Enfrentar o racismo é questão central da democracia, diz Danny Glover

Em certo momento do programa Entre Vistas que foi ao ar nesta terça-feira (5), pela TVT, o consagrado ator norte-americano Danny Glover foi questionado se acreditava que o capitalismo não havia dado certo. “Podemos dizer, por vários motivos, que o capitalismo governou o mundo em um ritmo próprio, e se tornou o que Karl Marx e outros pensadores previram, um sistema que explora não só os seres humanos, mas também a natureza, a Mãe Natureza”, sintetizou o ator de Máquina Mortífera.

Famoso nas telas de cinema, com atuações em cerca de 20 filmes ao longo de mais de 25 anos de carreira, Danny Glover é também conhecido por sua atuação, longe das câmeras, em defesa dos trabalhadores, da igualdade racial e por justiça social. Um “papel” que cumpre com desenvoltura, como se pode ver durante quase uma hora de programa. “Às vezes, durante a evolução progressiva, era perigoso falar ou questionar o sistema capitalista.”

Citando o aquecimento global, as mudanças climáticas e a concentração da riqueza como consequências do capitalismo, Glover costuma dizer que é preciso entender o sistema para então construir movimentos sustentáveis. E cita o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que o faz lembrar o movimento de hortas comunitárias nos Estados Unidos. “São as pessoas comuns que fazem isso e não o capitalismo”, afirmou.

O ator e ativista sindical gosta de ressaltar as atitudes e ações das “pessoas comuns”. Casado há mais de 15 anos com a educadora brasileira Eliane Cavallero, Glover visita frequentemente o país e acompanha com interesse o que acontece nesta parte do mundo. “O Brasil possibilita ver o que as pessoas comuns estão fazendo, ver como elas se mobilizam, como crescem e determinam os projetos necessários para o avanço da democracia no próprio país.”

Questionado pelo apresentador Juca Kfouri se é mais fácil ser progressista na América do Norte ou no Brasil, o ator de Ensaio Sobre a Cegueira disse ver-se como um “cidadão do mundo”. Para ele, independente do lugar, o importante é perceber como “as vozes se elevam”.

“Não acho que seja mais fácil, não é que o diálogo mude de país para país, pois o que acontece num país tem dinâmicas históricas diferentes e o momento político de cada época sugere certas coisas”, ponderou. “Saber o que acontece no mundo sempre foi a minha abordagem política de desenvolvimento social e humano.”

Danny Glover afirma sem pestanejar que a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para presidente da República, em 2002, trouxe esperança para o país, especialmente para os afrodescendentes. Citou avanços, com destaque para a nova relação econômica e cultural com os países africanos, mudanças na educação sobre o temática racial e o reconhecimento das terras quilombolas.

Observamos Lula como uma personalidade, mas isso vem de baixo, as pessoas clamaram por mudanças que são visíveis e acreditávamos que seriam institucionalizadas, e isto não porque a gente quer, mas precisa haver um ativismo sustentável e isto está acontecendo”, explicou, enfatizando que o “ativismo sustentável” é importante na construção de uma democracia inclusiva.

Engajado no movimento sindical, o ator avalia que a forma como os trabalhadores se organizam tem mudado, de modo inevitável, em função da própria transformação do capital global. Para ele, é preciso discutir qual o impacto destas mudanças na vida do trabalhador, dos imigrantes e nos próprios fluxos migratórios, principalmente numa sociedade dominada pelo hábito do consumo e do materialismo. “Mas isto encobre o que acontece com os trabalhadores”, ressaltou. “Os pobres ficaram mais pobres, os ricos, mais ricos.”

Nos primeiros anos desta década, visitou várias vezes o Brasil para divulgar campanhas de entidades sindicais internacionais em defesa de trabalhadores do setor de serviços, como os da Sodexo, e da indústria, como a Nissan, pelo direito à representação sindical.

Seu engajamento no movimento negro o trouxe ao Brasil pela primeira vez em 2003. Aqui conheceu a educadora e também ativista Eliane Cavallero, com quem se casou. E passou a conhecer e se identificar com as políticas públicas e externa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a quem foi prestar solidariedade em Curitiba na semana passada.

Nesta participação no Entre Vistas, o ator de muitos papéis clássicos (de ação em Máquina Mortífera e Jogos Mortais a dramas como A Cor Púrpura e Ensaio Sobre a Cegueira) falou de seu papel na vida real, como embaixador das Nações Unidas para direitos humanos e assuntos raciais, e lutador de causas sociais mundo afora. Discutiu as injustiças globais contra a população negra e pobre. E também a injustiça praticada contra Lula, vítima de perseguição judicial e preso político desde 7 de abril. Uma prisão que incomoda o mundo democrático.

Participaram da conversa com Danny Glover, além de Juca Kfouri, a sindicalista bancária Rita Berlofa, presidenta da entidade sindical UNI Finanças Mundial, e a jornalista Semayat Oliveira, uma das fundadoras do coletivo Nós Mulheres da Periferia. O programa é exibido também pela TV Bahia, Rede Minas e TV Universidade Federal de Goiás. (Da RBA)

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