Carta aberta ao amigo que não tem corrupto de estimação

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Por Sergio Saraiva, da Oficina de Concertos Gerais

Com o advento da condenação e ordem de prisão de Lula, uma parte dos meus amigos deram de comemorar pelas redes sociais. Acompanho a política desde menino e sei que pouco sei de política. Já muitos dos meus amigos, que no mais, acompanham o campeonato brasileiro ou as novelas da Globo, de repente, se tornaram grandes conhecedores de política e economia e festejam, com a prisão de Lula, o início do fim da impunidade.

Acredito que todos estejam sendo sinceros. Alguns deles, no entanto, eu conheço o suficiente para dizer que não têm moral para acusar ninguém. Temo que outros estejam sinceramente iludidos.

São os mesmo que disseram no passado: “primeiro tiramos a Dilma, depois tiramos todos os outros”.

Temer está aí firme e forte. E meus amigos, quando agora vão para a Paulista no domingo, é para andar de bicicleta. Temer não cai – nem quando também ele assim aparece no Jornal Nacional – nem meus amigos o derrubam. Não parecem preocupados. Deveriam.

Enviam-me mensagens de ódio contra todos os ministros do Supremo que votaram a favor do habeas corpus de Lula. Mas basta digitar no Google “PGR pede arquivamento de processo” ou pior “prescreve processo contra…” e os nomes que aparecem vão de Romero Jucá a José Serra, passando por Aécio Neves – nunca Lula – e nada abala a tranquilidade dos meus amigos. Seguem suas vidas e me enviam uma foto sorridente com a legenda “sentindo-se feliz em Santa Felicidade”.

Digite “Justiça manda destruir provas” e vai aparecer “FHC” ou “Castelo de Areia”- e meus amigos enviam-me uma corrente de São Judas Tadeu – padroeiro das causas impossíveis – e solicitam que eu confirme com um amém.

Você diz que não tem corrupto favorito e quer que sejam todos presos. Eu acredito e tenho medo. Medo que seja somente uma frase feita que te ensinaram e na qual você acredita como um autoengano.

Medo de que Lula acabe sendo tão somente um Judas em Sábado de Aleluia – um espantalho que nos deram para malhar nossas derrotas e frustrações e … preconceitos – nós, os que não vamos a missa. Depois da Semana Santa, pagaremos o pato… o pato amarelo do patrão.

Não sei se você me entendeu, mas sou um eterno desconfiado – é essa alma mineira em carcaça de paulista – e, se já desconfio de patrão que paga cachaça, quanto mais de patrão que financia protesto contra imposto sindical ou contra a corrupção.

Você diz que não tem corrupto favorito e quer que sejam todos presos. Eu acredito e tenho medo. Medo de que essa sua indignação cívica e justa seja somente um vírus oportunista – eles são sempre oportunistas – um resfriado que dure uma semana e depois te torne resistente. E se essa sua indignação tornar-se somente um mal-estar passageiro – você, já resistente, não se indignaria mais.

Você diz que não tem corrupto favorito e quer que sejam todos presos. Eu acredito e tenho medo. Medo de que essa sua indignação cívica e justa seja somente efeito da tal cachaça paga pelo patrão e que – depois da euforia que as cachaças e os linchamentos causam – você acorde de ressaca sem ânimo para continuar na luta.

Não sejamos ingênuos – só um ingênuo diria e acreditaria em si dizendo “não tenho corrupto favorito, que vão para cadeia todos”. Os ingênuos acreditam que perder e ganhar faz parte do jogo, mesmo quando jogam contra adversários que trazem nas mangas cartas marcadas. Você não escolhe seus corruptos – há quem os escolhe por você.

Ao invés disso, lembremos do ensinamento de Stanislaw Ponte Preta e digamos: “Restaure-se a moralidade ou nos locupletemos todos”. Irônico e dolorido – mas realista.

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