Gabigol é mais um brasileiro que não se deu bem na Europa e põe a culpa no técnico

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Por Rodrigo Bueno, em seu blog

Talvez você esteja procurando aqui uma lista de treinadores estrangeiros sacanas que perseguem ótimos jogadores brasileiros. Lamento se vou decepcioná-lo. Até vou citar alguns nomes de técnicos gringos que, segundo alguns, não se deram bem com certos atletas nascidos no Brasil, mas não vou comprar aqui o discurso fácil de boleiros que usam como desculpa para o fracasso no futebol europeu o fato de tal “treinador não gostar de brasileiro”. Ouvir aqui e acolá que não deu certo no exterior por causa do frio, do idioma, da comida, da saudade da família e outras coisas já configura um bom repertório de desculpas, não é preciso mesmo inventar mais uma muleta para justificar o insucesso no futebol estrangeiro.

A inspiração para este post é o “Gabigol”, ou, muito melhor dizendo, o Gabriel Barbosa. Ele volta ao Santos agora como uma estrela após ter feito quase nada na Inter de Milão e no Benfica. Repito: Inter e Benfica, não o Baoding Yingli Yitong. O “menino da Vila” não conseguiu render na Europa, segundo ele, por falta de oportunidades, pois os técnicos têm opções, e a opção dos treinadores não era por ele. Ou seja, na visão de Gabriel o problema não foi ele ou o seu fraco desempenho, foram os seus técnicos na Europa, um discurso que é abraçado facilmente por muitos aqui nesse e em outros tantos casos de jogadores talentosos ou não que sofreram no Velho Continente com algum tipo de injustiça ou incompreensão.

“A primeira coisa que eu gostaria de dizer é que não é Gabigol, é Gabriel. Esse Gabigol é coisa de artista, e não gosto de chamar meus jogadores assim. É Gabriel”, disse o técnico Rui Vitória, do Benfica, quando foi indagado por um repórter por que o “Gabigol” ficou no banco de reservas contra o Portimonense no Campeonato Português. Será que Rui Vitória não gosta de jogadores brasileiros? Difícil acreditar nisso, afinal tem cinco atletas brasileiros atualmente no elenco do Benfica, dentre eles o capitão Luisão e o artilheiro Jonas. Se Jonas brilha e bate recordes no clube lisboeta, por que Gabriel Barbosa não consegue mal ficar lá?

Na Inter, Gabriel Barbosa não foi muito aproveitado por Stefano Pioli. Será que Pioli só gosta de brasileiro que vira italiano, tipo o Éder, que chegou até à seleção da Azzurra? Não creio, Miranda é da seleção brasileira e jogava de boa com Pioli. Prefiro ficar com a opinião do técnico sobre a performance de “Gabigol” na Itália. “Estou feliz pelo entusiasmo do Gabigol, mas eu gostaria de vê-lo fazendo algumas jogadas que são mais úteis e não apenas espetaculares pela ânsia de ser espetacular”. Quando Pioli saiu da Inter, quem assumiu o time nos jogos seguintes foi Stefano Vecchi. Ele era o treinador quando “Gabigol” deixou o banco de reservas e foi para o vestiário antes do final de uma partida revoltado por não ter entrado em campo. “Todos aqueles que estão no banco esperam entrar, talvez ele tivesse outras expectativas, e elas eram altas de sua parte, do clube. Mas não é sempre culpa do treinador. Ele tem grandíssima qualidade, mas deve ficar a serviço do grupo. Esse elenco não pode ter esse tipo de jogador que se acha”, declarou Vecchi sobre o episódio.

Será que Gabriel não deveria repensar um pouco seu apelido tão marqueteiro? Será que não poderia adotar algum outro estilo em algumas circunstâncias? Será que ele não se acha demais? São coisas que não foram bem vistas na Europa. É preciso um pouco de reflexão e um pouco de humildade para reconhecer o que não está dando certo, até para evoluir.

Um dos técnicos que mais trabalharam com brasileiros na Europa é o romeno Mircea Lucescu. Ele comandou por dois anos o Shakhtar Donetsk, time ucraniano que virou emergente muito com a ajuda de vários atletas nascidos no Brasil. Em uma entrevista para o “Zero Hora”, Lucescu falou com dureza sobre como é trabalhar com jogadores brasileiros. “O jogador brasileiro, em geral, diz que Deus decide o resultado. Isso não é correto. Tem que trabalhar para chegar a esse ponto. Precisam se concentar mais, pois pensam que podem se preparar para um jogo dois minutos antes de entrar em campo e resolver tudo na individualidade. Não é assim”, afirmou Lucescu, que é fanático pelo futebol brasileiro desde os anos 60. Não é por isso que ele tem que aguentar mimimi de Bernard, por exemplo. “Bernard tem que demonstrar em campo que é homem. Bernard só chora. Só veio tomar dinheiro. Eu também sofro, mas creio que todos querem sofrer para ganhar 300 mil euros por mês”, chegou a dizer Lucescu. Será que ele foi injusto, cruel e pegou pesado com o “menino” que tem “alegria nas pernas”, segundo Felipão antes dos 7 a 1? Parece mesmo que não.

O treinador que mais ficou com o rótulo de não gostar de jogadores brasileiros foi o holandês Louis van Gaal. Muito pela passagem dele pelo Barcelona, quando contratou vários conterrâneos e teve problemas com Rivaldo, em especial. Começando pela contratação de muitos holandeses, entendo a aposta de Van Gaal naquela época (final dos anos 90), pois a Lei Bosman já imperava na Europa e virou algo fácil para o Barça contratar a base do Ajax e da seleção da Holanda, que brilhou entre 1995 e 2000. Sobre Rivaldo, que veio a ser melhor do mundo em 1999, o que se sabe é que Van Gaal não lhe dava privilégios e não permitia ao craque brasileiro escolher seu posicionamento em campo. Rivaldo se queixou de Van Gaal certa vez porque ele o cobrou por um atraso. “Uma vez ele brigou comigo por 20 segundos de atraso, até mostrou o relógio”, contou Rivaldo em entrevista à Revista ESPN. Van Gaal é meio militar, durão, disciplinador, é verdade, mas atraso é atraso. Rivaldo estava errado, não chegou na hora. Após ser eleito melhor do mundo, Rivaldo chegou a ser barrado do time por Van Gaal. O motivo? Van Gaal queria que ele atuasse aberto pela esquerda, mas Rivaldo queria jogar centralizado. Van Gaal pode até ser burro em querer colocar Rivaldo como um ponta, mas faz parte do trabalho do técnico posicionar o time. Rivaldo saiu da equipe na ocasião não porque Van Gaal odeia brasileiros, mas por uma questão tática e praticamente uma insubordinação (o jogador não queria jogar onde o técnico determinou). “Rivaldo é um grande jogador e boa pessoa. Porém não posso aceitar que um jogador se coloque acima da filosofia do clube”, disse Van Gaal.

Giovanni, ex-Santos, também fala muito mal de Van Gaal, chegou a chamá-lo de “Hitler dos jogadores brasileiros”. Mas será que Giovanni jogou na Europa tudo o que podia? Será que não tinha gente melhor que ele naquele Barcelona? E Sonny Anderson era tudo isso mesmo para ser “perseguido” por Van Gaal apenas por ele ter nascido no Brasil? Van Gaal pode não ter aproveitado muito e ter até dispensado alguns jogadores brasileiros, como o zagueiro Lúcio no Bayern, e o lateral-direito Rafael, no Manchester United, mas por que ele se deu bem com outros brasileiros, como o “humilde” Ari no AZ campeão holandês? Foi Van Gaal que contratou Ari, nem ligou para a nacionalidade em seu passaporte.

Foi Van Gaal que apresentou o lateral-esquerdo Filipe Luís no Ajax. Será que o jogador do Atlético de Madri fala mal de Van Gaal? Ou será que ele não teve problemas com Van Gaal por ser um atleta disciplinado? Andreas Pereira foi muito utilizado pelo técnico holandês no Manchester United, que ficou impressionado com o meio-campista brasileiro. “Não acho que ele tenha esse negócio [perseguição] com brasileiro não”, diz Andreas.

Giovanni, ex-Santos, também fala muito mal de Van Gaal, chegou a chamá-lo de “Hitler dos jogadores brasileiros”. Mas será que Giovanni jogou na Europa tudo o que podia? Será que não tinha gente melhor que ele naquele Barcelona? E Sonny Anderson era tudo isso mesmo para ser “perseguido” por Van Gaal apenas por ele ter nascido no Brasil? Van Gaal pode não ter aproveitado muito e ter até dispensado alguns jogadores brasileiros, como o zagueiro Lúcio no Bayern, e o lateral-direito Rafael, no Manchester United, mas por que ele se deu bem com outros brasileiros, como o “humilde” Ari no AZ campeão holandês? Foi Van Gaal que contratou Ari, nem ligou para a nacionalidade em seu passaporte. Foi Van Gaal que apresentou o lateral-esquerdo Filipe Luís no Ajax. Será que o jogador do Atlético de Madri fala mal de Van Gaal? Ou será que ele não teve problemas com Van Gaal por ser um atleta disciplinado? Andreas Pereira foi muito utilizado pelo técnico holandês no Manchester United, que ficou impressionado com o meio-campista brasileiro. “Não acho que ele tenha esse negócio [perseguição] com brasileiro não”, diz Andreas.

Se Van Gaal mandou embora Rafael do Manchester United (o correto lateral diz que não não tem como julgar se o técnico gosta ou não de brasileiros, entendeu que Van Gaal simplesmente não gostava muito de seu futebol), Guardiola mandou Ronaldinho embora do Barcelona. Um dos maiores talentos da história do futebol foi dispensado pelo queridinho e badalado Guardiola, assim como Deco, que era referência de um grande Barça. No Bayern, Guardiola dispensou o volante Luiz Gustavo. Será que Guardiola não gosta de brasileiro também? Claro que não, Jesus sabe disso. José Mourinho não se deu muito bem com Kaká no Real Madrid nem com David Luiz no Chelsea, mas será que ele é outro treinador europeu que não gosta de jogadores brasileiros? Que o digam Carlos Alberto, Derlei, Júlio César, Lúcio, Maicon, Oscar, Willian, Filipe Luís, Ramires…

Fica a dica então para os atletas brazucas: jogue bem e leve a coisa a sério que todo técnico e todo mundo gostará de você. Simples assim.

Crédito foto: Ivan Storti/Santos

3 comentários em “Gabigol é mais um brasileiro que não se deu bem na Europa e põe a culpa no técnico

  1. O Ganso fala o mesmo.
    Mudaram três técnicos, e ele culpou cada um deles por sua não escalação no Sevilla.
    Não estou questionando a técnica do nosso conterrâneo. Mas é incrível como as críticas, seja no Brasil ou na Europa, são unânimes.
    O jogador vive de lampejos e não participa das jogadas. Não joga o dito futebol total.
    Só cabe a ele se adaptar. Todos estão apontando onde deve melhorar, mas o próprio texto mostra o quanto jogador brasileiro gosta de tapar o sol com a peneira

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