O último jogo de Mané Garrincha

13 de setembro de 2017 at 16:30 Deixe um comentário

zagallo

POR EDUARDO CASTRO, no Chuteira F.C.

Semana passada, dia 7, completaram-se 45 anos de um dos dias mais tristes do futebol brasileiro. Foi num feriado da Independência, em 1972, que Garrincha fez seu último jogo profissional.

Ele tinha 38 anos, passara os últimos dois vagando por clubes do Brasil e exterior. Passara pela Portuguesa, Bangu, Deportivo Barranquilla da Colômbia. Treinou no Nacional de Montevidéu e no Boca Juniors, de Buenos Aires, mas não ficou. Num dia de abril de 1969, bateu o carro na Via Dutra. No acidente, morreu a mãe de Elza Soares, sua esposa na época. Desnorteado, o casal foi embora para a Itália.

Ela cantava, ele gastava e bebia. Na época, clubes italianos estavam proibidos de contratar estrangeiros, salvo os descendentes de italianos. O máximo que conseguiu foi uma sinecura: “garoto-propaganda” do Instituto Brasileiro do Café. Afundado na tristeza, jogava, no máximo, amistosos – um deles por um time de açougueiros, devidamente registrado.

O declínio veio abrupto, logo depois do ápice. Vencida a Copa do Chile, em 62, as dores no joelho (a perna esquerda tinha seis centímetros mais que a direita) o levaram ao ortopedista Mário Jorge. Ao invés de um diagnóstico, recebeu uma sentença: se não parasse por três meses, estaria inutilizado. O Botafogo não podia esperar, pois havia vendido mais do que amistosos no exterior; tinha vendido a presença de Garrincha. Um ano depois, ele estava sem os meniscos.

Daí pra frente, entrava e saía do departamento médico com muita frequência, mais ou menos a mesma que passara a aparecer nas manchetes sensacionalistas – desde que trocara a esposa Nair pela cantora Elza Soares, com quem se casou, em 66, na embaixada da Bolívia (o divórcio não existia no Brasil). Ele tinha oito filhos, e, segundo a ex-mulher, “a cabeça virada” e 20 mil cruzeiros devidos em pensão.

Já não ganhava mais, como alguns anos antes, malas de dinheiro (com maços presos com esparadrapo). Sem nem imaginar o mundo futebolístico de Neymar e seus parças, invejava a sorte dos colegas mais novos: “Hoje em dia é assim, o sujeito só pensa em ganhar dinheiro. Até esses meninos que estão começando já têm um pai para orientar, imagine”. Garrincha perdeu o pai muito cedo, vítima de cirrose, a mesma doença que o mataria, também precocemente. Vivia no pouco que sobrara da bonança financeira: móveis e espelhos de uma casa que dividira com Elza, mas não conseguira pagar; levou o que sobrou para um apartamento em Copacabana, alugado.

Foi quando os diretores do histórico Olaria (vice-campeão carioca de 1933, dentre outras glórias) a ideia de trazê-lo de volta ao futebol profissional. A chegada foi gloriosa: 50 mil pessoas no Maracanã, contra o Flamengo. Mas já naquele dia, em março de 72, estava claro que quem voltara foi apenas Garrincha, mas não a “Alegria do Povo”. Na revista Veja, Geraldo Mayrink escreveu que o ponta “ao longo dos anos, perdeu muito mais que o seu gênio para criar essa alegria em campo. Não está apenas mais gordo, mais lento e mais velho, mas também um pouco mais triste. Nenhum jogador brasileiro, salvo Pelé, mereceu mais o paraíso do que ele. Nenhum craque de sua categoria, especialmente Pelé, chegou tão perto do inferno”.

Mesmo assim, era esperado, venerado. Num jogo em Vitória, viajou um dia antes que o time, segundo ele “como chamarisco” para o jogo. Funcionou, pois 40 mil pessoas encheram o estádio. Em Juazeiro, na Bahia, sem condições de jogar, teve que entrar em campo: deu o pontapé inicial da partida para outro estádio lotado. Em 23 de março, no histórico Palma Travassos, de Ribeirão Preto, fez um dos gols do Olaria, no empate em 2 a 2 com o Comercial, num chute de longe no goleiro Paschoalin. Seria seu único com a camisa do clube, o último como jogador profissional.

Até que chegou o 7 de setembro, data do aniversário da Caldense, da mineira Poços de Caldas. Por 12 mil cruzeiros, mais despesas de hospedagem e transporte, a festa pôde contar com o Azulão da Rua Bariri e seu mítico camisa 7. Final: 5 a 1 para os aniversariantes, com direito a uma balançada daquelas, conhecidas, pra cima do lateral Hildo. Ninguém que estava no estádio Coronel Christiano Osório imaginava que aquele seria o último jogo de Garrincha – nem ele.

Sem aviso, a carreira terminara – mas não o calvário público. Garrincha ainda apareceria alguma vezes em amistosos; um ano depois, na despedida oficial, ao lado de Pelé no Maracanã lotado, jogo da seleção contra um combinado do resto do mundo; até no desfile da Mangueira no carnaval de 1980, já muito inchado e debilitado, sem conseguir se sustentar sozinho no carro alegórico, acenando a esmo para o público.

E, finalmente, no estádio Adonir Guimarães, em Planaltina, Distrito Federal, no dia de Natal de 1982, um sábado chuvoso, num encontro de equipes amadoras. Um dos presentes era o goleiro Paulo Vitor, que, quatro anos depois, seria reserva de Carlos na Copa do México. Foi ele quem pegou o último chute de Garrincha, sob protesto do público. Menos de um mês depois, em 20 de janeiro de 1983, ele morreu, na Casa de Saúde Dr. Eiras, em Botafogo, trazido às pressas de Bangu, onde morava numa casa alugada pela CB. Tinha 49 anos, e bebido sem parar, desde a véspera.

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Da série “diálogos edificantes” Mordendo o próprio rabo

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