“A gente precisa é construir um país que esteja à altura dessa festa”

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O comediante Gregório Duvivier escreveu uma reflexão sobre o Carnaval, sua filha recém-nascida e a situação política e social do Brasil. O texto foi publicado originalmente na Folha de S.Paulo.

Neste ano foi diferente. A melhor parte aconteceu em janeiro, dentro de uma sala de parto, em Laranjeiras — sem ajuda de nenhum psicotrópico. Ali, segurando em minhas mãos três quilos e seiscentos de filha, pensei algo que eu nunca tinha pensado antes: isso aqui é melhor que o Carnaval.

“Mas nem pensar”, respondia aos amigos que perguntavam se a gente conseguiria “fugir pros blocos”, ou quem sabe até “trazer o bebê”. Não levo nem celular pra bloco, vou levar filha? Não encosto um dedo nela sem antes me besuntar inteiro de álcool gel, não há possibilidade de esfregar essa moleirinha cheirosa num tórax anônimo e fedido. 

(…)

Debruçado na janela, me flagrei xingando os foliões que confundiam o canteiro em frente ao meu prédio com um banheiro químico. Qual o sentido disso tudo? Essa euforia sem sentido num país miserável? Vão cuidar de seus filhos, seus desnaturados. Por isso é que esse país não vai pra frente.

Até que, no sábado de manhã, tava um céu azul, e os amigos fizeram um bloco saindo do Outeiro da Glória, e minha filha tava dormindo profundamente, e minha mulher me diz “Vamo?” e a gente sondou com os avós e eles toparam ficar com a neta (vida longa aos avós) e quando a gente viu, a gente tava descendo a Ladeira da Glória, nem aí pros corpos suados, “meu coração, não sei por que, bate feliz quando te vê” e daí a gente lembrou por que a gente ama essa cidade, e esse país, porque a gente tem a melhor música do planeta, e a gente faz a maior festa popular do planeta, e a gente tem a gente mais legal do planeta, o que a gente precisa é construir um país que esteja à altura dessa festa e dessa gente, Caetano diria: o Brasil precisa merecer o Carnaval, e mais ainda: o Brasil precisa merecer o Caetano, e a gente saiu correndo pra casa pra tomar um banho de álcool gel e abraçar a nossa filha, elucubrando fantasias possíveis pro Carnaval do ano que vem.

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