Pearl Jam no Maracanã: discurso engajado e rock de primeira

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POR GERSON NOGUEIRA

Com a pronúncia do português ainda trôpega, Eddie Vedder saudou a multidão no Maracanã, quarta à noite, falando da alegria de voltar a tocar no estádio e da saudade do Brasil. Não deve ser lorota, afinal o Pearl Jam tem vindo seguidamente ao país nos últimos oito anos. A saudação aconteceu logo depois das duas primeiras canções, “Release” e “Low Light”, que fizeram a arena estremecer com os gritos da massa roqueira.

O show de 2h45 de duração foi farto em pérolas do repertório tradicional da banda de Seattle, incluindo algumas novas canções e clássicos, como “Black”, “Alive”, “Even Flow”, “Daughter”, “Given to Fly”, “Jeremy” e “Do the Evolution”. Um setlist centrado nos anos 90, auge do gênero grunge.

Fazendo jus à condição de mais engajada banda do rock atual, o vocalista do PJ fez um forte discurso em favor da igualdade de gênero. Antes de tocar “Leaving Here”, Vedder afirmou que somente homens fracos não apoiam as mulheres: “Essa é para os homens que conseguem ser fortes o bastante para ajudar na luta por igualdade”.

Antes do show, o PJ postou em sua página no Instagram e Facebook um cartaz criticando a violência no Rio de Janeiro, dentro da tradição de arte provocativa que a banda cultiva há tempos. A proposta visual gerou polêmica, mas é bem adequada ao momento vivido pela cidade. A ilustração traz pássaros da fauna brasileira carregando fuzis com uma favela ao fundo causou comoção nas redes sociais.

O pôster foi criado por Ravi Amar Zupa. “Essa obra é uma homenagem ao Rio de Janeiro, particularmente às pessoas das comunidades que, apesar da obscena desigualdade, encontram maneiras de construir cidades nas montanhas“, explicou o artista.

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Afiados como sempre, Matt Cameron, Jeff Ament, Mike McCready e Stone Gossard fizeram o contraponto sonoro para as interpretações de Vedder, arrancando aplausos entusiasmados dos mais de 50 mil fãs presentes ao Maraca. Na história do rock, poucas bandas conseguem unir longevidade e qualidade na carreira. O PJ tem conseguido isso, além de atingir a condição especial de ter público cativo fora de festivais.

Minutos antes de encerrar a primeira parte do show, Vedder sacou a guitarra verde dada de presente pelo fã Sérgio Vedder em 2015. Mencionou Sérgio ao empunhar o instrumento nos primeiros acordes de “Porch” (1991). Durante a música, ele botou a máscara do presidente dos EUA, Donald Trump, e dançou de forma desengonçada para o público.

Uma surpresa foi a inesperada canja de Josh Klinghoffer e Chad Smith, respectivamente guitarrista e batera do Red Hot Chili Peppers. Vedder dedicou a lírica “Wishlist” (1998) à banda californiana, com a qual o Pearl Jam dividiu palcos no início de carreira. Pouco tempo depois, o baterista foi convidado ao palco “para tocar uma música que nunca ouviu”, brincou o cantor. Era a recém-lançada “Can’t Deny Me”, que acabou contando com Chad espancando uma espécie de agogô. Um brado pacifista iniciado sob gritos de “fora Temer!” partindo da plateia.

 

No momento do bis, Josh Klinghoffer entrou em cena para participar de performance arrasadora para o clássico “Alive”, com Eddie Vedder até errando a primeira estrofe de um dos maiores hits da banda. Na sequência, veio a obrigatória “Rockin’ in the Free World”, de Neil Young, com Chad Smith novamente se juntando à banda para uma grandiosa performance já com as luzes acesas no Maracanã.

O encerramento apoteótico foi com “Yellow Ledbetter”, cujo solo de McCready é uma das marcas registradas de todo show do PJ. Entre as 29 canções da noite, faltaram muitas outras igualmente importantes músicas da carreira da banda, como “Last Kiss”, “Oceans”, “Sirens”, “Thin Air”, “Come Back”, “Gone”, “Hail Hail”, “Crazy Mary” etc.

Vedder deu dois passeios pelo fosso do palco, cumprimentando fãs e ganhou até um par de alianças de uma delas. Sem jeito, deu um abraço que certamente deixou a garota feliz. Mesmo trocando alguns trechos de letras, o cantor mantém o carisma e eletriza a multidão. Pearl Jam desafia o tempo e consegue marcar mais um golaço no “Maior do Mundo”.

O que foi mostrado encheu as medidas e serviu para confirmar que o time continua em plena forma. Mais importante: com aquela velha gana de tocar rock, que faz toda a diferença. Um showzaço para fã nenhum botar defeito. Fui assistir como um auto-presente de aniversário. Posso dizer que valeu a pena.

O setlist do show desta quarta-feira (21) no Maracanã foi este:

1. Release
2. Low Light
3. Elderly Woman Behind The Counter In A Small Town
4. Go
5. All Night
6. Animal
7. Given To Fly
8. In Hiding
9. Jeremy
10. Corduroy
11. Even Flow
12. Immortality
13. Wishlist (dedicado para o Red Hot Chili Peppers)
14. Mind Your Manners
15. Lightning Bolt
16. Garden
17. Can’t Deny Me (com Chad Smith)
18. Porch
BIS:
19. Sleeping By Myself
20. Inside Job
21. Daughter / W.M.A.
22. Do The Evolution
23. Black
24. Leaving Here (Edward Holland Jr. cover)
25. Blood
26. Better Man
27. Alive (com Josh Klinghoffer)
28. Rockin’ In The Free World (com Chad Smith and Josh Klinghoffer)
29. Yellow Ledbetter

O Pearl Jam tem show agendado para este sábado (24) no Lollapalooza, em São Paulo, no autódromo de Interlagos, com ingressos já esgotados.

Tem um coisa boa que acontece quando o seu país tem um líder terrível: isso faz com que as pessoas se deem conta de que precisam se unir e se tornarem os líderes.” (Eddie Vedder)

10 comentários em “Pearl Jam no Maracanã: discurso engajado e rock de primeira

  1. Acompanho o Pearl Jam desde o Ten, ou seja, desde o início e não há qualquer dúvida de que o Pearl Jam é uma banda de músicos talentosos, com Mike McCready entre os melhores guitarristas do mundo e Eddie Vedder, pelo menos aparentemente, mais autenticamente engajado que o Bono Vox, por exemplo, nas causas em que acredita. Adorei a arte da divulgação do show. Sem dúvida, um presente de aniversário insuperável, caro Gerson. Parabéns.

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  2. Gerson, o instrumento que o Chad Smith tocou se chama cowbell. Assisti a banda na turnê de 2011, e que show fantástico. Estão envelhecendo com dignidade, fazendo um rock de qualidade. Pena que os companheiros de geração não resistiram como nirvana, soundgarden e Alice in chains.

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  3. Obrigado pela dica sobre o instrumento, amigo. Estava na cadeira lateral e não foi possível identificar à distância. Quanto ao PJ, a banda expressa o resultado de mais de duas décadas de estrada, o que garante um som redondo e cada vez mais firme. Apresentação impecável, com 29 músicas e com pelo menos umas 50 outras que ficaram de fora. Comemorei meus 60 anos em grande estilo.

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  4. Gerson, dica de hoje a noite é que o show no Lollapaloza vai ser transmitido, diferente da vez passada. Uma oportunidade de ver a banda mais uma vez e tomará que toquem rearviewmirror.

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  5. Verdade, amigo Lopes. Estive em SP para representar o jornal em evento da Unesco e aproveitei para ir ao Rio ver a banda.

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