As verdades da bola

23 de julho de 2017 at 3:18 3 comentários

POR GERSON NOGUEIRA

A sopa de números, tão ao gosto de certos treinadores e até coleguinhas da mídia esportiva, não costuma ser porto seguro para a análise real do que se passa no tabuleiro de jogo. Rogério Ceni é a mais recente vítima do discurso ensaiado, centrado exclusivamente em números e empregado para justificar os sucessivos tropeços do São Paulo sob o seu comando, culminando com a chegada à zona do rebaixamento.

Mesmo na condição de mito são-paulino, Rogério sucumbiu aos próprios erros – como o pendor à vaidade em detrimento do lado prático das coisas. Empregou auxiliares ingleses que não se comunicavam com o elenco. E, como já dizia o Velho Guerreiro, quem não se comunica se trumbica…

Mencionei Rogério por ser um exemplo dessa onda que contamina o mundinho futebolístico brasileiro, envolvendo erudição cartesiana, suposto domínio das técnicas de preparação e um arraigado, obsessivo até, apego às estatísticas. Suas entrevistas eram um desfile de percentuais.

Existem engenhocas que cronometram deslocamentos de um atleta em campo, mapeiam a posse de bola e produzem relatórios minuciosos sobre desempenho em passes, cabeceios, assistências e reposição. Para cada item desses, há um sujeito a anotar e outros tantos a analisar a maçaroca.

Óbvio que o mundo vive de informação e, quanto mais ela for precisa, mais chances de correções e ajustes, itens fundamentais para o bom rendimento no esporte. Não há dúvida de que o futebol ganhou bastante, evoluiu mesmo, com os apontamentos e relatórios estatísticos.

Nada, porém, substitui aquilo que é a essência de tudo: o fator humano e suas imperfeições. Anteontem, publiquei aqui um texto do amigo Edyr Augusto versando justamente sobre a imprecisão que leva muitas vezes ao infortúnio no ofício de jogar bola.

Grandes times terminam golpeados por falhas em fundamentos indispensáveis, como o domínio do passe. Se no processo de passar e receber a bola algo desafina, é quase certo que o erro vai se ampliar um pouco mais à frente, levando à inevitável perdição.

Da maneira como o futebol virou algo tabulado e previamente desenhado, chega a ser um milagre que continue tão interessante. Na verdade, vivemos a ilusão de poder controlar algo assombrosamente incontrolável. Ocorre que é humanamente impossível esquadrinhar, formatar e enquadrar na prancheta (ou tablet) um esporte tão sujeito a imprevisibilidades e ao acaso.

Todos os detalhamentos matemáticos para que o time pressione por determinada faixa do campo, explore os buracos de marcação ou se aproveite das debilidades de um meio-campista adversário podem resultar inúteis diante de reles rebatida de bola na cobrança de um escanteio ou de um tropeção do beque ao tentar limpar a área.

Enfim, as inúmeras variáveis acidentais a interferir no desfecho de uma partida impossibilitam sistematizar os erros de forma tão precisa e previsível. Por isso, graças a Deus, acima de todas as pretensões matemáticas, o futebol seguirá sendo o que sempre foi: apenas um fabuloso jogo de erros e acertos.

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Bola na Torre

Guilherme Guerreiro apresenta, com participações de Valmir Rodrigues e deste escriba de Baião.

Começa às 21h, na RBATV. Esperamos vocês.

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Ao mestre, com carinho e gratidão

A sexta-feira foi de comemoração do aniversário de Carlos Castilho, o Mestre Cacá, mais longevo comentarista do radioesportivo nortista, quiçá do Brasil. Todas as homenagens e aplausos não fazem justiça ao excepcional analista do futebol, dono de palavra fácil e certeira observação das partidas e do universo boleiro.

Foi por indicação de Castilho e aprovação do amigo Guerreiro que estreei no timaço da Clube, na Copa do Mundo de 2006, na Alemanha. Generosamente, o mestre dividiu comigo os pitacos do primeiro jogo. Como a primeira vez a gente nunca esquece, até hoje lembro aquele dia especial em terras germânicas quando realizei um sonho de infância, ao lado de craques das ondas do rádio.

Obrigado, Cacá, pelo carinho, atenção e paciência de sempre. Há muito precisava dizer isso e o transcurso de seu niver veio a calhar. Desejo vida longa e muito mais sucesso ainda nas ondas da nossa eterna PRC-5.

(Coluna publicada no Bola deste domingo, 23)

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Rock na madrugada – Rolling Stones, Jumpin’ Jack Flash (in)Justiça brazuca

3 Comentários Add your own

  • 1. Antonio Valentim  |  23 de julho de 2017 às 10:37

    Ou seja: o futebol não é uma ciência exata.

    Nem mesmo é ciência, na verdadeira acepção da palavra, vez que o conhecimento científico requer o necessário experimento, a teoria comprovada na prática. Sendo assim, bastava por em prática toda essa parafernália que o ilustre amigo elencou e o time ganharia sempre.

    O conhecimento ajuda mas, no futebol, não é tudo. Fosse assim, o Brasil jamais teria ganhado as copas de 1958, 1962 e 1960, para citar apenas as em que prevaleceu o talento brasileiro puramente.

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  • 2. Antonio Oliveira  |  23 de julho de 2017 às 11:22

    Na minha opinião Rogério Ceni foi vitima mesmo da prematuridade com que se permitiu iniciar a carreira e no consequente despreparo para o desempenho êxitoso do ofício, máxime porque a aventura deu-se logo no São Paulo, clube de imenso porte, o qual, aliás, passa por uma instabilidade administrativa com graves reflexos negativos na disponibilização de jogadores no elenco em geral e na formação e desempenho do time em particular.

    A tecnologia sozinha não faz nada, mas ela indubitavelmente é utilíssima quando há qualificação dos recursos humanos para utilizá-la eficaz e eficientemente. Do contrário será asas a quem não sabe voar.

    Noutras palavras, a tecnologia e os dados por ela processados e disponibilizados de nada adiantarão se neutralizados pela inépcia administrativa ou descaminho de objetivos dos cartolas, ou por inexperiência e despreparo do treinador ou por limitações físicas e principalmente técnicas dos jogadores, não for possível utilizar adequadamente o respectivo produto da ferramenta tecnológica.

    Enfim, o problema realmente não está na tecnologia avançada e nos seus correspondentes produtos, mas, sim, na eventual indisponibilidade dos recursos humanos aptos a bem aproveitar das benesses proporcionadas. Neste caso os erros não se revertem ou minimizam e os acertos não se multiplicam e a tecnologia com seus produtos se tornam inúteis.

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  • 3. Jorge Paz Amorim  |  23 de julho de 2017 às 14:30

    Lembro do que dizia o sábio inglês Chesterton a respeito da exacerbação do saber cada vez mais específico. O sujeito que conhece o elefante em seus detalhes mais minuciosos nunca viu ao vivo um exemplar daquele animal.
    Talvez isso explique o porquê de até aqui esse uso destrambelhado do recurso tecnológico até aqui não ter sido capaz de mostrar aos “professores” que cotoveladas, catimbas em geral e outras mazelas comprovadamente não ganham uma partida de futebol. Aliás, pegou muito mal pro senhor Ceni condenar publicamente a elogiável atitude de Rodrigo Caio em dar testemunho a favor do corintiano Jô. O tempo encarregou-se de mostrar que Caio estava certo.

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