Copa perde encanto das ruas

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POR GERSON NOGUEIRA

O processo de esvaziamento da principal competição do futebol mundial vem avançando a cada nova edição, mas o que se vê neste ano é algo espantosamente triste. O que antes era celebração, com desenhos pintados no asfalto, nos muros e paredes, bandeirinhas dando às ruas uma paisagem de telas de Volpi, tornou-se um cenário de desolação.

Já se observava essa tendência em 1998, 2002, 2006, 2010 e 2014, fatídico ano em que, por suprema blasfêmia, hordas amareladas saíram às ruas para pregar o tosco “Não vai ter Copa”, de mais triste memória em face dos desdobramentos que geraria, de maneira não exatamente acidental.

Foram quatro mundiais que testemunharam a gradual redução dos mutirões pré-Copa. Até o número de pachecos minguou nesse período. Não há embasamento científico confiável, mas fica a impressão de que andar com a camisa amarela da Seleção Brasileira se tornou um fardo pesado demais.

Muito além dos significados que a camiseta passou a ter nos últimos anos, sem que o futebol tenha culpa disso, há a mancha das digitais da CBF, dona absoluta do negócio. Os escândalos descobertos na Fifa, levando de roldão os últimos presidentes da entidade – com prisões, exílio forçado e banimento –, ajudam a explicar a súbita rejeição a uma peça de roupa que já viveu dias de símbolo sagrado.

Quando a era gloriosa do futebol brasileiro, tendo à frente Pelé, Garrincha, Nilton Santos e outros menos votados, conquistou o planeta há 60 anos, ninguém jamais podia imaginar que a trajetória triunfal da Seleção – que vestiu azul na primeira conquista – sofreria desbotamento tão grave nos dias que correm.

O mais duro golpe não se dá exatamente quanto à cor do uniforme, mas lá no coração dos brasileiros. Ao cidadão comum, antes devoto extremado do escrete canarinho, é cada vez mais difícil entender que a volúpia financeira que assombra o esporte permita uma brecha para o velho sentimento de “amor à camisa”.

As desconfianças quanto à motivação dos atletas se acentuaram muito nas últimas Copas. Contribuem para isso episódios como o da “amarelada” de Ronaldo na Copa de 1998, o pouco caso dos jogadores com a desolação pelo revés em 2006 e a paulada de 7 a 1 diante da Alemanha em 2014.

Nem mesmo o esforço gigantesco dos anunciantes, com suas peças apelando ao patriotismo barato, e das grandes redes de TV, com histórias novelescas sobre alguns dos projetos de heróis, consegue quebrar a frieza que os brasileiros passaram a ter pela Copa e pela Seleção.

Pesquisa recente mostrou que a maioria das pessoas não se interessa por futebol, o que é aceitável nos Estados Unidos e no Canadá, mas soa como algo exótico e triste no país que ganhou cinco Copas e produziu os maiores jogadores de todos os tempos.

A 25 dias da estreia brasileira, ainda há tempo de alterar essa paisagem descolorida e fria, mas é inegável que a Copa já não suscita o frisson de antes e se tornou apenas um espetáculo televisivo e comercial. Falta o calor das ruas, falta cheiro de povo.

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Da supervalorização dos técnicos no Brasil

Há momentos em que duvido da sanidade de alguns ditos experts em futebol e seus tentáculos, principalmente no Brasil de hoje. Bestificado, li artigos e ouvi comentários nos últimos dias lamentando de verdade a possibilidade de Fábio Carille, técnico do Corinthians, aceitar uma proposta milionária da Arábia Saudita. Ontem à noite, o negócio parecia ter sido sacramentado e Carille deve partir para o mundo árabe.

Para começo de conversa, transferências de treinadores são absolutamente normais. Estão na conta daquelas situações sem remédio. Se surge uma proposta melhor, o sujeito avalia prós e contras, quase sempre valorizando o pró-labore. E é natural que seja assim, em qualquer área.

Deve-se lamentar é o êxodo de jogadores qualificados, atraídos pelo abundante dinheiro dos clubes estrangeiros. A perda de futuros astros gera preocupações, pois afeta o nível geral do futebol praticado aqui.

Quando a coisa envolve técnicos, não há razão para choros ou lamúrias, levando em conta a baixíssima qualidade dos que militam no futebol brasileiro, escravos dos métodos mais arcaicos, evidenciados na pífia produção dos times nacionais.

A saída de um treinador para outros centros pode ser benéfica, contribuindo para que evolua profissionalmente, respire outros ares e culturas. No caso de Carille, em particular, que vinha externando um jeito arrogante por ter vencido o horroroso Brasileiro de 2017, o prejuízo é zero.

Ora, se o melhor de seu trabalho é montar um time retranqueiro, de uma jogada só – o contra-ataque –, não pode deixar saudades. Dezenas de outros técnicos fazem exatamente o mesmo, apenas com menos sorte e sem as costas largas que o Corinthians dá.

Talvez lá, convivendo com os árabes, de cultura milenar e hábitos diferentes dos nossos, aprenda o valor da humildade, que lhe faltou ao estrilar publicamente por não ter sido reconhecido pelo uruguaio Aguirre, técnico do S. Paulo, antes de um jogo pelo Campeonato Paulista.

Ou aprenda a segurar a língua, evitando o mico do fim de semana quando negou que tivesse recebido proposta dos árabes e acusou a mídia paulistana de mentirosa, mesmo depois que o pai dele havia confirmado a história. Com a divulgação do acerto, fica claro que a mentira, se houve, foi do próprio Carille.

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Novo reforço gera esperanças no Leão

O Remo anuncia novo reforço para uma posição das mais carentes. Rafael Bastos, 33 anos, meia-armador, já rodou o mundo, jogando bem. A situação do time na Série C inspira cuidados.

Rafael pode ajudar, mas a origem do problema parece estar no sistema utilizado, o 4-3-3. Com três atacantes, os gols rareiam. Talvez com um 4-4-2, ou mesmo um 3-5-2, a solução apareça.

(Coluna publicada no Bola desta quarta-feira, 23)

6 comentários em “Copa perde encanto das ruas

  1. a camisa amarela da CBF virou roupa de pato. Virou sinônimo daquela gente estúpida e pretensiosa.
    É o uniforme das pessoas que foram enganadas, dos trouxas.
    Nunca mais vou ter ou usar a camisa da seleção, tenho pavor de ser confundido com os patos da fiesp.
    Os patos tornaram a amarelinha uma vergonha.
    Essa é a verdade.

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  2. O uso da amarelinha tem no apelo patriótico o chamariz das vendas. Desde a ditadura militar. Não é coincidência que se diga que o Brasil seja a “pátria de chuteiras”, o que ocorre é que a camisa da CBF passou a ocupar um lugar vazio na falta de uma identidade histórica do povo com o país. Essa ditadura desconstruiu um verdadeiro sentimento patriótico e nacionalista ligado à história do povo e tentou o refaze-lo baseado no clamor patrimonialista da elite e não ligado ao apelo desenvolvimentista popular.

    A ditadura transformou o patriotismo na simples defesa do território e dos valores da família cristã, o que acaba sustentando um pensamento escravocrata e estabelece o viés conservador da elite sobre o povo. A parcela do povo que se diz conservadora está convencida de que conserva os valores da família cristã, enquanto a elite acaba conservando a desigualdade.

    Se observarmos um dos países mais patriotas, senão o mais patriota de todos, os EUA, veremos que a afirmação do patriotismo está fundada na história da independência e da construção da democracia, com Lincoln e Jefferson como ícones históricos, e também na até hoje festejada vitória da 2ª Guerra Mundial, com Franklin Roosevelt e o consequente desenvolvimento de poderio tecnológico que levou os EUA a atuar como o centro mundial de tecnologia de ponta. Bem aqui se explica a hegemonia estadunidense, mas nesta construção histórica houve guerra. E a guerra pela independência significa a participação heroica do povo nessa conquista, e é bem aí que está a identificação dos americanos com sua história e a origem do patriotismo.

    Não se deve entender que uma guerra seja necessária para existir patriotismo. O que é necessário ao patriotismo é a relevância do povo na história de construção do país. E o Brasil nunca permitiu a participação do povo na formação da identidade nacional até a República.

    Mas parece que a população está passando a enxergar essa falta do país para com o povo e percebendo como o patrimonialismo está dilapidando as riquezas, vendidas muito barato ao estrangeiro apenas para satisfazer a ânsia da elite por mais riqueza. A vontade de construir um país justo e igualitário está inscrito na Constituição Federal de 1988, como o patrimonialismo da elite. Só que dessa vez, o povo não quer ficar de fora da partilha das riquezas nacionais e exige seu pedaço. E talvez por isso agora esteja apenas se recusando a repetir o erro histórico que dará em mais pobreza. E está mostrando isso com o gesto da recusa do péssimo futebol jogado no país e do anti-clímax com a chegada da Copa do Mundo.

    Vestir a camisa amarela da CBF é sinônimo de apoio político ao mesmo grupo que a tomou no regime militar. João Havelange e Ricardo Teixeira vêm dessa época e todos os sucessores são ligados a eles. A CBF sequestrou o futebol brasileiro e o está utilizando apenas engordar as contas bancárias dos dirigentes e dos sócios de longa data, como a Globo que, aliás, também apoiou a ditadura. É tudo uma panela só…

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  3. “A saída de um treinador para outros centros pode ser benéfica, contribuindo para que evolua profissionalmente, respire outros ares e culturas. No caso de Carille, em particular, que vinha externando um jeito arrogante por ter vencido o horroroso Brasileiro de 2017, o prejuízo é zero.” Gerson Nogueira, jornalista e blogueiro.
    Ele já está de malas prontas. Um outro jornalista e blogueiro de SP escreveu “se vai o melhor técnico do Brasil”. Como se diz aqui na terra papa-chibé: Égua!

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  4. A Copa do Mundo perdeu encanto nas ruas de muitos países do mundo e principalmente no Brasil país do futebol. A nível de mundo essa perda tem 3 marcos principais de desmotivação do povo do futebol: A Copa de 98 recheada de suspeições, chegada de Blater na Presidência da FIFA e de Platini ao comando do Comitê Organizador da Copa. Até hoje pairam muitas dúvidas se aquela copa na França foi competição séria e concorrência igual. O “sonho” do Platini revelado por ele dias antes de começar a Copa 98, onde disse que em seu “sonho ” via Brasil e França na decisão da Copa e o país do Napoleão sendo campeão e isso ocorreu, até hoje encuca muita gente. Ronaldo Fenômeno visivelmente dopado de medicamentos, grog, sem conseguir ficar em pé, mas entrando em campo para jogar, ninguém entendeu nada até hoje. A nível de Brasil, além de toda a onda de corrupção que inflamou a CBF nos últimos anos, existe muito também a falta de carisma dos atuais craques selecionáveis junto ao povo brasileiro e tendo o agravante que vários dos craques selecionáveis são chatos e nem craques são. Na Copa 2014 o povo brasileiro do futebol foi torturado vendo , David Luiz,Bernard , Hulk , Dante e outros de titulares. Isto tudo aliado ao vexame dos 7×1 que muitos não conseguem mais esquecer, faz o povo cada vez mais perder o encanto pela seleção. Sinceramente, tenho um colega de trabalho fã do futebol e torcedor bicolor que me disse esses dias que depois dos 7×1 não sente mais graça em ver jogo da seleção na Copa. A maior prova a queda de interesse do povo brasileiro pela Copa do Mundo e que certamente hoje o povo é capaz de escalar a seleção de 82 do Mestre Telê, que nem trouxe a Copa, mas não conseguem escalar essa seleção titular que estreará na Russia em 2018. Muito pior seria se o Brasil não fica com o ouro olímpico. Sinal dos tempos. Mas eu já comecei a comprar o plástico para enfeitar minha rua eu continuo firme na emoção por Copa do Mundo….. Não tanto quanto antes, é claro. 58 neles outra vez Brasil!!!

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  5. Agora aproveitando o tema e falando agora de nosso futebol da terra do Açaí, ouvi um notícia na mídia local da contração do ex atacante Ruan do Paysandu, o mesmo que fez o gol do acesso bicolor em 2014. Digo que muito menos pelo jogador que ainda é jovem e pelo belo gol do acesso bicolor que fez contra o Tupi, mas falando muito mais pelo histórico dele depois de sair do Paysandu, acho essa contratação pra lá de esquisita se for verdade. Mas já dizem que o azulino está acostumado com jogadores problemáticos. Então mais um menos um… Muitos lembram, principalmente do lado bicolor que ele após fazer o gol do acesso bicolor, não fez mais nada e esqueceu de jogar futebol. Não marcou mais nem um gol com a camisa bicolor. Porém ele mesmo achou de super valorizar e pedir a fábula de 130 mil para renovar para 2015 com o Paysandu. Tinha muito torcedor bicolor que pressionou a diretoria para pagar essa loucura em salários. Dr. Maia não caiu no conto do “craque” mas ainda assim ofereceu 70 mil a ale para ficar( uma fábula também), mas nem isso ele aceitou, onde segundo Dr Maia, ele baixou de 130 para 100 mil e não reduzia. Daí foi para o milionário Goiás e nem sei ganhando quanto. So sei que lá também não fez nada, e em 2016 se não me engano, voltou ao Paysandun não sei com bases salariais, mas sei que também não fez nada. Jogou uns 3 jogos e saiu nem como como e nem sei para onde. Agora a mídia diz que foi contratado pelo Remo. Será que vai ganhar pelo menos 40 mil mensais?????????SDS

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  6. O encanto foi perdido naquele 7×1, se será resgatado novamente só o tempo dirá, ressaltando que outros ‘encantos’ perdidos naqueles estádios repletos de coxinhas têm que ser resgatados juntos, caso contrário, nada feito.
    Quanto à contratação de Carile, parece ser o precursor de Tite nessa empreitada, embora seja discípulo. Pode ocorrer que, finalmente, surja uma nova leva de treinadores tupiniquins que resgate a qualidade do futebol brasileiro e isto seja referendado no exterior. Só isso.

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