O Zé Miranda

Por Lúcio Flávio Pinto

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“P(*), Miranda, abaixa essa luz”.

“Não posso, Onetti. O cara está me arrastando”.

Rubens Onetti, o camera-man, voltou-se a tempo de ver José Miranda ser arrastado pelo colarinho por um agente da Polícia Federal, que o impedia de fazer a iluminação da cena, no auditório da Sudam (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia), em Belém, abrilhantado por tantas figuras ilustres. Miranda se debatia para tentar repor o refletor na direção certa, para iluminar a cena filmada por seu companheiro da TV Marajoara, mas não conseguiu. Ele e Onetti foram retirados do local. Era proibido fazer o registro naquele dia da década de 1960, em pleno regime de exceção no país.

Esse José Miranda de tantos episódios cômicos ou dramáticos se foi no final da semana, anônimo, depois de se ter tornado célebre por suas ousadias e pelo tom bilioso de alguns dos seus frequentes comentários e profecias. Integrou uma geração de pioneiros na reportagem para a imprensa, principalmente televisiva e mesmo impressa.

Fotógrafos que se formaram empiricamente, no trabalho do dia a dia, sem base teórica, na base do ensaio e erro. Mas sempre buscando uma qualidade a mais, uma angulação diferente. E com uma característica constante em Miranda: não recusar servilo, não voltar da rua sem uma matéria, arrancada a qualquer custo das circunstâncias.

Acho que foi um dos mais destacados dentre eles, Porfírio da Rocha, quem, na visita do primeiro presidente militar a Belém, o marechal Castelo Branco, achou de aumentar a luz no ambiente. A caixa de luz da sede da SPVEA (antecessora da Sudam, criada em 1966) tinha vários interruptores. No açodamento do flagrante, Porfírio escolheu um dos botões – e escolheu o errado. Aquela era a chave geral.

Seguiu-se a total escuridão. Porfírio, mais do que depressa, inverteu o interruptor. Mas a luz era fria e demorou a voltar. Quando a luz foi restabelecida, um agente da PF estava com seu revólver assentado na cabeça do fotógrafo. Porfírio escapou por pouco. Passado o susto, continuou o seu trabalho – com a luz que havia, naturalmente.

Miranda começou nessa conjuntura difícil para o jornalismo instantâneo, de rua, que precisa ser tão rápido quanto a cena em movimento a ser captada, o que exige raciocínio rápido e resposta imediata dos músculos ao raio de luz no cérebro. Começou na iluminação para o cinegrafista Onetti, aquele que filmava jogo de futebol com uma câmera de mão, com a missão de encontrar a bola em movimento pelo menos por alguns segundos – o que não era nada fácil.

Miranda foi evoluindo até se tornar fotógrafo solo, digamos assim. Os anos arrefeceram a sua impetuosidade e arredondaram as duras angulações da sua personalidade, até que ele se tornou um bom camarada, um companheiro de trabalho prestativo, embora o humor de vez em quando se avinagrasse, o que não impedia de fecharmos o lance com risadas. Risos que ecoam pela memória no adeus ao velho companheiro de tantos instantâneos jornalísticos. (Transcrito do Facebook)

Convivi com o Zé Miranda durante anos, ao longo das décadas de 70 e 80, principalmente, trabalhando em veículos diferentes (eu no Liberal e ele na Província), sempre acompanhando suas aventuras e grandes feitos jornalísticos. No final dos anos 90, a convite de Antonio José Soares, fui trabalhar na Província já moribunda, realizando um velho sonho. Lá, entre outras alegrias, pude ter contato mais direto e diário com um Miranda já veterano, mas na plenitude da capacidade profissional. Um dos gigantes do fotojornalismo paraense – e talvez do Brasil -, integrando trinca fenomenal com Porfírio da Rocha e Pedro Pinto. Deixa um exemplo de dedicação extrema à profissão e de competência acima de qualquer suspeita. 

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