Viviane Senna e o discurso oportunista e delirante da velha elite

3 de maio de 2017 at 0:43 8 comentários

senna-estatua-02-850x595

POR LUIS FELIPE MIGUEL, em Viomundo

A competição é renhida, mas acho que ontem Viviane Senna superou Michel Temer e fez o discurso mais cretino dos últimos tempos: “O Ayrton representava todos os trabalhadores do Brasil que acordam cedo para trabalhar e matam mil leões por dia. Não é de graça, não é fazendo greve que se conquistam as coisas”.

Quem gosta de automobilismo pode apreciar à vontade as virtudes de Ayrton Senna como chofer, mas ele nunca representou trabalhador nenhum.

Nem a irmã dele, aliás, tem qualquer autoridade para se pronunciar sobre o assunto. Filhos de família burguesa, nunca vivenciaram um dia da vida de um trabalhador.

É um truque velho. João Doria, a quem Viviane Senna estava afagando com seu discurso, abusa dele. Seu marketing quer que ele seja o “João Trabalhador”.

Ele faz questão de dizer que acorda cedo e dorme pouco. Ele planta notinhas nos jornais para exibir que incomoda seus subordinados com telefonemas de madrugada.

Nada disso faz dele um trabalhador, tanto quanto vestir macacão e empunhar uma vassoura não faz dele um gari.

Os trabalhadores em geral acordam cedo, bem mais cedo até do que Doria, mas não é isso que os define.

É o fato de que seu trabalho é explorado, de que sua autonomia é sufocada pela subordinação ao proprietário e a seus capatazes, de que seu tempo não lhe pertence, de que a riqueza que ele produz não está a seu alcance. É o fato de que seus interesses estão em oposição àqueles que Doria protege, isto é, aos interesses dos patrões.

Justamente por isso, o trabalhador sabe, bem melhor do que Viviane Senna, que nada “é de graça”. E por nada ser de graça é que os trabalhadores têm que se organizar, lutar contra os que os exploram e, sim, fazer greves.

Nunca apreciei Ayrton Senna — para mim, o garoto-propaganda do malufismo sempre foi mais marcante do que o automobilista.

Ainda assim, acho chocante que, mais de 20 anos depois de sua morte, sua irmã se disponha a sapatear sobre o cadáver para promover o atraso político em São Paulo e no Brasil.

Entry filed under: Uncategorized.

Rock na madrugada – The Byrds, Eight Miles High O passado é uma parada

8 Comentários Add your own

  • 1. Antonio Valentim  |  3 de maio de 2017 às 7:51

    Sou talvez um dos poucos brasileiros que não dá a mínima importância para o mito Ayrton Senna. Depois de sua morte, esse mito foi em grande parte exaltado pelo poder da grande mídia nacional, em especial a Rede Globo e seu porta-voz esportivo mor, o suspeitíssimo Galvão Bueno.

    Perdeu a vida de modo trágico porque assumiu os riscos da profissão milionária, que lhe dava muito – muito mesmo – dinheiro e fama de herói, não em busca do pão para seus filhos, como faz a grande maioria dos trabalhadores brasileiros.

    Pronto. Falei!

    Curtir

  • 2. Frederico Teron  |  3 de maio de 2017 às 8:27

    Ayrton Senna mão tem nada haver com política, Sua história foi conquistada com trabalho, Basta lembrar que nasceu rico diferente de muitos operários que enriqueceram na política tendo como bandeira a proteção aos necessitados.

    Curtir

  • 3. lopesjunior  |  3 de maio de 2017 às 10:08

    Assisti à Fórmula 1 com Ayrton Senna e ainda a assisto. Gosto de ver as corridas e a habilidade dos pilotos. O pior deles é muito superior a qualquer motorista, por melhor que este seja. Dito isto, Senna deve ser valorizado como o piloto que foi, mas não como o trabalhador que se sugere ter sido. Teve fortuna e fama fazendo o que gostava e se destacava, oportunidade raríssima. Uma vez morto e pelo que fez nas pistas, deve ser reverenciado pela história, sim. Mas pela história e pronto. Mostrou uma habilidade de poucos e teve rivais à altura, como Prost, Mansell e Piquet, esses também dignos de reverência, ainda que como Senna também não sejam bem representantes do proletariado, mas representam uma nata de desportistas capazes e habilidosos. Viviane perdeu oportunidade de ficar calada. Talvez víssemos o próprio Senna defendendo as atrocidades da reforma de Temer, o que não duvido. Vivo, Senna seria comentarista da Globo provavelmente e, dificilmente, não estaria de acordo com o editorial “global”. Mas o “se” é que é questionável e por isso mesmo é suspeito. Tal discurso assume apenas cunho pessoal, dela, Viviane. E só. Como a Instituição que ela dirige vive de direitos de imagem, dele, isso é, sem dúvida, lamentável e constrangedor.

    Curtir

  • 4. 09751  |  3 de maio de 2017 às 10:46

    Concordo também com o comentário 1.

    Curtir

  • 5. Antonio Valentim  |  3 de maio de 2017 às 11:08

    Também penso que, vivo, aposentado das pistas, Senna seria comentarista da Globo em companhia a Reginaldo Leme.

    Apenas isso e nada além disso.

    Curtir

  • 6. Antonio Oliveira  |  3 de maio de 2017 às 11:50

    Valentim, também me inscrevo dentre estes poucos brasileiros para quem o Sena é irrelevante enquanto piloto. Menos por ele, mais porque o automobilismo é uma prática que não me desperta o mínimo interesse.

    Em suma síntese, o piloto nunca representou a mim, nem a ninguém da minha família. E nos todos sempre fomos trabalhadores. Alguns desde a infância.

    Quanto à irmã dele, apesar de não conhecê-la, tampouco o trabalho que faz como gestora do legado material do irmão, seguindo as trilhas dela própria, me permito dizer que ela não sabe o que fala. É uma alienada pela atividade que desenvolve. Deve se sentir o máximo por administrar os valores que que lhes vieram às mãos sem que tivesse de fazer qualquer esforço. Pelo que crocita, tenho certeza que jamais ajudaria qualquer pessoa se tivesse de tirar do seu próprio patrimônio.

    Nunca deve ter trabalhado na vida. Não sabe do direito do trabalhador. O máximo de positivo que deve ter feito na vida toda deve estar ligado a esta verdadeira “desocupação” que é administrar uma fortuna que lhe caiu do céu. Não deve ter a menor preocupação de prover a si própria e à família, inclusive do ponto de vista material. Tudo lhe vem dos outros, neste caso do irmão falecido.

    E digo isso com tranquilidade, como retorção, eis que esta senhora não conhece e não sabe da vida e do trabalho da esmagadora maioria dos milhões daqueles que fizeram a greve e se manifestaram no dia 28, em todo o país, e mesmo assim se permitiu agredi-los.

    Curtido por 1 pessoa

  • 7. blogdogersonnogueira  |  3 de maio de 2017 às 21:37

    Estamos juntos, camarada. Penso exatamente assim.

    Curtir

  • 8. lopesjunior  |  3 de maio de 2017 às 22:26

    Embora uns afeitos ao desportista, outros nem tanto, parece que concordamos nisso, que Viviane extrapolou o limite ético que deveria guardar enquanto gestora de uma fortuna que recebeu de mãos beijadas. Isso, para mim, só mostra o quanto a elite brasileira presunçosa erra em querer manter-se feudal e não tornar-se verdadeiramente capitalista.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


CONTAGEM DE ACESSOS

  • 7,131,635 visitantes

Tópicos recentes

gersonnogueira@gmail.com

Junte-se a 19.737 outros seguidores

ARQUIVOS DO BLOG

FOLHINHA

maio 2017
S T Q Q S S D
« abr    
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031  

NO TWITTER

GENTE DA CASA

POSTS QUE EU CURTO


%d blogueiros gostam disto: