Mau exemplo uruguaio

POR GERSON NOGUEIRA

Torcedores do Nacional protagonizaram cenas deprimentes e antidesportivas no jogo entre a Chape e o time uruguaio, no meio da semana, na Arena Condá, em jogo válido pela Copa Libertadores da América em sua segunda fase. A atitude, deplorável sob todos os pontos de vista, não é novidade na competição mais bagaceira do futebol mundial.

Aprendemos ao longo do tempo que na Libertadores cabe quase tudo. De invasão de campo por dirigentes a vestiários pintados de novo, para que o cheiro da tinta prejudique os visitantes. Os árbitros até que melhoraram um pouco, tornando-se menos suscetíveis às pressões caseiras, mas, apesar disso, os jogos ainda representam verdadeiras epopeias.

Na Arena Condá, o time uruguaio se comportou como times uruguaios se comportam. Com raça, sangue nos olhos e disposição para morrer ou matar, se isso for necessário. O Nacional, um dos mais tradicionais clubes do continente, acabou vencendo o jogo por 1 a 0, mas pode se dar mal pela ação deletéria de um pequeno grupo de torcedores.

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Em meio à partida, os brucutus da hincha nacionalina decidiram tirar onda com a tragédia que enlutou a Chapecoense e o mundo do futebol. A título de provocar os donos da casa, os uruguaios ficaram a fazer gestos com os braços simulando o voo de um avião em queda, ofensa gravíssima para um episódio tão traumático na história do esporte.

Nem o mais beócio dos torcedores teria ideia tão infeliz como forma de insulto. Os uruguaios, fiéis à velha tradição de atitudes primitivas em nome do futebol, foram longe demais. Até porque não havia razão para tal atitude, pois a torcida da Chape não hostilizava o grupo visitante.

Como o regulamento da Libertadores contém itens que tratam do comportamento da torcida e da responsabilidade dos clubes, a Chapecoense entrou com um recurso formal junto à Conmebol exigindo que o Nacional seja excluído da competição continental.

A base de sustentação do pedido está nos artigos 8 e 14 do regulamento disciplinar da Conmebol, que punem comportamentos agressivos e desrespeitosos por parte de torcedores, responsabilizando o clube pela ação de seus aficionados.

A Conmebol recebeu a moção da Chape e estabeleceu prazo até a próxima quinta-feira para que o Nacional se pronuncie. O time uruguaio já se manifestou, nas redes sociais, pedindo formalmente desculpas pela absurda atitude de seus torcedores. Um desses brucutus já foi inclusive afastado do quadro de sócios da agremiação.

Que a ação da Chapecoense tenha pelo menos o efeito exemplar de livrar o futebol de aleijados mentais, capazes de selvagerias e ofensas tão baixas. O esporte deve ser sempre um espaço para o congraçamento entre as pessoas, jamais podendo ser usado como desculpa para extravazar sentimentos tão mesquinhos e rasos.

A única dúvida é se a Conmebol, com seu longo histórico de condescendência com ações do gênero, tomará de fato alguma providência contra o Nacional e seus turbulentos torcedores. A conferir.

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Os riscos do marketing excessivo

Gabigol, um dos mais superestimados atacantes do futebol brasileiro nos últimos anos, deu com os burros n’água na experiência internacional que teve está de volta ao aconchego do Santos. É novo ainda e pode retomar a carreira, posicionando-se entre os jogadores mais valorizados do país. Só conseguirá isso, porém, se deixar de lado a presunção que acompanha sua carreira, a começar pelo apelido grandiloquente.

Para merecer o epíteto de homem-gol, o sujeito tem que ficar ali entre Van Basten e Gabriel Batistuta, para começo de conversa. Usar a palavra gol como prolongamento do próprio nome é de uma infelicidade atroz, só comparável ao desatino de botar o nome de Muralha num goleiro.

Gabigol passou um chuvisco na Europa, ganhando muito bem e sendo execrado pelas torcidas de Internazionale de Milão e Benfica, dois dos mais importantes clubes do Velho Continente. Diante do fato óbvio de que não conseguiu jogar nada em gramados europeus, Gabriel – este seu verdadeiro nome – lançou mão da mais esfarrapada das desculpas. Alega que foi discriminado pelos técnicos e que não teve oportunidade de mostrar seu futebol.

Há controvérsias. Gabriel nunca foi um artilheiro de estirpe, como Romário ou Bebeto ou Ronaldo Fenômeno. Quando muito, foi um Fred melhorado ou um Jô menos trapalhão dentro da área. Como os dois citados, ele não conseguiu firmar nome nos dois grandes clubes.

Soa a desculpa fácil de boleiros que não tiveram na Europa a tolerância que costumam ter no Brasil. Aqui, conseguem empurrar com a barriga as fases menos pródigas. Lá, isso não funciona. Jogador ganha bem, mas precisa render muito, sob pena de ser posto de lado.

As difíceis adaptações ao idioma, ao clima, ao ambiente profissional dos clubes, ao banzo familiar e até à comida podem ser utilizadas (e aceitas) como argumento para eventuais fracassos. Ocorre que a velha conversa de que os técnicos não simpatizam com jogadores do Brasil já perdeu validade, pois não encontra amparo na realidade.

Os bons conseguem se firmar e ganhar a admiração de técnicos, jornalistas e torcedores. Gabriel Jesus, Phillipe Coutinho e até Roberto Firmino estão aí mesmo para comprovar essa realidade.

Quanto a Gabigol, o problema persiste mesmo quando ele é repatriado pelo Peixe. Ao insistir para si mesmo que foi alvo de discriminação na Europa, ele deixa de crescer profissionalmente. Prefere não observar seu risível desempenho quando teve chances no comando do ataque da Inter e na ofensiva do Benfica.

Aliás, veio do técnico benfiquista a lição modelar. Para Rui Vitória, essa história de pseudônimo deveria ser esquecida pelos atletas profissionais. Segundo ele, Gabigol é coisa de artista, que não combina com as exigências naturais da atividade boleira. Pois Gabriel não emplacou no time encarnado, onde já estão vários outros brasileiros, como Jonas, artilheiro e ídolo do time. Será que todos também são vítimas de preconceito?

(Coluna publicada no Bola deste sábado, 03)

6 comentários em “Mau exemplo uruguaio

  1. “Para merecer o epíteto de homem-gol, o sujeito tem que ficar ali entre Van Basten e Gabriel Batistuta, para começo de conversa.”

    Verdade caro Gerson. O mesmo vale para as designações: “craque”, “o novo [nome de um verdadeiro craque]” e outros adjetivos tão abusados e mal empregados, tanto pelo torcedor mais empolgado ou da imprensa mais bairrista (alguém se lembra do caso Keirrison?).

    Sobre o Gabriel, uma irreverente coluna lusa o descreveu como: “Tem neste momento mais tatuagens do que decisões inteligentes com a bola nos pés ao serviço do Benfica.”. Para pensar.

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  2. Uma das coisas de um Brasil que não deu certo, onde qualquer um que chute a bola com mais jeito é craque, é rei, é fabuloso, fenomenal. Onde um professor é tio e o treinador de futebol é professor, onde o político é autoridade, vossa excelência, e o cidadão trabalhador é um qualquer.

    Há tantas coisas que precisam ser repensadas.

    Concordo com o Rui Vitória com relação a esses apelidos grandiloquentes que cabem bem apenas em artistas da música. Também concordo com o comentarista aí de cima que disse bem quanto a designação “craque”, que fica bem apenas para o torcedor mais fanático ou até mesmo para a mídia bairrista e narradores folclóricos.

    Há coisas neste nosso país que são dignas de estudo.

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  3. O gesto dessa meia dúzia de imbecis torcedores uruguaios merece toda a repugnância, contudo acho mais justo o time uruguaio pagar uma multa do que a exclusão imediata da competição. Assim ficaria parecendo que houve um favorecimento desnecessário á Chapecó. Já houve casos de comportamento de torcedores bem mais graves ou violentos que o clube em questão apenas pegou 2 ou 3 jogos de portões fechados. Inclusive é uma sugestão de punição para o Nacional.

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  4. É isso mesmo, amigo Hector. Gabigol é daquela confraria de jovens boleiros que, como dizia Romário, já chega no avião querendo sentar na janelinha sem ter feito por onde merecer o privilégio.

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  5. Com certeza, amigo Gleydson. O tamanho da punição deve ser proporcional ao que a Conmebol aplicou contra outros clubes. O Corinthians, por exemplo, não foi excluído da Libertadores pelo ocorrido com o garoto em Oruro.

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