Suicídio de Vargas abortou um Golpe. E a prisão de Lula?

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Por Bernardo Mello Franco, em O Globo

Há duas semanas, Lula amarrou um lenço vermelho no pescoço e visitou o túmulo de Getúlio Vargas em São Borja. O mausoléu foi projetado por Oscar Niemeyer e reproduz as palavras da carta-testamento. Elas pareceram ecoar ontem em São Bernardo do Campo, no último discurso do petista antes de ser preso.”

Em 1954, Getúlio sustentou que era perseguido por contrariar os interesses das elites. “Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes”, afirmou.

Em 2018, Lula repetiu o discurso ao dizer que está sendo caçado por defender os pobres. “Eles não querem o Lula de volta porque pobre, na cabeça deles, não pode ter direito. Pobre não pode comer carne de primeira, andar de avião e entrar na universidade”.

Ao “sair da vida para entrar na história”, Getúlio pediu que os aliados preservassem seu legado. “Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta”, escreveu. “Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado”.

Ontem, Lula também adotou um tom messiânico ao se despedir da militância. “Eu não sou mais um ser humano. Eu sou uma ideia”, disse. “Não adianta tentar acabar com as minhas ideias. Elas já estão pairando no ar e não tem como prendê-las. Quando eu parar de sonhar, sonharei pela cabeça de vocês”, arrematou.

O suicídio de Getúlio abortou um golpe, virou a opinião pública e abriu caminho aos futuros presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart. No caso de Lula, é difícil imaginar que a prisão terá o impacto sonhado pela esquerda. Enquanto estiver trancado numa cela, ele não poderá pedir votos na TV ou nos palanques.

Por isso, Lula aproveitou o último ato para apontar sucessores e produzir imagens de campanha. Ele saudou Dilma Rousseff como “a mais injustiçada das mulheres” que entraram na política brasileira. No entanto, reservou a maior parte dos elogios a aliados mais jovens: Guilherme Boulos, do PSOL, Manuela Dávila, do PCdoB, e Fernando Haddad, do PT. Em outubro, os três devem disputar o espólio lulista na eleição presidencial.

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