A “loucura” do Serrano, um clube centenário resgatado por um jornalista

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Por Diogo Magri, no El País

“Cobri três Olimpíadas e duas Copas do Mundo. E daí? O que eu fiz pela minha cidade?”. A pergunta é de Eduardo Monsanto, jornalista, apresentador e narrador dos canais ESPN e natural de Petrópolis, cidade do interior do Rio de Janeiro. Além das ocupações na profissão que escolheu, ele também preside, há dois anos, a Frente Azul, um grupo de gestão esportiva responsável pelo clube de futebol da sua cidade, o Serrano FC. Ao ver o time comemorar seu centenário, em 2015, sem condições financeiras de disputar nenhum campeonato profissional, a Frente assumiu em 2016 o compromisso de, em cinco anos, entregar um clube viável economicamente, disputando alguma competição nacional e na primeira divisão do Estadual.

Ousado, o projeto já apresenta resultados em sua terceira temporada: a equipe iniciou neste sábado, contra o Duque de Caxias (ganhou 1×0), a disputa da segunda divisão carioca com a expectativa de brigar pelo acesso e conquistar uma vaga na Copa Rio, campeonato que dá vaga à Série D nacional e à Copa do Brasil.

O risco de acabar existia em 2015. No ano de seu centenário, o Serrano não tinha condições financeiras de disputar nenhuma competição profissional. No mesmo ano, Dudu Monsanto fez um curso de gestão técnica na Universidade do Futebol. Para o trabalho de conclusão de curso, precisava traçar um planejamento estratégico para um clube real ou fictício. “Decidi que escolheria o Serrano”, explica. “E, no final, achei tão bom que [para aplicá-lo à vida real] era questão de reunir as pessoas certas”. Entre as “pessoas certas” estavam gerentes de futebol, advogados e publicitários com o desejo em comum de não deixar o Serrano falir.

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A relação com a diretoria ao querer assumir o clube foi tranquila uma vez esclarecidas as intenções da Frente Azul. “Os grupos gestores normalmente querem usar o clube como vitrine no futebol. Quando fomos conversar com o presidente [Alexandre Beck, que está no cargo desde 2007], explicamos que não queríamos nada em troca”. Feito o acordo, o primeiro passo foi um crowdfundingcom o lema “Camisa com história não morre”, que levantou 52.000 reais na venda de camisas, chaveiros, canecas e outros itens – “tudo bancado do meu bolso”, explica Monsanto –, fundamentais para que o primeiro passo, a reforma da arquibancada do estádio Atílio Marotti, então vetado pela Federação, fosse executada. “Mas não foi o suficiente. Tínhamos que melhorar o gramado, regularizar os jogadores e confirmar para a Federação que jogaríamos a terceira divisão até a primeira semana de abril [cerca de um mês depois do início do projeto]”, afirma Monsanto. “Mesmo sem o dinheiro, o momento era aquele. Eu tinha uma quantia guardada para comprar um carro novo e resolvi desistir dele. Minha mulher queria me dar um tiro, com razão. No primeiro ano, coloquei uns 80.000 reais do meu bolso. Foi loucura”.

Loucura recompensada

Em março a campanha começou, em abril o clube confirmou que jogaria a terceira divisão e, em setembro, o Serrano havia subido para a segunda divisão do Rio. No dia 4 daquele mês, uma vitória nos acréscimos contra o Duquecaxiense deu o acesso automático aos azuis de Petrópolis. O estádio foi reaberto já no segundo turno, depois de mais de um ano sem ser utilizado, momento que Eduardo Monsanto considera “emocionante”. “Imagina aqueles que só torcem para o Serrano. Imagina ficar mais de um ano sem ver seu time? Os caras entravam chorando. O futebol só é o que ele é por causa das pessoas”. Ele ainda cita como o aspecto humano do esporte o motiva a fazer uma boa gestão. “Já recebemos contatos de agentes que perguntaram quanto é para botar jogador no time. O futebol é um meio podre e com pouca gente séria. ‘Todo lugar é assim’, disse o agente. Aqui não é ‘todo lugar’”.

O segundo ano começou com maior orçamento, mas maiores dificuldades dentro de campo. O Serrano chegou ao sexto jogo, contra o último colocado, São Cristóvão, com quatro derrotas e um empate, ameaçado pelo rebaixamento. “Se a gente perde aquele jogo, eu ia ter que sair. Foi a quase ruptura. Ganhamos, de virada, com um pênalti aos 46 do segundo tempo”, conta. A ocasião foi, também, um teste para Marcelo Olimpio, que treina o Serrano desde o início da gestão de Dudu Monsanto e sofria pressão para ser demitido após a sequência negativa. “Se ele era bom para subir conosco, por que não seria mais agora? Trouxemos um treinador mais experiente [Wellington Fajardo, que disputou o Mineiro com a Patrocinense] para dar uma consultoria e ele nos ajudou com algumas impressões. Mudamos o esquema, ganhamos alguns jogos e terminamos brigando pelo acesso [apesar de não subir]”. Para a série B de 2018, segundo Monsanto, a ideia é manter o padrão que ditou o ano passado, com uma defesa forte e aposta na bola parada. “Não dá para aplicar o [método do] Guardiola em um gramado como o nosso”.

“Isso vale mais que um título”

Assim como a relação de confiança com o treinador, Dudu Monsanto também mantém contato com os jogadores e viaja para acompanhar o time sempre que os compromissos na emissora em que trabalha permitem. Do relacionamento com um elenco que, por necessidade financeira, tem como base jovens jogadores da cidade e medalhões sem clube, brotaram vínculos além do gramado nos três anos de gestão da Frente Azul. Um deles é com Marcelo Macedo, atacante revelado pelo Fluminense que passou por FlamengoAtlético-PR, Guarani, Coreia do Sul, México e Grécia. Antes de começar a terceira divisão, em 2016, Monsanto ligou para o jogador ao constatar que não tinha o camisa 9 que precisava no time titular. ‘Marcelo, preciso de alguém para fazer gol’. O jornalista explica que Marcelo é natural de Petrópolis e que o sonho do pai dele era ver o atleta jogando pelo Serrano. “Ele veio, com 33 anos, ganhando apenas 500 reais para tomar banho frio e jogar em gramado ruim”. O atacante acabou sendo uma referência para os garotos da equipe, segundo Dudu, e fez o gol de pênalti no jogo do acesso para a segunda divisão. “Nada me emocionou mais do que ver aquela bola entrar”, afirma o líder do projeto.

Outro caso é o de Roberto Lopes, volante que já passou por Vitória, Ceará e Vasco. “O Roberto era um cara que, quando chegou, acertou a equipe. Mas aí, ele recebeu uma proposta de emprego para trabalhar em um supermercado e cuidar do time de futebol local, já com 34 anos. Falei: ‘Roberto, aceita’. Ficaríamos fodidos sem ele, mas penso no futuro do cara”, conta Monsanto, lembrando ainda a história de Garrincha, que, poucos sabem, teve no Serrano sua primeira experiência como jogador profissional. “Em 1951, ele passou dois meses aqui. Mas morava no pé da serra e tinha que pegar trem todo dia, então logo se cansou”.

Por último, o caso de Arthur, lateral-esquerdo reserva. “Arthur tinha 18 anos quando começou com a gente, em 2016. Em uma semana de treino, ele faltou vários dias seguidos, até descobrirmos através do pai que ele tinha sido preso por tráfico de drogas”. Quando saiu, já havia perdido o prazo de inscrição para o campeonato, mas o clube fez questão que o jogador continuasse treinando com o grupo. “Era um menino muito bacana. Em 2017, voltou e foi aproveitado, porque não queríamos que ele se metesse com aquilo de novo”. Entre as últimas rodadas, ele assumiu a posição após uma lesão do titular. No jogo decisivo, precisando ganhar do Olaria para ir às semis, o Serrano, com Arthur jogando, só empatou. “Desci ao campo para cumprimentar os jogadores e, quando encontro o Arthur, ele fala: ‘Dudu, desculpa’”, conta o gestor. “Desculpa? Desculpa por quê? Você está aqui honrando seus companheiros, sua família, seu nome”. Como insiste em ressaltar, Monsanto gosta de priorizar o lado humano ao invés do resultado no placar. “É o que eu procuro no futebol. Vale mais que um título”.

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