Das delícias da rivalidade

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POR GERSON NOGUEIRA

Na semana passada, escrevi aqui sobre a resistência heroica dos campeonatos estaduais, fustigados por críticos poderosos e pelas fortes evidências de déficit. O tema volta à baila por força do entusiasmo que rodeia a fase decisiva do Parazão, com a centenária dupla Re-Pa como protagonista digladiando-se pelo título máximo estadual e galvanizando atenções da torcida paraense.

Depois do terceiro confronto entre os rivais, os azulinos mostram-se em estado de graça com as três vitórias obtidas, sendo que a última conta ainda mais pela vantagem estabelecida para o duelo final, domingo. Não se anda na rua sem ver a torcida leonina em festa, vestindo a camisa e transmitindo a alegria no sorriso aberto.

Os bicolores, de sua parte, recolhem-se ao silêncio apaziguador e estratégico, guardando forças à espera de uma reviravolta gloriosa, capaz de redimir o time do desfavorável retrospecto de embates na temporada.

Como se trata de paixão desenfreada, cujas origens estão nas raízes e estratificações mais populares do Estado, as torcidas estão certíssimas em suas manifestações pós-clássico. As brincadeiras posteriores ao jogo são parte obrigatória do ritual do choque-rei, com papel tão importante na vida do paraense quanto a própria partida.

A graça só é compreensível aos que estão envolvidos no processo, com o sarro variando de intensidade de acordo com as características e humores de cada torcedor. Têm em comum, além de um ou outro exagero nas estatísticas, a certeza de que o gozador de hoje pode ser a vítima da gozação amanhã.

O esporte, como sabemos, é maravilhoso e fascinante porque não tem a marca opressora das coisas definitivas. Permite vitórias fabulosas a um lado e concede triunfos memoráveis a outros, nem sempre de imediato, mas com certeza de maneira generosa e democrática.

Em referência ao começo da conversa, as competições estaduais se inserem nesse processo a partir da condição privilegiada de porta de entrada de todas as paixões boleiras. É inescapável: começa-se a torcer sempre pelo time da rua, do bairro, da cidade ou do Estado.

Talvez pela força das paixões, como a que mobiliza azulinos e alvicelestes, os campeonatos estaduais estejam sempre presentes na vida das pessoas. Podem não ter o fascínio de competições mais caras e lucrativas, mas encanta pela força dos sentimentos que é capaz (ainda) de despertar.

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Pikachu e as comparações com o corintiano da Seleção

No blog do Juca Kfouri, o jornalista castanhalense Antonio Carlos Salles levantou uma discussão polêmica, ontem, traçando uma comparação entre Fagner, lateral-direito reserva da Seleção de Tite, e Iago Pikachu, posicionando-se favoravelmente ao paraense. Mexeu em casa de marimbondos, fazendo torcedores corintianos descerem das tamancas em defesa do carniceiro Fagner, nome imexível na lista dos que irão à Copa.

Depois das recentes atuações, Pikachu virou assunto de todas as 300 mesas-redondas da TV brasileira. Divide opiniões quanto ao posicionamento mais adequado, mas coleciona elogios unânimes pelas qualidades que nós, paraenses, já conhecemos há tempos: facilidade para finalizações, bons dribles e cruzamentos certeiros.

Não vejo meios de fazer um paralelo entre Fagner e Pikachu porque ambos atuam em faixas diferentes do campo. O corintiano da Seleção é um lateral-direito à moda antiga, marcador e com eventuais subidas. Seria mais cabível comparar Pikachu e Taison, outro queridinho de Tite.

Pikachu é um ex-lateral-direito que, finalmente, encontrou o espaço certo para jogar: a segunda linha pelo lado direito, espécie de ala ofensivo ou meia-direita avançado, com liberdade para flutuações junto à área inimiga. Sob a batuta do técnico Zé Ricardo, no Vasco, Pikachu foi convencido a deixar de lado as responsabilidades defensivas – embora, às vezes, volte para ajudar a compor a marcação.

Antes de Zé Ricardo, ele passou por um período difícil em São Januário, quando Jorginho o deixou de lado, preferindo jogadores mais previsíveis e menos inquietos. Bem antes do Vasco, Pikachu havia tido a chance de optar pela parte ofensiva e foi orientado a fazer isso por Lecheva, mas insistiu em permanecer lateral-direito enquanto foi atleta do Papão.

A fase atual, que lembra o Pikachu confiante visto em seus melhores momentos na Curuzu, parece ser o alvorecer de uma evolução que pode fazer dele um jogador menos preso a esquemas e mais aberto a situações de jogo. Zé Ricardo entendeu bem essa peculiaridade.

Nesse sentido, Pikachu tem boas perspectivas de vir a seguir a trilha, respeitadas as necessárias proporções, de jogadores do mesmo porte físico (Marcelinho, Edilson) e habilidades semelhantes, com resultados interessantes tanto para o Vasco quanto para o próprio atleta. A conferir.

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Previsão de times (quase) completos para o último clássico

Na lista de baixas que remistas e bicolores têm sofrido nos últimos jogos e na previsão para a partida final, no próximo domingo, reina certo equilíbrio técnico e surgem perspectivas otimistas. Ao contrário do que se viu anteontem, os rivais devem ter força máxima, podendo alinhar os jogadores considerados titulares ao longo do Estadual.

O Papão não teve no último Re-Pa jogadores importantes, como Diego Ivo e Nando Carandina. Pior ainda: viu-se desfalcado de três titulares ao longo do jogo – Cassiano, Cáceres e Maicon Silva.

Entre os azulinos, Levy, Geandro, Martony e Felipe Marques foram as baixas, embora ao longo dos 90 minutos não tenha havido necessidade de substituição em face de contusões.

Para o confronto que vai decidir o título, a previsão é de que os dois lados estejam mais ou menos completos. Dado Cavalcanti tem problemas oriundos ainda do Re-Pa de domingo, mas trabalha com a possibilidade de ter de volta a zaga titular, Diego Ivo e Perema, com Nando Carandina voltando à marcação. Cassiano é dúvida, mas a única baixa confirmada é de Maicon, suspenso pelo terceiro amarelo.

No Remo, é quase certa a volta de Felipe Marques, peça fundamental do setor ofensivo, e de Levy à lateral direita, embora Gustavo tenha feito bom papel. Jayme já retornou à equipe, após longa ausência, constituindo-se em alternativa para Givanildo Oliveira.

(Coluna publicada no Bola desta terça-feira, 03)

4 comentários em “Das delícias da rivalidade

  1. O Paysandú não joga completo quando escala Cáceres cavalo paraguaio, Danilo Pires quebrado e Maicon Silva poste. A pergunta impertinente é: com as remotas perspectivas de conquistar o Parazão e Copa Verde, esses três + o técnico Dado Cavalcante permanecerão no clube para a Série B ????

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  2. Como tive oportunidade de comentar a respeito dos estaduais anteriormente, acrescento que, não fossem as rivalidades da cidade e do estado, ficaria mais sem graça o futebol. Torcer para times de fora é como namorar à distância ou dançar com a irmã.

    Por isso, sou a favor da permanência de alguns campeonatos regionais. Nem todos, só daqueles em que há rivalidade regional de verdade, como é o caso de Remo e Paysandú, Ceará e Fortaleza, Goiás e Vila, Bahia e Vitória, Avaí e Figueirense…
    Há outros, como nos quatro grandes (São Paulo, Rio, Minas e RS), que essa competição não faria falta, vez que seus principais representantes já têm naturalmente oportunidades de se encontrarem.

    Noutros, os campeonatos existem principalmente para dar razão de existência às federações, cujos respectivos senhores feudais não querem jamais largar o osso. A CBF os apóia por razõe$ óbvias, também por medo de perder o osso, que tem muita carne. Nesses estados, reinam absolutos Flamengo, Corinthians, Grêmio, Inter e outros.

    Quanto ao próximo Remo e Paysandú, todo cuidado é pouco para o Leão Azul.

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  3. Meu querido amigo Valentim, não sou a favor da extinção dos campeonatos estaduais, muito mais pela oportunidade de ver em atividade os demais times do estado do que por essa rivalidade com prazo de validade de dois ou três meses.
    Quanto a torcer por times de outros estados, parece mais ato falho já que temos time próprio pra torcer ao longo do ano e se não fazemos é porque essa rivalidade adubada pela mídia coloca muitos mais de olho na casa do vizinho do que em seu próprio quintal.

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  4. Cada um com a sua opinião, caro Amorim, que deve ser respeitada.
    Só classifico os estaduais em três grupos:
    1) os que não fazem falta;
    2) os que não têm razão de ser;
    3) os de apaixonada rivalidade regional, como é o nosso caso. E nesses casos os três meses são muito intensos, que já foram mais, são muito intensos.

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