Natal feliz

POR ALBERTO HELENA JÚNIOR, em seu blog

Já contei essa história de Natal. Mas, como as histórias de Natal são quase sempre as mesmas e a plateia se renova a cada ano, vou contar de novo, se o amigo me permitir.

Levado pelas mãos do pai, o menino de sete anos mal celebrados percorria a seção de brinquedos das Casas Pirani, uma das primeiras lojas de departamento da cidade, que ficava num prédio da avenida Celso Garcia, próximo ao Cine Universo, aquele que, em noites estreladas e quentes do velho Brás, abria seu teto conversível para os céus. Prédio, aliás, que havia sido construído por meu avô espanhol José Sanz Duro.

Eis que, de súbito, um objeto estranho e maravilhoso salta aos olhos do menino: um caixote retangular de madeira, pintado no fundo de verde, com duas metas e vinte e dois bonequinhos espetados em varas que cortavam o caixote e terminavam em punhos arredondados. Era a representação exata de um campo de futebol, com seus jogadores dispostos no formato clássico goleiro, dois beques, três médios e cinco atacantes, que, devidamente manipulados, empurravam em direção às metas uma bolinha de pingue-pongue.

Os jogadores estavam pintados com as cores das camisas do Flamengo e do Vasco, dois timaços dos anos 40, mas que chegavam vagamente aos ouvidos do menino naquela época. Quem comandava o espetáculo por aqui, em tempos do futebol doméstico, eram Palmeiras e São Paulo, que dividiram a década com cinco títulos paulistas para o Tricolor e quatro do Verdão, restando um para o Corinthians, que iniciara em 41 sua fila de dez anos.

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O nome do estranho e maravilhoso brinquedo? Pebolim, certamente uma adaptação da recente moda entre os puristas de nossa língua pátria, que desejavam trocar o inglês foot-ball pelo nosso ludopédio ou pebola, em vão. Mas, pra garotada de então passou a ser mesmo pinbolim: pimba no bolim, muito mais autêntico e popular.

Claro, aquele seria o presente de Natal mais desejado pelo menino. Mas, o pai, depois de confabular com o gerente da loja, o Luís Pirani, voltou balançando a cabeça: era muito caro. Papai Noel não tinha tanto assim.

O milagre aconteceu na véspera do Natal, no finzinho da tarde, quando o menino, inesperadamente, surpreendeu o pai retirando do porta-malas de seu Ford cupê cinzento, o caixote tão desejado. E, ao deslumbramento do sonho realizado, juntou-se uma pontada de decepção: afinal, o menino flagrara o que já desconfiava – o Papai Noel não existia.

E, para o sonho se transformar em plena felicidade, lá estavam os bonequinhos com as cores do Palmeiras e do São Paulo, os devidos nomes escritos nas costas, hábito que só viria a ser adotado pelos verdadeiros times de futebol décadas mais tarde.

Aliás, vale aqui dar um corte e saltar para o presente, numa advertência para os jovens jornalistas até cinquenta anos que queiram contar a história das táticas no futebol brasileiro através das leituras dos jornais antigos. Vão cair na armadilha (muitos já caíram) do atraso.

E pego como exemplo essa disposição tática do meu primeiro pinbolim. Os jogadores estão enfileirados no sistema clássico, o 2-3-5, como a mídia da época escalava as equipes que, porém, já atuavam havia quase dez anos sob o signo do WM (3-4-3).

Isso, perdurou até o início dos anos 60, quando, então, já se jogava num 4-3-3 e a mídia dera um passo à frente, mantendo-se, porém, um passo atrás, pois escalava as equipes num 3-4-3, sistema alterado com o advento do quarto zagueiro. E assim vai.

Enfim…

Feliz Natal, cambada! Tempos em que as lembranças do passado se juntam à esperança de um futuro sempre mais promissor.

Um comentário em “Natal feliz

  1. A DESPEITO DA BELA E REPETIDA ESTÓRIA DO PEBOLIM,
    A IMAGEM É PEDAGÓGICA: não há racismo, quando não se é treinado para exerce-lo ou exercita-lo. Jovens são, modo geral, ecumênicos. Adultos não! Adultos são racistas por interesses econômicos, ou por puro esnobismo de classe social.

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