No campo das escolhas

30 de agosto de 2017 at 0:50 11 comentários

POR GERSON NOGUEIRA

Atleta local carrega o velho estigma de falta de estofo para encarar competições nacionais. Para triunfar nos grandes da capital, precisa ter muita força de vontade, equilíbrio para suportar as cobranças que partem de todos os lados e contar ainda com o bom humor do treinador de plantão.

Tem sido assim desde que o nobre esporte bretão virou atividade profissional, lucrativa (para alguns) e remunerada. Antes, na era paleolítica do nosso futebol, os boleiros nativos obviamente dominavam a cena, pois os clubes não tinham recursos para importar reforços.

A partir dos anos 60, principalmente, o Pará passou a ser rota obrigatória de jogadores em fase descendente, quase sempre refugos dos grandes clubes do Sul e Sudeste. Aqui e ali, aportavam em Belém alguns atletas ainda em boa fase ou jovens em busca de oportunidade.

Apesar disso, os clubes sempre dependeram de valores locais, revelados em suas bases ou recrutados nos campinhos do subúrbio. Esse panorama vigorou até meados dos anos 70. A partir da criação do Campeonato Brasileiro, o perfil dos elencos começou a mudar – para pior.

Os clubes passaram a priorizar a contratação de atletas de outras praças, nem sempre superiores aos daqui, mas cuja experiência em outras agremiações passou a ser vista como diferencial para a disputa das competições nacionais.

Aberrações começaram a ser praticadas a rodo, com a importação de jogadores que não deram certo lá fora, mas contratados por indicação dos técnicos e executivos, além da lábia de bons empresários, capaz de engabelar dirigentes pouco familiarizados com as manhas do negócio.

O tema comporta muitas análises e clama por estudos mais aprofundados, mas o fato inegável é que os jogadores regionais perderam espaço à medida que os importados invadiram massivamente o mercado local, ganhando a concorrência mesmo quando tecnicamente inferiores aos daqui.

No Remo atual, em pleno esforço de guerra para se classificar à segunda fase da Série C, o elenco tem até boa presença de atletas locais e oriundos da base azulina. Não há, porém, relação direta com o time que costuma jogar. Pesa aí a quantidade de importações feitas por Josué Teixeira lá no início da competição.

Por essas e outras, Jayme, um atacante rápido e habilidoso, quase não teve vez entre os titulares – embora também tenha sofrido com lesões no período. Outra joia da casa, Gabriel Lima, autor de quatro gols, afastado por contusão, nem chegou a ser escalado por Léo Goiano.

Aliás, ainda sob o comando de Josué e depois com Canindé, Gabriel fez gols decisivos, mas era sempre preterido. Viu do banco os contestados Mikael e Rony, de desempenhos sofríveis, tomarem o seu lugar.

Pois Jayme, autor do golaço contra o Moto que manteve o Remo com boas perspectivas de classificação, corre também risco de ficar em segundo plano. Há o discurso recorrente entre os técnicos de que um time tem mais do que 11 titulares. História quase sempre para boi dormir. É o chamado “migué” para disfarçar preferências inconfessáveis ou difíceis de explicar.

Pelo que fez nos 20 minutos finais em São Luís, a lógica aconselha que Jayme entre de vez no time, seja no centro do ataque ou como ala direito. Com ele, a equipe fica mais leve e ágil.

Goiano tem a chance de ir contra a rotineira (e preguiçosa) teoria de não mexer em times já desenhados, tratando de arranjar um lugar para o herói do Castelão.

—————————————————————————————-

Quando o futebol investe na esperança

A notícia espantosa viralizou nas redes sociais: Shane, de 9 anos, filho caçula de Patrick Kluivert, é protagonista de uma das mais surpreendentes transferências da temporada, talvez até mais que a de Neymar para o PSG. Shane fez a rota inversa: trocou o clube francês pelo Barcelona, onde seu pai foi ídolo nos anos 90.

Além do interesse dos catalães pelo futebol do infante, a gigante mundial de materiais esportivos Nike já o tem sob contrato milionário. São dados que normalmente envolvem atletas prontos e que se destacam nos principais centros futebolísticos do planeta.

Um vídeo no YouTube mostra o garoto com habilidades no domínio, aplicando alguns dribles e disparando chutes certeiros. Quase uma reprodução em miniatura do que era Kluivert como atacante. Ocorre que o futebol é um esporte ingrato com promessas. Nem tudo que reluz na infância vira ouro na juventude.

Incorporado às divisões de base do Barça, de onde saíram Messi, Iniesta e Guardiola, Shane deve rapidamente desenvolver seus dotes naturais para o jogo, mas é bom ir com calma. O mundo está repleto de exemplos de projetos frustrados. Shane pode desmentir esse histórico, mas, por ora, não passa de tenra esperança.

(Coluna publicada no Bola desta quarta-feira, 30)

Entry filed under: Uncategorized.

Rock na madrugada – Raul Seixas, Aluga-se Um craque, uma saudade

11 Comentários Add your own

  • 1. Anselmo Júnior  |  30 de agosto de 2017 às 1:48

    Gerson, não é tão simples assim. Se voce colocar o Jayme na direita, vai sacar o Pimentinha, que também está sendo peça fundamental do time? Ou arrisca colocar um time ofensivo de cara com Jayme e Pimentinha na direita, com risco de queimar substituições para consertar a errada escalação? Se for pra errar, é mais estratégica começar com um equilibrio sem inventar (um 4-2-2 com um lateral de ofício) e ir realizando alterações no decorrer do jogo, dependendo da situação.

    Hoje o desenho inicial do time está quase que perfeito, e a partir disso você faz substituições dependendo do andamento do jogo e do adversário. Lembre-se: Moto Clube não é Sampaio e pode requerer situações diferente de jogo.

    Concordo com o blog em preterir Jayme em relação ao Roni e outras peças duvidosas, mas o momento do time é outro e deixar o Jayme no banco se tornou algo mais estratégico

    Curtir

  • 2. Antonio Valentim  |  30 de agosto de 2017 às 7:15

    Concordo quanto a valores (só os bons valores) locais.
    Predomina a tese do complexo de vira-latas de que jogador bom é jogador que vem de outras praças; de que o jogador paraense é peladeiro, não é bom de fundamentos…
    Contribui muito para isso também a teoria de que treinador bom é o de fora.
    E assim vai.

    Curtir

  • 3. blogdogersonnogueira  |  30 de agosto de 2017 às 9:36

    Amigo Anselmo, quando refiro-me a jogar pela direita, estou falando OBVIAMENTE da ala direita, onde Jayme treinou na semana passada e onde já atuou sob o comando do Josué. Pimentinha é hoje o principal atacante e talvez o melhor jogador do Remo, jamais sugeriria barrá-lo. Não recomendo invenção, recomendo lógica e sensatez – ou o amigo prefere o errático e inseguro Léo Rosa tocando bola para trás o tempo todo ali pela direita? Vejo Jayme com muito mais qualidade e confiança para ser o cara a jogar junto com Pimentinha ali pelo lado direito, tornando o setor ainda mais forte.

    Curtir

  • 4. Anselmo Júnior  |  30 de agosto de 2017 às 10:06

    Eu sei de todas as limitações do Léo Rosas, porém sempre fica temeridade de deixar aquela ala vulnerável por não ter um lateral de ofício.

    É como eu disse: Começar com algo mais tradicional, e depois realizar substituições situcionais que pode resultar na entrada do Jayme ou não.

    Curtir

  • 5. Jorge Paz Amorim  |  30 de agosto de 2017 às 11:31

    Lembrando que o Jaime foi execrado após o segundo gol do Paysandu(Bergson), na decisão do Parazão.
    De minha parte, continuo achando que nossas divisões têm formação precária, por isso bons valores perderem-se na hora de dar resposta e firmar-se no profissional. Para cada Pikachu, existem 50 Wills, daí pra pior.
    A safra do Remo aproveitada no Parazão é inegavelmente boa, mas acho perigoso arriscar a carreira do Jaime pra tapar o buraco do Léo Rosa, vide o caso da interminável crise de identidade do Djalma.
    Espero que o centro de treinamento do Papão seja um passo à frente na formação da base, investindo no atleta, no atleta e na excelência desse material humano baseado nos mais estritos princípios científicos exigidos.

    Curtir

  • 6. Edivan Silva  |  30 de agosto de 2017 às 12:35

    É preferível um jogador contudente na lateral direita (Jaime) que um lateral temeroso que não ultrapassa o meio e exaustivamente toca a bola para trás. Quanto a marcação o Leo Rosas marca também então colocar o Jaime seria melhor opção.

    Curtir

  • 7. THIAGO DAMASCENO CORREA  |  30 de agosto de 2017 às 12:38

    Há uma falsa crença que a escalação de Leo Rosa daria mais consistência defensiva ao lado direito do Remo, unicamente por ser lateral de origem. Balela…Léo, por vezes, se mostra exitante em dar o bote no adversário e já “entregou a paçoca” lá atrás algumas vezes, que só não complicaram mais o Remo por falta de habilidade dos atacantes adversários.
    Jayme, por outro lado, se for bem treinado, pode se tornar um lateral no estilo do Daniel Alves e não estou brincando ao afirmar isso.
    Progride bem ao ataque, tem um drible razoável, sobra disposição no combate (até demais, as vezes, com seus carrinhos temerários) e, sobretudo…Tem recursos. Chuta BEM de longe, já falei varias vezes aqui.
    Para quem acha que o gol do rapaz nunca mais se repetirá na carreira dele, bom…Na verdade já se repetiu! Remo e Holanda-AM, final da copa norte sub 20. O gol contra o moto club foi quase um replay.
    Jayme tem uma boa finalização de longe e todos os laterais daqui que possuiam essa característica foram parar em maiores centros: Wellington Saci, Marlon, Elsinho, Yago Pikachu…Não podemos desvalorizar o rapaz. Sua presença na ala direita do Remo é, atualmente, mandatória.

    Curtir

  • 8. Edivan Silva  |  30 de agosto de 2017 às 12:41

    Retificando o comentario anterior quis dizer que ja que o Leo Rosas não marca e não ataca é preferível por o Jaime.

    Curtir

  • 9. lucilofilho  |  30 de agosto de 2017 às 12:55

    Belíssima coluna do amigo Gérson, foi buscar o histórico de nossos clubes, que hoje pretere nossos valores regionais e colocam jogadores de fora, sem a categoria necessária para serem titulares. É vai ser um desses valores da terra que vão levar o leão a essa classificação.

    Curtido por 1 pessoa

  • 10. lucilofilho  |  30 de agosto de 2017 às 12:58

    Sábado no mesmo horário do jogo do Remo, a seleção brasileira treina na arena da Amazônia com entrada ao público valendo um kg de alimento. Deixo muito o jogo do leão pra ver treino de seleção!

    Curtir

  • 11. lopesjunior  |  30 de agosto de 2017 às 15:33

    A questão da valorização da base é um assunto sempre oportuno. Levy nesse time estaria sobrando, cobrindo o setor direito e eventualmente apoiando Pimentinha… e Alex Juan cairia muito bem nessa canhota com o Edgar, que estaria segura com Ilaílson ou Dudu na cobertura… lembram do Cacaio? Seria um time muito parecido com o que subiu da D pra C, taticamente. O caso do Léo Rosas vai parecer dar razão a quem critica jogadores locais, mas o fato é que o time como um todo vai mal, quero dizer, não é o caso de tudo acontecer a mil maravilhas até a bola chegar nele e daí sair tudo do trilho… o Léo Rosas não é o Michel Salgado. As melhores atuações dele se deram quando pôde jogar mais intensamente no ataque e menos na defesa, embora ele tenha passado mais segurança em jogadas defensivas que Ilaílson improvisado, por exemplo… Léo não está aproveitando a fase de Pimentinha para recuperar a confiança de jogar mais no ataque e entendo isso como insegurança com a cobertura.

    No mais, porque precisa do placar para continuar na briga por uma vaga, o Remo deve pressionar o Sampaio do início ao fim, mesmo com placar favorável. Por isso, sou a favor do esquema com três atacantes, Pimentinha e Edgar abertos, com Luiz Eduardo centralizado e o meio com Flamel e Danilinho, dando velocidade ao ataque. Sem isso, vai ser difícil vencer o Sampaio…

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


CONTAGEM DE ACESSOS

  • 7,427,475 visitantes

Tópicos recentes

gersonnogueira@gmail.com

Junte-se a 13.035 outros seguidores

ARQUIVOS DO BLOG

FOLHINHA

NO TWITTER

GENTE DA CASA

POSTS QUE EU CURTO


%d blogueiros gostam disto: