tem limites é o que consigo pensar nestas horas. Essa crueldade pesa, ainda mais, em ombros mais humanos, como parecia ser o caso de Bourdain. Reproduzo, para que tentar confirmar o que digo o texto, “A Ferida”, de autoria dele no livro, “Em Busca do Prato Perfeito”,

Já estava acostumado aos amputados, às vitimas do agente laranja, aos famintos, pobres, garotos de rua de seis anos de idade que você encontra às três da madrugada gritando “Feliz ano novo! Olá! Bye-Bye!” em inglês, e depois aponta para suas bocas e faz “bum bum?”. Estou ficando quase indiferente aos garotos famintos, sem pernas, sem braços, cobertos de cicatrizes, desesperançados, dormindo no chão, em triciclos, na beirada do rio. Mas não estava preparado para o homem sem camisa, com um corte de cabelo a la forma de pudim, que me detém na saída do mercado, estendendo a mão. No passado ele sofreu queimaduras e tornou-se uma figura humana quase irreconhecível, a pele transformada numa imensa cicatriz sob a coroa de cabelos pretos. Da cintura para cima (e sabe Deus até onde), a pele é uma cicatriz só; ele não tem lábios, nem nariz, nem sobrancelha. Suas orelhas são como betume, como se tivesse mergulhado e moldado num alto-forno, sendo retirado pouco antes de derreter por completo. Mexe seus dentes como uma abóbora de Halloween, mas não emite um único som através do que foi um dia, uma boca. Sinto um murro no estômago. Minha animação exuberante dos dias e horas anteriores desmorona. Fico paralisado, piscando e pensando na palavra napalm, que oprime cada batida do meu coração. De repente nada mais é divertido. Sinto vergonha. Como pude vir até esta cidade, até este país por razões tão fúteis, cheio de entusiasmo por algo tão… Sem sentido, como sabores, texturas, culinária? A famíla daquele homem deve ter sido pulverizada, ele mesmo transformado num boneco desgraçado, como um modelo de cera de madame Tussaud, a pele escorrendo como vela pingando. O que estou fazendo aqui? Escrevendo um livro de merda? Sobre comida? Fazendo um programinha leve e inútil de tevê, um showzinho de bosta? A ficha caiu de uma vez e fiquei me desprezando, odiando o que faço e o fato de estar ali. Imobilizado, piscando nervosamente e suando frio, sinto que todo mundo na rua está me observando, que irradio culpa e desconforto, que qualquer passante vai associar os ferimentos daquele homem a mim e ao meu país. Dou uma espiada nos outros turistas ocidentais que vagueiam por ali com suas bermudas da Banana Republic e suas camisas pólo da Land’s End, suas confortáveis sandálias Weejun e Bierkenstock, e sinto um desejo irracional de assassiná-los. Parecem malignos, comedores de carniça. O Zippo com a inscrição pesa no meu bolso, deixou de ser engraçado, virou uma coisa tão pouco divertida quanto à cabeça encolhida de um amigo morto. Tudo o que comer terá gosto de cinzas daqui pra frente. Fodam-se os livros. Foda-se a televisão. Nem mesmo consigo dar algum dinheiro ao coitado. Tenho as mãos trêmulas, estou inutilizado, tomado pela paranoia… Volto correndo ao quarto refrigerado do New World Hotel, me enrosco na cama ainda desfeita, fico olhando para o teto com os olhos cheios de lágrimas, incapaz de digerir ou entender o que presenciei e impotente para fazer qualquer coisa a respeito. Não saio nem como nada pelas 24 horas seguintes. A equipe de tevê acha que estou tendo um colapso nervoso. Saigon… .Ainda em Saigon. O que vim fazer no Vietnã? (Anthony Bourdain, “A Ferida” do livro “Em Busca do Prato Perfeito”, em que ele revela a dor de ser feliz e privilegiado em um mundo tão desigual e violento.)

Faço questão de colocar aqui esse texto, não só como uma homenagem a ele, mas para que nos sirva de alerta. “As feridas” dos outros, às vezes, elas são visíveis como essas que chocaram a Bourdain, outras tantas, são feridas silenciosas e escondidas como as feridas que o levaram a desistir da vida.

Eu que já pensei algumas vezes em desistir, e em uma delas realmente tentei cair fora da vida, sei o peso que se carrega, sei que às vezes a dor pesa muito, e a dor que se carrega sozinho e, geralmente, no silêncio, é ainda maior e mais sufocante. Não julguem ninguém que tenha desistido, pelo contrário, fiquem mais sensíveis aos sinais, sejam mais humanos. A depressão é algo sério!

E se você não conseguir ou desejar entender, pelo menos, cale a boca.

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