A legião sertaneja

6 de dezembro de 2017 at 0:19 5 comentários

POR GERSON NOGUEIRA

Pode-se até colocar em dúvida a consistência do projeto de reconstrução do Remo depois do fatídico 2017, mas é inegável que a diretoria de Futebol encontrou um perfil mais próximo da realidade do clube para estruturar o elenco que vai tentar quebrar o jejum de títulos na próxima temporada. A partir das indicações e critérios do mineiro Ney da Matta, o grupo de jogadores ganha feições marcadamente nordestinas.

Do total de atletas contratados até o momento, a imensa maioria vem da região mais ensolarada do país, conhecida por forjar gente de fibra e alta resistência. Euclides da Cunha, no clássico “Os Sertões”, escreveu que o “sertanejo (nordestino) é, antes de tudo, um forte”. Nada mais emblemático e verdadeiro.

Da Matta, mesmo oriundo das Gerais, parece botar fé na sentença euclidiana. Nos 14 reforços confirmados, a colônia nordestina é predominante, seja pela origem natural ou pela experiência nos clubes da região. A lista começa pelo goleiro Douglas Dias, paulista criado no Ceará e revelado nas divisões de base do Fortaleza.

O rodado lateral Esquerdinha fez carreira no Sampaio Corrêa, mesmo clube que serviu de vitrine para Mimica, zagueiro; Jefferson Recife, lateral; e Felipe Marques (foto), atacante. O meia Adenilson veio do Fortaleza e o volante Fernandes passou pelo Campinense, Treze da Paraíba e Icasa cearense.

Há, obviamente, a preocupação em atender as próprias características da Série C, que tem um predomínio de clubes do Nordeste. As batalhas mais encarniçadas do Remo na competição foram contra adversários da região. Não por acaso, o acesso à Série B contemplou três dos times do grupo A, que abriga o Leão – Fortaleza, Sampaio Corrêa e CSA.

Para 2018, a constituição do grupo A retrata a força do futebol nordestino na competição, com nada menos que oito participantes – Remo e Atlético Acreano são os nortistas da chave. Tal realidade respalda a estratégia da diretoria remista e do técnico Ney da Matta.

A ideia é correta, resta saber se, na prática, os jogadores até agora agendados irão corresponder às expectativas quanto a comprometimento, nível técnico e regularidade, quesitos que fizeram terrível falta no campeonato deste ano.

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Direto do blog

“Corinthians, Palmeiras e Santos, nessa ordem, são os cabeças da Série A 2017. Mostra a força econômica, política e de organização do futebol paulista frente ao das demais regiões. A cada ano esse abismo entre os times de São Paulo e os outros se alarga, consequência da insana e injusta distribuição de cotas imposta pela Globo com anuência e conivência da CBF. Os quatro grandes de São Paulo, mais o Flamengo, abocanham anualmente a maior parte do dinheiro gerado pelo campeonato brasileiro e outras competições controladas pela Globo. O time do Rio só não ganha campeonatos a rodo porque, ao contrário dos paulistas, é desorganizado e pedante. Times de outros Estados, com exceção de Inter, Grêmio, Atlético-MG e Cruzeiro, que de vez em quando beliscam uma taça, vão viver sempre na pindaíba se nada for feito para mudar essa relação promíscua entre CBF e Globo. Quanto ao Botafogo, vítima da relação mencionada, não pode haver desculpa pelas lambanças cometidas. Entre elas estão as contratações e dispensas desastrosas de jogadores. Como exemplo, houve a contratação do caro e bichado Montillo e a transferência de Camilo para o Inter. Os dirigentes também foram inábeis na formalização de contratos com os jogadores. Não acreditavam no potencial de quem estavam contratando, como no caso de Roger e Bruno Silva. Com o sucesso relativo do time na Libertadores, esses jogadores foram se valorizando e sendo assediados por outros clubes ao mesmo tempo em que venciam seus contratos. Ora, a cabeça deles na reta final do Brasileirão estava no futuro, no destino a seguir, e não mais na disputa em questão. Não há como cobrar profissionalismo do jogador se os dirigentes são desprovidos dessa virtude. (…) Parece pouco, mas para quem não tem nada é muito: o Botafogo tem de levar a sério o Campeonato Carioca e a Copa Sul-Americana e, depois, pensar em voos mais altos como Brasileiro e Copa do Brasil”.

Miguel Batista Silva, baluarte do blog campeão

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Josué esclarece pontos e cobra melhor avaliação

Em conversa mantida ontem, por WhatsApp, o técnico Josué Teixeira (ex-Remo) respondeu a críticas que fiz neste espaço à qualidade das contratações feitas por ele no começo do ano e à opção por desmanchar o time que havia disputado o Parazão. Observa que omiti o fato de que o grupo montado para a Série C fez 5 jogos e estava no G4 quando ele deixou o cargo, sendo em seguida desmontado pelos dirigentes.

Considera injusta a atribuição de culpa pelo fracasso remista no Brasileiro, quando, “apesar de todas as trocas de comando e jogadores, perdeu a vaga na última rodada”. Entende que merecia ser melhor avaliação.

Ressalta que teve o melhor aproveitamento entre os treinadores. “De 15 pontos disputados, ganhamos 8. Na sequência, de 12 pontos ganharam 4 e terminaram com 27 ganhando 10 pontos”, argumenta, ponderando que merecia melhor avaliação após cinco derrotas em seis meses de gestão. Destaca também que “todos sabiam da real situação do clube”.

De minha parte, mantenho as ressalvas aos critérios de contratação. O fato de o clube passar por aperreios financeiros não pode justificar tantos equívocos na aquisição de jogadores inadequados, muito pelo contrário. Os erros posteriores a Josué não eliminam a gravidade das falhas cometidas de início, por ele e – principalmente – pelos que respaldaram suas decisões.

(Coluna publicada no Bola desta quarta-feira, 06) 

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Da série “Moralistas sem moral” Capa do Bola – quarta-feira, 06

5 Comentários Add your own

  • 1. Antonio Oliveira  |  6 de dezembro de 2017 às 6:53

    Não vi (nem teria como ver) na sintética descrição do perfil dos novos contratados azulinos nenhum elemento que indique uma especial habilidade de trabalhar sem receber a remuneração correspondente.

    Logo, quanto às expectativas, a correspondência na prática só depende de uma coisa: recebimento dos salários em dia.

    Se os dirigentes conseguirem a proeza de não atrasar os salários, como infelizmente já se se tornou comum, por certo o Clube se sairá muito bem, mesmo que os jogadores não sejam supercraques.

    Sobre o Josué e o teor do direito de resposta exercido por ele, concordo com a tréplica do Titular do Blog.

    De fato, os erros e fracassos posteriores ao Josué, não neutralizam as falhas gritantes cometidas por ele próprio aquando da montagem do elenco para a serie c. Aliás, maior do que o erro dele, só o erro dos dirigentes de lhe dar o redpaldo para fazer o que fez e também por não pagar os salários dos jogadores.

    Sobre a distribuição das cotas, gostaria de proferir uma palavrinha. Por primeiro, é dizer que se tratando de uma relação nitidamente comercial como aquela mantida entre a globo e os clubes, não me parece injusto que sejam melhor remunerados aqueles que ostentem maior potencial de retorno financeiro para o explorador do produto.

    Para mim, não é errado dar maior fatia das cotas de patrocínio àqueles que detêm maior quantidade de torcedores para consumir o produto veiculado pelos patrocinadores (com são exemplo o corinthians e flamengo). Errado é os melhores aquinhoados ainda receberem, como muita vez recebem, um adjutório extra dentro das quatro linhas (e fora também), para turbinar os respectivos resultados.

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  • 2. Jorge Paz Amorim  |  6 de dezembro de 2017 às 10:39

    Sem querer frustrar o otimismo de ninguém, lembro que 100% dos rebaixados, Moto Clube e ASA, também são nordestinos

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  • 3. Miguel Silva  |  6 de dezembro de 2017 às 11:52

    Achei correta a percepção do titular do blog. Os dirigentes de Remo e Paysandu olham sempre o mercado (caro) do sul e sudeste e não são capazes de perceber o que acontece de bom na região ao lado. Se ASA e Moto foram rebaixados, o CSA foi o campeão 2017 da série C e, juntamente com o Fortaleza, subiu para a Série B, Já o Ceará será o quarto nordestino na Série A em 2018, junto com Vitória, Bahia e Sport. O nordestino tem a capacidade de se adaptar em qualquer lugar, no calor, no frio, no deserto ou na floresta. A história da extração da borracha na Amazônia e quantidade imensa de nordestinos e seus descendentes morando hoje em nossa região é exemplo disso. Muitos jogadores nordestinos atuam hoje na Europa e em outros lugares do mundo sem nunca ter passado pelos grandes clubes brasileiros ou mesmo pelos maiores de sua região. Certamente que esse elemento humano, tão adaptado ao meio hostil de sua região – sertão, altas temperaturas, seca, miséria -, não virá ao Pará reclamar do calor, da umidade, da solidão, da pobreza etc, coisas que ele conhece tão bem. Mas o pior mesmo é saber que os dirigentes de Remo e Paysandu não conseguem ver nem mesmo o que se passa em sua volta, no futebol do interior do Pará ou da Amazônia, de onde já saíram grandes jogadores para atuar com as camisas desses dois clubes.

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  • 4. Miguel Silva  |  6 de dezembro de 2017 às 14:50

    Caro Antonio Oliveira. Sempre atento e com bons argumentos. Indiscutível que as cotas devam ser proporcionalizadas pelo retorno auferido. Mas existe e é transparente a medição desse retorno? Não está essa medição baseada somente na pesquisa de número de torcedores? Teoricamente, um clube de massa de uma região pobre não tem e não gera mais retorno que um clube de massa de uma região rica. Portanto, levar em conta somente número de torcedores é um método furado.Voltando à proporcionalidade, esta não pode ser em escala que crie abismos entre os clube incluídos na mesma disputa. É o que os ingleses evitam por iniciativa de dirigentes, clubes e veículos de comunicação.Tudo para manter a competitividade da Primeira Liga e, consequentemente, o interesse do público e patrocinadores, em um verdadeiro processo de retroalimentação (mais competitividade, mais anúncio, mais público e mais dinheiro). O oposto disso se verifica na Espanha, onde os milionários Real e Barcelona se alternam ano após ano levando a taça, pois além de suas volumosas receitas próprias ainda são aquinhoados com verbas milionárias de participação, bem acima dos demais clubes. Quanto às ajudas extra-campo citadas, poderiam ser dispensadas pelos favorecidos financeiramente.

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  • 5. Antonio Oliveira  |  6 de dezembro de 2017 às 22:43

    Caro Miguel, bons argumentos são os seus, os quais, inclusive, manejam elementos de patrocínio comparado (Inglaterra, Espanha), além de apanharem em flagrante a estreiteza de minha base argumentativa (simples quantitativo de torcedores).

    Pois bem, dito isso, me permita mais um dedinho de proza a respeito.

    Com efeito, longe de pretender me adonar da verdade, e certo de que a medição e transparência do retorno são imprescindíveis para qualquer investidor, minha impressão é de que ao menos a medição existe.

    Afinal, os investidores (especialmente a globo) podem ser tudo (inclusive o que não presta, como a globo muita vez o é), mas indubitavelmente não são loucos de investir seu dinheiro n’algo sem potencial de retorno. E este potencial só pode ser detectado com precisão se medido com precisão.

    Outra coisa que não se pode deixar de lado enquanto fator de reflexão, é que nesta destinação de valores os pstrocinadores não deliberam sozinhos. Também há as exigências dos Clubes que conhecem do seu potencial atrativo de público consumidor e que batem o pé no sentido de obter fatias cada vez maiores para si em detrimento do quinhão dos outros.

    Quanto ao esvaziamento do interesse do público eu creio que é algo patente. Eu mesmo que só torço pelo Remo, cada vez me interesso menos de na maioria das vezes, nas transmissões da Globo, só ter à disposição para assistir jogos envolvendo o Flamengo ou o Corinthians. Mas, ao que parece, meu desinteresse e o de milhoes de outros brasileiros ao redor do país, ainda é menor do que o interesse dos multi milhoes de torcedores destes dois clubes, tanto que a Globo insiste em dar prioridade à transmissão dos jogos dos mesmos, firmes na premissa de que eles tem uma massa torcedora em todos os estados e em todas as regioes, às vezes, até mais do que a dos Clubes locais.

    Quanto ao abismo criado entre os clubes mais e menos aquinhoados é certo que existe e que é reforçado pela escala da proporcionalidade do patrocínio. E também concordo que deveria haver uma minimização. Mas, como eu disse há a pressão dos próprios Clubes. No mais, só registro que no Brasil, corinthians e flamengo, nada obstante sejam bem mais que aquinhoados que todos e desfrutem de milhoes e milhoes de torcedores, frequentemente fazem disputas muitíssimo equilibradas com vários outros clubes brasileiros em certames de abrangência nacional, havendo inclusive uma razoável alternância na conquista de títulos que só não é maior porque certos clubes, como realmente deveriam, não dispensam aquele adjutório extra que em teoria seria desnecessário por já serem melhor favorecidos financeiramente.

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