Um fascista mora ao lado

5 de abril de 2017 at 20:36 5 comentários

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POR VLADIMIR SAFATLE

Há alguns dias, foi publicada a última pesquisa CNT/MDA para a eleição presidencial de 2018. Três fenômenos são dignos de nota: a ascensão de Lula, que venceria hoje em todos os cenários, a queda de todos os candidatos ligados de forma ou outra ao atual desgoverno e a consolidação do sr. Jair Bolsonaro em segundo lugar, em empate técnico com Marina Silva.

Uma leitura mais detalhada da pesquisa revela fatos ainda mais surpreendentes. Bolsonaro é o candidato mais votado dentre aqueles que possuem ensino superior (20,7%) e aparece empatado com Lula na escolha dos que ganham acima de cinco salários mínimos (20,5%).

Já há algum tempo, o termo “fascista” é utilizado no embate político de forma meramente valorativa, e não descritiva. Ou seja, não se trata de descrever algum tipo específico de fenômeno político, mas simplesmente de desqualificar aquele que gostaríamos de retirar do debate político.

No entanto, há sim um uso descritivo do termo, há situações nas quais devemos nomear claramente o que, no final das contas, é a pura e simples adesão a práticas facilmente qualificadas como fascistas. Pois poderíamos dizer que todo fascismo tem ao menos três características fundamentais.

Primeiro, ele é um culto explícito da ordem baseada na violência de Estado e em práticas autoritárias de governo. Segundo, ele permite a circulação desimpedida do desprezo social por grupos vulneráveis e fragilizados. O ocupante desses grupos pode variar de acordo com situações históricas específicas. Já foram os judeus, mas podem também ser os homossexuais, os árabes, os índios, entre tantos outros. Por fim, ele procura constituir coesão social através de um uso paranoico do nacionalismo, da defesa da fronteira, do território e da identidade a eixo fundamental do embate político.

Neste sentido, não seria difícil demonstrar todo o fascismo ordinário do sr. Bolsonaro. Sua adesão à ditadura militar é notória, a ponto de saudar e prestar homenagens a torturadores. Não deixa de ser sintomático que pessoas capazes de se dizerem profundamente indignadas contra a corrupção reinante afirmem votar em alguém que louva um regime criminoso e corrupto como a ditadura militar brasileira (vide casos Capemi, Coroa-Brastel, Paulipetro, Jari, entre tantos outros).

Bem, quem começa tirando selfie com a Polícia Militar em manifestações só poderia terminar abraçando toda forma de violência de Estado.

Por outro lado, sua luta incansável contra a constituição de políticas de direito, reparação e conscientização da violência contra grupos vulneráveis expressa o desprezo que parte da população brasileira sempre cultivou, mas que agora se sente autorizada a expressar.

Por fim, o primarismo de um nacionalismo que expressa o simples culto do direito secular de mando, algo bem expresso no slogan “devolva o meu país”, fecha o círculo.

Ora, o fato significativo é que a maioria da classe média brasileira com sua semiformação característica assumiu de forma explícita uma perspectiva simplesmente fascista.

Ela operou um desrecalque, já que até então se permitia representar por candidatos conservadores mais tradicionais. Essa escolha é resultado de uma reação à “desordem” e à abertura produzida pela revolta de 2013.

Todo evento real produz um sujeito reativo, sujeito que, diante das possibilidades abertas por processos impredicados, procura o retorno de alguma forma de ordem segura capaz de colocar todos nos seus devidos lugares. Nesse contexto, a última coisa a fazer é acreditar que devemos “dialogar” com tal setor da população.

Faz parte de um iluminismo pueril a crença de que o outro não pensa como eu porque ele não compreendeu bem a cadeia de argumentos.

Logo, se eu explicar de forma pausada e lenta, você acabará concordando comigo. Bem, nada mais equivocado. O que nos diferencia é a adesão a forma de vida radicalmente diferentes. Quem quer um fascista não fez essa escolha porque compreendeu mal a cadeia de argumentos. Ele o escolheu porque adere a formas de vida e afetos típicos desse horizonte político. Não é argumentando que se modifica algo, mas desativando os afetos que sustentam tais escolhas.

De toda forma, há de se nomear claramente o caminho que parte significativa dos eleitores tomou. Essa radicalização não desaparecerá, mas é embalada pelo espírito do tempo e suas regressões. Na verdade, ela se aprofundará. Contra ela, só existe o combate sem trégua.

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/vladimirsafatle/2017/03/1863080-um-fascista-mora-ao-lado.shtml 

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Hum hum… Capa do Bola – quinta-feira, 06

5 Comentários Add your own

  • 1. José FERNANDO PINA Assis  |  5 de abril de 2017 às 21:29

    FASCISMO É FASCISMO
    e não me venham com adjetivações para torna-lo palatável.
    Esta nação miscigenada tem sim um pendor fascistoide embutido, não apenas na fração crasse merda (elite é fascista hours concour) mas, paradoxalmente, em parte do baixo clero, composto na maioria pelo povo.
    Há décadas os números das pesquisas mostram isso.
    Um exemplo de fascismo embutido no povo, pode ser dado com os debiloides marionetes KIM KATAGUIRI (um desvairado porralouca) e FERNANDO HOLLIDAY (o primeiro negro anti-negro da história do Pindorama). Ambos são fascistas, crias do baixo clero.

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  • 2. Antonio Oliveira  |  5 de abril de 2017 às 22:15

    A maioria dos brasileiros não dá sorte mesmo: se o pretendente não é nazofascista tá na folha de pagamento das empreiteiras ou de outros capitalistas dotado do mesmo instinto deletério.

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  • 3. Jorge Paz Amorim  |  6 de abril de 2017 às 9:38

    Só pra lembrar, Lula mora há 1/4 de século no mesmo apartamento em S. Bernardo, sua vida foi revirada pelo avesso e NADA foi comprovado que o ligue à corrupção que o famigerado tucano/togado curitibano finge apurar, seu patrimônio é o mesmo nesse período, sua declaração ao Fisco idem, seu padrão de vida nem se fala.
    Então, ligá-lo aos esquemas montados desde os tempos de Mario Andreazza e usufruído por aqueles que ascenderam fulminantemente de vida a partir desses esquemas, só serve para dar à mídia cúmplice dessa sacanagem o direito de afirmar baixinho ‘Missão Cumprida’ e assim continuar fabricando essas figuras temerárias que em um primeiro momento geram expectativas estapafúrdias.
    O maior pecado de Lula continua sendo inserir os pobres no Orçamento Geral da União, o que certamente frustrou aspirações daqueles legatários dos tempos dos anões do orçamento, inclusive as famílias que comandam a mídia convencional no país, beneficiárias daquele modelo.

    Curtido por 2 pessoas

  • 4. blogdogersonnogueira  |  6 de abril de 2017 às 11:47

    Disse tudo, amigo Amorim.. a cruzada persecutória contra o maior líder popular da história democrática do Brasil só se explica pelo pavor que as elites nutrem em relação a um provável retorno dele. O crime de Lula foi se preocupar com a desigualdade e a injustiça – fato sempre negado por todos os conservadores e reacionários deste país, inclusive alguns aqui no blog. Nem Getúlio foi tão perseguido em vida.

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  • 5. Antonio Oliveira  |  6 de abril de 2017 às 23:58

    Bom, não era minha intenção fulanizar.

    Aliás, a sujeição indeterminada, cujo emprego foi feito no meu comentário decorreu exatamente do fato de que a lista daqueles que estão na folha de pagamento tanto da odebrecht, quanto das outras empreiteiras e demais detentores do grande capital, é por demais extensa, ecumênica, pluripartidária, unisex, multiregional, nacional, sem faixa etária definida.

    Todavia, como dentre tantos foi pinçado um nome, não me custa abordá-lo em caráter específico.

    Deveras, quanto ao ex, é importante dizer que independentemente do resultado das investigações (as quais podem se desenrolar por anos a fio e até resultar em nada, como em nada resultaram aquelas dos anos 80-90 e anteriores), já há motivos suficientes para mostrar que ele não se comoportou direito enquanto chefe da nação, inclusuve no que respeita a este aspecto mais tilintante.

    Exemplo claro desta verdade é a vertiginosa e súbita mobilidade sócio-econômico financeira de seus filhos exatamente no período emeque o ex distribuía as irrisórias bolsas.

    Para medir isso, basta comparar a situação econômica do lulinha alcançada em 13 anos do governo rubro e a condição econômica de qualquer brasileiro daqueles que receberam as bolsas ou mesmo daqueles que não precisaram delas mas que trabalharam como simples mortais no período. E ainda tem o Bunlai em detrimento dos Guaranis, e a violência desenfreada no país a demonstrar a inocuidade das bolsas, inclusive naquele tão propalado aspecto da inclusão no mundo do consumo. O número das crianças e adolescentes assaltantes cooptados pela marginalidade senior, cresceu tanto ou mais quanto cresceu o engodo das bolsas.

    Quanto ao temer e demais trevosos que hoje estão aí a assolar o país, eles não foram inventados por quem quer que seja. Eles sempre estiveram aí do jeitinho que sempre foram. Quem os cooptou, arrebanhou e até resgatou alguns que estavam prestes a naufragar pelo tanto que malfizeram, foi o governo rubro. Foi ele que não apurou o que deveria apurar, não puniu quem deveria punir, manteve o que não deveria manter.

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