Grito a um país refém de justiceiros

2 de outubro de 2017 at 20:56 Deixe um comentário

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POR NILSON LAGE (*)

Eis o motivo pelo qual nenhum homem honrado deve assumir cargos de mando em um país dominado por arrogantes bacharéis plenipotenciários. Os supostos atos ilícitos aconteceram antes de sua gestão; mas bastou a denúncia de um dedo-duro para que a polícia o prendesse com ridículo espalhafato.

A mídia de porta de cadeia, que desdenha da honra dos outros, fez o resto. Destruída a reputação, suicidou-se por ela. Do ponto de vista da meganhada, pode ser até uma confissão. Para mim, é um grito à consciência desse país refém de justiceiros e malfeitores.

MORTE E COMOÇÃO

O reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, professor Luiz Carlos Cancellier de Olivo, valeu-se do suicídio para praticar um ato político de forte impacto na população.  Além de optar pelo espaço mais visitado e de maior movimentação nas manhãs de segunda-feira, em Florianópolis, ele deixou um bilhete que pode explicar as razões de seu gesto. Segundo fonte da Policia Civil, um bilhete foi escrito pelo professor Cancellier, onde teria escrito:  “Minha morte foi decretada no dia de minha prisão”.

O reitor não conseguiu neutralizar os efeitos políticos, sociais e psicológicos da sua prisão na Operação Ouvidos Moucos. Com toda a vida dedicada à Universidade e à educação viu o esforço acadêmico e político de décadas desmoronar do dia para a noite.

A partir da prisão viveu dias terríveis, segundo os amigos mais chegados. Iniciou um processo depressivo, tinha aconselhamento psiquiátrico e tomava medicamentos para neutralizar o impacto psicológico da prisão e todo o processo humilhante a que foi submetido.

Seu irmão, o jornalista Júlio Cancellier, está inconsolável com a morte do reitor.  Com ele esteve no domingo e constatou que Luiz Cancellier estava duplamente contente: por ter autorização para ir à UFSC participar de banca examinadora no Curso de Pós-Graduação em Direito e pela vitória do Hercilio Luz, seu time de coração em Tubarão.   

Ele costumava se manifestar inconformado sobretudo porque todos os supostos atos irregulares na UFSC foram praticados, segundo a própria Polícia Federal, nas gestões anteriores à sua. Além disso, sua formação acadêmica ocorreu na área do Direito e da Justiça. E ele se sentia o maior dos injustiçados com a prisão na Operação Ouvidos Moucos. Dizia que não encontrava qualquer explicação para o ocorrido. Nos primeiros dias ficou confiante em decisão da Justiça que o beneficiasse, especialmente, depois dos esclarecimentos dados no longo depoimento na Polícia Federal.

De acordo com pessoas mais próximas, a autorização da juíza federal de autorizar sua presença na UFSC por apenas duas horas e meia pode ter sido o fato que o levou a praticar o suicídio. Ele já meditara sobre a possibilidade de retorno, mas sempre preocupado com o abalo da imagem e o ferimento mortal de sua liderança, fatos que o impediriam de concluir o mandato na Reitoria da UFSC. Ele completou o primeiro dos quatro anos de gestão no mês de maio. 

O campus da Trindade está com bandeiras a meio mastro. As atividades administrativas foram suspensas. E os trabalhos acadêmicos também deverão ser encerrados em vários cursos à tarde e à noite.

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