Quino: “O mundo é muito estranho sem poder desenhar”

18 de julho de 2017 at 12:13 Deixe um comentário

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POR LEILA GUERRIERO

Como se não fosse feito de carne e músculos, e sim de serenidade e graça – com um pouco de respiração –, a mão se move, e o lápis que ela segura deixa um rastro preto, um risco que parece ser – e é – o cabelo de alguém. A mão, como se mal roçasse o papel, desenha a testa, o nariz, a boca e dois dentes enormes. A orelha, o pescoço, um olho. Finalmente, traça uma linha diminuta que transforma a expressão do rosto, até então oca, em um sorriso aberto. É agosto de 2009. No estudo de uma rádio em Buenos Aires, ao final de um programa em que foi entrevistado, o argentino Joaquín Salvador Lavado, o Quino, desenha Felipe, um dos personagens da sua tira Mafalda. A mão – a mão dele – não se deteve, não hesitou nem uma só vez: uma criatura com vontade própria que, com o ritmo constante da água do mar, desenhou esse rosto com movimentos que brotam, iguais entre si, há mais de setenta anos. Agora, em 2014, essa dança líquida sobre o papel é algo que Quino já não faz mais. A mão responde, mas ele já não a vê.

– Ah, você já vai, que sorte.

Alicia Colombo tem o cabelo grisalho, curto e volumoso. Usa saia e blusa muito escuras, e uma faixa larga que ajuda a prender a roupa.

– Não, Alicia. Acabei de chegar.

– Ah – diz ela, simulando frustração. – Eu achei que você estava indo embora e disse: “Que bom, que entrevista mais curtinha”.

São 15h30 de uma tarde de setembro em Buenos Aires. O apartamento onde Quino e sua mulher, Alicia Colombo, vivem há anos é grande, mas não enorme; prolixo, mas não luxuoso. Fica no Bairro Norte, a poucos metros da avenida Santa Fé. Sobre a mesa da sala há camisas e suéteres recém-passados, e o espaço parece pequeno, repleto de móveis: várias cadeiras, um par de poltronas, uma mesa baixa, uma estante de livros, uma cristaleira com louças antigas.

– Você viu essas cadeiras? – pergunta Alicia. – Compramos de um senhor, o sr. Gentile. Havia comprado todos os móveis de uma confeitaria e os vendia. Nós as cortamos um pouco, porque eram muito altas.

Quino, 82 anos, se senta sob a luz branca que entra pela janela, onde posa para as fotos.

– Luz, luz – diz. – Como Goethe, que antes de morrer pediu: “Luz, mais luz”.

Usa um suéter escuro, jeans e os óculos de sempre, bifocais, que exageram o tamanho de seus olhos.

– Temos uma cadeira de balanço – prossegue Alicia. – Compramos numa casa de leilões que ficava no centro, e nós morávamos em Caballito, a 70 quadras. Como não tínhamos grana para um frete, levamos a cadeira andando, um braço cada um.

– Caminharam 70 quadras com a cadeira de balanço pendurada no braço?

– É que era 1960, estávamos recém-casados. Sabe o que acontece? A gente não tinha grana.

Quino e Alicia Colombo estão juntos há 54 anos. Ela, doutora em Química, trabalhava na Comissão Nacional de Energia Atômica, mas deixou o cargo porque o trajeto ônibus a partir de um bairro para onde se mudaram começou a demorar demais. Desde então, trabalha como agente do marido. A luz que entra pela janela envolve Quino em uma brancura irreal e faz o cabelo crepitar sobre suas têmporas. Fala com gula sobre cinema, ópera, teatro: de tudo que foi ver nas últimas semanas. Ao final da sessão de fotos, se levanta e caminha até o elevador para se despedir da fotógrafa, que lhe pergunta pelo Prêmio Príncipe de Astúrias concedido a ele em 2014, na categoria Comunicação e Humanidades [ele receberia em 24 de outubro].

Quando usa diminutivos, as frases ganham uma aura de ironia sem zombaria, parecem prestes a se transformar em outra coisa: algo mais retorcido, menos terno.

– Por quê?

– Porque ela é pequena. Mas o protocolo não deve permitir.

– O elevador nunca está aqui – diz Alicia, pondo-se na ponta dos pés e olhando pelo vão da porta. – Será que ele vem?

– É preciso colocar a mãozinha na frente do buraco. – diz Quino. – Se vier um ventinho, é porque o elevador está vindo.

O elevador chega e, antes de entrar outra vez na casa, Alicia diz:

– O filme que queremos ver está em cartaz no cinema da Diagonal Norte.

– Uf – diz Quino. – Esse cinema é uma porcaria. Tem má projeção, áudio ruim. Bom, conversamos um pouquinho?

Seu estúdio é luminoso e dá para a sacada. As paredes estão repletas de desenhos de amigos – REP, Crist, Fontanarrosa –, diplomas e prêmios vários. Atrás da sua mesa há uma estante com livros de arte, as portas de vidro cobertas por desenhos e fotos: uma aquarela, uma foto do seu tio Joaquín. Sobre a mesa há poucas coisas, organizadas: um pano verde, uma luminária, uma caixa de lápis, uma boneca da Mafalda. Em frente à janela há um móvel alto, repleto de CDs. O pulso lhe treme um pouco, e parece ter uma perna um tanto rígida, mas quando fala a voz é firme e, por detrás dos óculos, os olhos focam claramente o olhar do interlocutor.

– A esta idade, nem tudo vai bem. Mas tudo bem.

– Houve alguma idade em que tudo ia bem?

– A partir dos trinta e tantos e até os sessenta e tantos a pessoa se sente bem. Depois começam os achaques. Estou muito chateado com a vista. Mas muito. Já não desenho mais.

– Mas consegue ir ao cinema?

– Agora está ficando complicando. Porque não vejo as legendas e, se não entendo o idioma do filme, dancei. Em italiano eu me viro bem. Em francês mais ou menos. O inglês eu esqueci por completo.

No ano de 1999, nesta mesma casa, Quino disse: “Eu gostaria de pensar uma história e fazê-la como livro. Mas acho que vai ficar na ideia, porque seria preciso deixar de desenhar todo o resto, e como faço para deixar de desenhar? Não fiz outra coisa na minha vida, e se paro de fazer isso não sei se vou continuar sendo eu. Abrir a revista Viva, do Clarín, e não estar lá a minha página seria estranho”. Quino começou a desenhar uma página de humor para a revista dominical do jornal argentino Clarín em 1989. Continuou até 2006, quando publicou aquele que seria o seu último desenho: o Deus monoteísta perguntando-se por que três religiões que dizem acreditar no mesmo criador estavam enfrentadas: “Não será que, no fundo, cada uma dessas religiões ama mais a si mesma do que a mim?”. Continuou republicando trabalhos antigos nessa página até 2009, quando se despediu com uma carta: “Não tomem estas linhas, que tanto me custam escrever, como uma despedida, e sim como uma ausência temporária, que espero ser breve, porque não gosto nada da ideia de que meus desenhos não continuem aparecendo nestas páginas”. Mas, desde então, não voltaram a ser publicados.

– Sabia que aquela página de 2006 seria a última quando a desenhou?

– Não. Achei que ainda tinha gás para mais algum tempo.

Quino nasceu na cidade de Mendoza, perto da cordilheira dos Andes, no ano de 1932. Seu pai, Cesário, e sua mãe, Antonia, eram dois andaluzes que haviam chegado à Argentina em 1919 e tiveram três filhos: César, Roberto e Joaquín. Seu pai trabalhava em um bazar, e Quino se criou numa casa enorme, onde também morava seu tio Joaquín, desenhista e publicitário. Um dia, quando tinha três anos, esse tio lhe desenhou, com lápis azul, um cavalo. Ele recorda isso como uma epifania brutal: o momento em que soube que queria ser desenhista.

– Quando vi tudo o que saía de um lápis… Na minha casa tínhamos uma mesa de jantar de álamo, uma madeira muito branca, e eu me atirava de barriga sobre a mesa e lá começava a desenhar. Minha mãe e eu fizemos um trato: eu poderia desenhar e depois, com água sanitária, sabão e uma escova dessas grossas, apagava tudo. Ou seja, foram muito permissivos.

– Eram bons pais?

– Para o meu gosto, sim. Um episódio em que não achei graça na minha mãe foi quando estavam caindo os meus dentes de leite. Eu tinha um dente frouxo, e minha mãe me disse: “Deixe-me ver”. Eu lhe respondi: “Mamãe, não vai me arrancá-lo”. E ela me disse: “Não, não se preocupe”. E, bum, o tirou. Depois saíam uns dentes enormes. Diminuem não sei como, mas há fotos minhas nas quais tenho dentes terríveis.

Quino sempre encontra uma maneira de responder o que quer, direcionando a conversa para um terreno em que se desloca à vontade: histórias da infância em Mendoza, a sua implacável timidez.

– Mendoza era o Mediterrâneo: todos eram sírio-libaneses, italianos, espanhóis. O verdureiro, o fruteiro. Eu falava como meus pais em andaluz. Aí no colégio foi terrível, porque ninguém me entendia. Eu dizia “esse tío”, no sentido que se dá na Espanha à palavra tío [equivalente a “esse cara” no Brasil], e me perguntavam se fulano era meu tio. Era tímido demais, e como não me entendiam era pior.

– E sua mãe era…?

– Uma andaluza gordinha muito simpática. Meu papai falava muito pouquinho. Com meus pais e meus tios eu me dava muito bem. Não ia com a cara era do meu avô.

– Era severo?

– Não. Pelo contrário. Mas eu tinha medo dos velhos. E dos bêbados. Eles me aterrorizavam. Numa noite de verão, a campainha da sala tocou, eu fui abrir a porta e me deparei com uma mulher desgrenhada, com um cano na mão, que me disse: “O doutor Schiudice me proibiu o vinho”. Levei tamanho susto que fechei com chave e fui correndo para o fundo. Havia um hospital psiquiátrico em Mendoza, e esse doutor era o diretor. Foi um dos maiores sustos que levei na minha vida.

– E de onde vem o medo em relação aos velhos?

– Não sei. Mas me causava uma sensação muito estranha precisar acompanhar o meu avô para apanhar um bonde, porque ele tinha cataratas e não enxergava bem. Dava-me uma espécie de susto. A velhice me assustava.

Para, como se tivesse dito algo impróprio.

– Estou falando no passado? Teria de falar no presente. A velhice é uma porcaria que assusta muito. Eu dou um sentido político à velhice. É como se o Pinochet lhe caísse em cima e começasse a proibir coisas: isto não, aquilo tampouco.

– Angustia-se ou na realidade encara com humor?

– Fico muito angustiado. Angustiado por ir perdendo autonomia, me movimentar mal. A coisa da vista, que já é o cúmulo. E a falta de agilidade em tudo. E acho que também certa mentalidade necrosada. A gente às vezes se sente um velho chato, dizendo: “Porque hoje os jovens…”.

Cresceu lendo revistas de humor e histórias em quadrinhos, indo ao cinema, envolto em um anticlericalismo radical (seu avô lhe dizia que uma missa era “uma congregação de ignorantes cultuando o traseiro de um vadio”) e ouvindo discussões políticas entre a avó comunista e os pais republicanos, tudo tendo como pano de fundo os conflitos que povoaram sua infância: a Guerra Civil Espanhola, a Segunda Guerra Mundial.

– Seus pais o protegiam desse clima de guerras?

– Eu me sentia protegido no sentido de que qualquer mal-estar que tivesse logo chamavam o dr. Perinetti ou o dr. Notti, que era pediatra. Nesse sentido, sim, eram muito cuidadosos.– Não, mas…

– Claro que meus pais duraram muito pouco. Quando minha mãe morreu, eu ia fazer 13. Quando meu pai se foi, quase 15. Minha mãe morreu de um câncer espantoso. Passou anos em agonia, e a única coisa que se podia fazer era injetar morfina. Foi muito feio. Ficou dois anos de cama. Meu pai, por outro lado, morreu de infarto, o que é muito preferível. Tenho lembranças espantosas. Espantosas. Porque além disso o assunto do luto marcava muito. Eram três anos de luto. Costuravam uma faixa preta na manga, usava-se gravata preta e algo na lapela. Não se podia escutar rádio. Era um espanto. Eu fiquei de luto desde os 10 anos, quando morreu meu avô, até os 18, quando terminou o luto por meu pai.

– Seu pai faleceu em casa?

– Tinha ido ao cardiologista. Estava passando mal, deram-lhe uma injeção e o mandaram para casa. Chegou de táxi. Entrei no táxi e vi que tinha os lábios azuis e estava desacordado. Então vieram uma tia e meu irmão Roberto, levaram-no ao hospital e ali morreu.

Com um tom de voz que indica um protesto amável, não de todo firme, diz:

– Mas então, tudo isso é muito triste.

Depois da morte dos pais, os três irmãos continuaram morando com o tio Joaquín. César, o mais velho, que morreu sete anos atrás, tornou-se contador. Roberto, o do meio, estudou Direito. Quino sabia que queria ser desenhista e publicar em revistas de Buenos Aires, e assim, aos 18, com a ajuda financeira de seu irmão mais velho, viajou à capital com uma pasta de desenhos de humor mudo sobre militares, casais, religião.

– Foi péssimo. Em toda parte me diziam: “Sexo não, religião não”. Faziam-se piadas de sogras, de escritório, de futebol. E eu era muito tosco para desenhar.

Sem trabalho nem renda própria, voltou para Mendoza, onde o esperava um inferno anunciado: o serviço militar obrigatório.

– Fiquei oito meses. Foi muito ruim. Quando diziam “corpo à terra!”, atirava-me de barriga no chão, olhava as pedrinhas e pensava: “Que raios tenho eu a ver com isto que estou fazendo?”.

Teimoso e insistente, em 1954 voltou para Buenos Aires. Tinha 22 anos, e desta vez teve sorte: a revista Esto Es tinha perdido um desenhista – Landrú, outro notável do humor gráfico –, e Quino caiu como uma luva. A partir de então, começou a publicar em outros lugares – Vea y LeaLeoplánRico Tipo – e pôde fazer o que sempre quis: viver de desenhar.

– Vivi em pensões, com três caras em um quarto, com bastante prostituição no hotel. Impressionava-me muito. Era muito estranho para mim. Pouco tempo depois conheci Alicia, que era amiga da namorada de um primo. Mas durante cinco ou seis anos fomos amigos, não nos ocorreu que podíamos ficar juntos.

– Antes havia tido outras namoradas?

– Não. Tive alguns relacionamentos, mas eu queria ser desenhista. Todos esses romances e relacionamentos me distraíam do meu objetivo. Perdi muito tempo com essas… bobagens – diz, fazendo um gesto que abarca o estúdio – e não aproveitei o mundo das mulheres. Nem minha adolescência. Nem nada. Eu gostava muito da Alicia. Mas ela tinha namorado, e o sangue árabe me subia, eu tinha vontade de apunhalar o namorado, a Alicia…

– Nesse momento não era sua namorada. Ela podia ter todos os namorados que quisesse.

– Não, não. Enfim. Isso do sangue árabe me aparece em muitas ocasiões.

– Em quais ocasiões?

– De ciúmes e ódio diante de situações das quais não gosto. E então me dá vontade de matar alguém. Tenho fama de tranquilo. Mas não sou. Quando por algum motivo precisei ver algum ex-namorado da Alicia, fiquei… ah.

– Até recentemente?

– Sim. Até bem pouco tempo atrás.

Quino e Alicia se casaram em 1960 e partiram em lua-de-mel para o Rio de Janeiro, de ônibus, naquela que foi também a primeira viagem dele ao exterior. Quino se lembra da experiência como algo maravilhoso, com um único porém: quando Alicia matou uma barata em Montevidéu, ele se indignou e disse: “Que incômodo lhe causava essa barata que era uruguaia, e que você nunca mais voltaria a ver?”.

– Sente que se apoiaram mutuamente em todos estes anos?

– Não. Alicia me apoiou muito mais do que eu a ela. Porque para mim o trabalho era uma religião ortodoxa, dessas irrenunciáveis. Se eu tinha algo para entregar, Alicia podia estar morrendo com uma gripe espantosa, e eu nada. E me recrimina por isso até hoje. E ela tem razão. Ela deixou sua vida de lado para ocupar-se da minha.

– Isso o faz sentir…?

– Culpa. Porque, além do mais ela adorava viajar para qualquer lugar, enquanto para mim sair de casa me custa muitíssimo. Nisso também a limitei. Tudo bem que ela é adulta, e escolheu, mas eu tenho um estilo que quando quero algo não imponho nada, mas, não sei como, acabo conseguindo. Um déspota disfarçado.

– A decisão de não ter filhos foi mais sua que de Alicia?

– Não. Estávamos os dois de acordo. Eu estava firmemente decidido. Quando meus pais morreram, senti raiva deles. Como assim, têm filhos e, em poucos anos, os abandonam e vão embora? É uma posição horrível de minha parte, mas é assim. Alicia diz que para ela não faria diferença ter sete filhos ou nenhum. Mas sempre achei que pôr filhos neste mundo é uma loucura total. Se me deixassem escolher e me mostrassem Mozart e as guerras e me dissessem “escolha”, eu responderia: “Não vou, não”.

O que se sabe dele? Além daquilo que é público e óbvio – autor da Mafalda, uma tira traduzida em trinta idiomas, que acaba de completar cinquenta anos, desenhista multipremiado (Prêmio de Caricatura La Catrina, concedido pela Feira do Livro de Guadalajara em 2003; a Legião de Honra da França, o Príncipe de Astúrias em 2014, entre dezenas de outros)… Muito pouco. Que não quis ter filhos. Que gosta de vinho. Que fumava quarenta cigarros por dia – mas parou. Que chora – literalmente – por causa das guerras, da fome, da desigualdade. Que há um lado obscuro nele, às vezes zombador (em uma época se entretinha elucidando as fixações ambíguas de Michelangelo com o sexo, e mostrava orgulhoso o esboço de uma ninfa com a assinatura de Buonarotti: se a cabeça da ninfa tivesse sido desenhada para o outro lado, sua boca ficaria à exata altura do pênis de um homem que estava junto a ela, de pé), e outras vezes nem tanto, como quando lhe perguntaram numa entrevista se desenharia o final de Videla e Pinochet, ao que ele respondeu: “Espero que terminem da pior maneira possível. Algo com muito sofrimento, não uma morte rápida”. Educado em meio a lutos e guerras, parece mover-se entre uma sensibilidade ardente pelo sofrimento dos fracos e uma repulsa escancarada por qualquer tipo de poder.

– Com as decapitações cometidas por esse grupo islâmico [Estado Islâmico] tive uns ataques de choro que nem te conto. Ou por ver esses meninos mexicanos que cruzam sozinhos a fronteira. Uma coisa espantosa.

Parte desse universo de preocupações poderia se resumir na dicotomia que é o grande tema de sua obra – frágeis contra poderosos– e se reflete não apenas na biografia que escolheu publicar em seu site (e que termina, sintomaticamente, com a seguinte frase: “[…] e, em 1964, nasce Mafalda, uma menina que tenta resolver o dilema de quem são os bons e quem são os maus neste mundo”), mas também em seu artefato narrativo perfeito, Mafalda. A história é conhecida e repisada: no ano de 1962, um amigo que trabalhava em uma agência de publicidade se propôs a desenhar uma tira para um cliente que tentava estabelecer a marca de eletrodoméstico Mansfield. Precisava incluir desenhos desses eletrodomésticos, e os nomes dos personagens precisavam começar com M: uma versão pré-cambriana da publicidade subliminar. A ideia era oferecê-la gratuitamente a algum meio de comunicação, sem que este percebesse o truque. Quino desenhou e a agência ofereceu o resultado ao jornal Clarín, onde perceberam tudo e rejeitaram a oferta. Em 1964, seu amigo Joaquín Delgado propôs publicar a tira no Primera Plana. Assim, Mafalda viu a luz em 29 de setembro de 1964. Depois foi para o El Mundo, até dezembro de 1967, quando o jornal fechou, e em junho de 1968, após seis meses sem que ninguém demonstrasse interesse em publicá-la, começou a sair no Siete Días.

– Quando percebeu que alguma coisa importante estava acontecendo com a personagem?

– Nunca. Ah! Com a publicação do primeiro livro. Até esse momento, eu achava que ninguém dava muita bola para ela. Eu ia entregar a tira ao jornal El Mundo e a pessoa que a recebia olhava assim e, às vezes, sorria, mas nunca me disseram que era uma boa ideia.

Em 1966, o editor Jorge Álvarez publicou o primeiro livro da Mafalda, e foram vendidos 5.000 exemplares em dois dias. Desde então, e até hoje, a tira é uma máquina do tempo, que viaja levando mensagens de emancipação, rebeldia e liberdade que parecem ter transcendido a época em que Quino a desenhou, e que já era um clássico quando ele decidiu deixar de publicá-la, em 25 de junho de 1973, porque se sentia como “um carpinteiro que tem sempre que fazer a mesma mesa, e eu também queria fazer portas, cadeiras e banquinhos”.

– O que me chama a atenção é que continuem a lê-la. Se você perguntar a um menino quem é Brigitte Bardot, ele não tem ideia. Vai ver é porque não há outros personagens fortes [além de Mafalda], se não a teriam esquecido.

Em 1976, quando já fazia três anos que não desenhava a Mafalda, a Argentina mergulhou na ditadura militar, e Quino e Alicia viajaram para Milão.

– Arrombaram a porta do apartamento a chutes, e nunca descobrimos de onde vieram. Quatro meses depois, os militares mataram aqui os padres palotinos e jogaram em cima dos corpos o cartaz da Mafalda com o pauzinho de amassar ideologias. Felizmente eu não vi na época. Quando descobri, anos depois, foi uma das coisas mais tristes que já senti.

Em julho de 1976, em Buenos Aires, os militares mataram três sacerdotes e dois seminaristas da ordem dos palotinos. Na foto que registra esse momento são vistos os corpos e, junto a eles, um cartaz com o desenho em que Mafalda aponta para o cassetete de um policial e diz: “Veem? Este é o pauzinho de amassar ideologias”. Apesar de ter decidido voltar ao país e montar uma casa na Argentina após o fim da ditadura, em 1983, o casal nunca deixou de viver entre Milão, Madri e Buenos Aires.

– Achou alguma vez que teria sido melhor se Mafalda não existisse, que pode ter ofuscado o restante da obra?

– Não tenho isso bem resolvido. Não sei. As pessoas deram mais importância à Mafalda do que a todas as outras tiras de humor que fiz, mas acho que há algumas que superam em muito a Mafalda.

Após Mundo Quino, seu primeiro livro, de 1963, vieram Qué Presente Impresentable¡A Mí No me Grite!¡Yo No Fui!Humano se NaceQuinoterapiaQuién Anda Ahí, entre muitos outros, e o monumental Esto No És Todo, de 2001, uma antologia que funciona como síntese proteica de todo seu pensamento. Ali se pode ver que, no mundo de Quino, imperam o abandono (um menininho pergunta à mãe: “Mamãe, você vai estar sempre, sempre com este bebê?”, e a mãe responde: “Sim, filhinho, mamãe vai estar sempre, sempre com este bebê!”, e alguns quadrinhos depois o menino, já velho, chora desolado diante do túmulo de sua mãe, pensando: “Mentirosa!”); a desilusão que azeda os casais; o abuso de poder que esfria as relações com pais e professores; a guerra e a fome como expressão extrema da miséria humana. (Transcrito do El País) 

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