Belém, a cidade que apodreceu

1 de abril de 2017 at 0:31 9 comentários

POR EDYR AUGUSTO PROENÇA

Hoje volto a um tema sobre o qual já escrevi. Mas é que há algumas semanas, voltando de viagem, saudoso dos meus, das minhas coisas e da cidade, levei logo uma bofetada ao trafegar em direção à minha casa. Talvez nunca Belém tenha estado tão mal. Após duas administrações seguidas, uma delas (será que chegará ao final?) mal iniciada. Após um Átila, rei dos hunos, passar pela Prefeitura, temos outra figura que se destaca pela inação. Onde foi parar o dinheiro de Belém? Faliu? Logo após a reeleição, discutida na Justiça que, ao que parece, está docemente convencida a perdoar os erros, esperou-se pelas promessas. Nada veio. As ruas estão esburacadas, sem sinalização, sem fiscalização, com fiscais preocupados apenas em multar. Não há lei com um número de mortes, no centro e na periferia, superior ao de guerras no Oriente Médio. Diariamente. Há poucos dias, onze da noite, ouço cinco tiros na Riachuelo. Tá lá um corpo estendido no chão. Convenientemente alguns minutos depois, uns dez carros de Polícia chegaram para conferir. É a Polícia que está matando, sem uniforme e com a aquiescência dos superiores? São os traficantes? O povo no meio disso. E balas zumbem em nossos ouvidos.

A falta de lei reflete nos mínimos deveres civilizatórios. É a lei da selva. Faz-se o que quer. Penso que, de maneira pensada, se alguém decidir sair nu e cometer toda a série de crimes, nada lhe acontecerá, sequer aparecerá alguém reclamando. Lojas fecham. Camelôs se instalam onde bem entendem. São avisados da alguma blitz. Está tudo dominado. O governador sumiu. Se não há mais nada a fazer, qual a razão da reeleição? Pergunto o mesmo ao prefeito. Em alguns bairros, a lei do silêncio e o toque de recolher é decretado por outros poderes. E o que fazemos aqui? Tive várias chances quando jovem, de ir embora. Boas tentações. Não fui. Devia ter ido? Sei lá. Mas hoje, novamente, vem a vontade de “capar o gato”. Ir para outro país, como Portugal. Estávamos em uma cidade estrangeira. Minha mulher sai e tem a bolsa firmemente segura, braços cruzados até que, de repente, cai na risada e deixa a bolsa em seu lugar normal. Não estamos em Belém. Claro, nenhum lugar é um paraíso, mas aqui estamos longe, muito longe de ter qualquer segurança. Pior para os jovens. O que há para eles? Nada.

Os que escapam para São Paulo, por exemplo, amargam longa procura por emprego. Um deles declarou : nos disseram que bastava estudar muito para depois ter um emprego muito bom. Não é verdade. Têm pós graduação e outros e conseguem emprego com nível de primeiro grau. Mas ficar aqui? Vivendo no quarto, ligado na internet, tv a cabo, a garota que dorme com ele e dependendo dos pais? E a galera da periferia? Muito pior. Universidades soltam a cada semestre um sem número de próximos desempregados. Não há mercado de trabalho. Talvez como camelô, tão adorados pelos prefeitos. Não produzimos nada.

Nossa elite passa finais de semana em Miami, pelo mundo, e não traz nada para usar aqui. Vive em mansões de 50 andares, palácios, mas quando sai à rua, pisa na lama. Esse BRT é um erro brutal, grandioso, que nunca ficará pronto. Dane-se a cidade. Vêm aí novas eleições. Nova chance para, mais uma vez, errarmos. E dizemos que amamos Belém? Ouvimos Fafá cantar a música do pai e da tia Adalcinda e choramos. Devíamos era chorar de raiva. Ir para as ruas. Quebrar tudo. Botar pra fora esses incompetentes. Esses caras têm sorte de sermos um povo frouxo. Que pena, Belém. O último a sair, apague a luz, se já não estiver cortada.

(Publicado em O Diário do Pará, Caderno TDB, Coluna Cesta e opiniaonaosediscute.blogspot.com em 31.0317)

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Águia x PSC – comentários on-line Rock na madrugada – Buffalo Springfield, For What It’s Worth

9 Comentários Add your own

  • 1. Antonio Oliveira  |  1 de abril de 2017 às 8:01

    Um resumido, mas excelente inventário dos problemas e suas origens. Mas, é preciso lembrar que na cidade, no estado e no Brasil, há um expressivo contingente de pessoas que jamais votou nos zenaldos, jatenes, lulas, dilmas e temeres da vida.

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  • 2. celira  |  1 de abril de 2017 às 10:58

    Edyr foi na mosca.

    Inclusive sobre o desejo de abandonar a morena, afinal, ela não nos pertence há tempos.

    Apenas um cego, e aqui temos os pobres de direita e/ou aqueles que bebem da água dela, não consegue ver que o tucanato, aliado ao parceiro Dudu e apoiados pelas omissões de Jatene, que eles destruiram a cidade.

    Reconstruir vai dar muito trabalho.

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  • 3. Nelio  |  1 de abril de 2017 às 11:53

    Texto bem detalhado do Edir Augusto. De verdade a nossa bela Belém está um caos absoluto. Mais o problema vai muito além de se eleger maus governantes e políticos. O nosso grande Sociólogo, Antropólogo e ex Reitor da UFPA Romero Ximenes, o qual também já sofreu na pele essa onda de violência urbana no caos de Belém, falou em entrevista que: “Muitos desses problemas seríssimos que ocorrem hoje na nossa sociedade provém também da perda de credibilidade da instituições que compõem o chamado estado de Direito. ” É verdade. Aí nesse conjunto entram políticos, governantes em todas as esferas, Instituições e órgãos públicos e JUSTIÇA. principalmente justiça. Não preciso forçar a mente para imaginar que onde a justiça é fraca, a sociedade não anda bem e a baderna é total. É o que ocorre na nossa Belém.

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  • 4. FERNANDO PINA  |  1 de abril de 2017 às 12:48

    INCÔMODAS VERDADES
    Infelizmente somos obrigados engolir sapos como esses. Jornalistas como Edyr Proença, poderiam estar aqui nos premiando com loas à cidade das mangueiras, filha materna da Baía do Guajará e paterna do Rio Guamá.
    Mas e tristemente, é preciso falar com horror das mazelas & maldades seguidamente causadas à cidade morena.
    Não é de hoje o desprezo dos senhores feudais e seus vassalos (governantes & governados) para com a terra que os abriga e gesta seus filhos. E o texto do jornalista vai na ferida e nos envergonha.
    Não vejo saída, a não ser que uma mudança dos ventos nos leve para um outro espaço-tempo. Mas será preciso um esforço desmesurado de todos nesse sentido.

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  • 5. Nelio  |  1 de abril de 2017 às 14:38

    Eu também confesso que perdi todas as esperanças Fernando Pina. O estado de Direito não tem mais credibilidade. A justiça é inerte, por isso as leis não funcionam, e a baderna é geral. O povo não mais tem para onde correr no quesito eleição de governantes e políticos. Toda conjuntura atual do país hoje prova isso de forma incontestável. De cada 10 mil políticos, governantes ou candidatos ao pleito eleger uns 10 honestos ou preparados é ganhar na loteria. O Povo não tem escolha. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Olha só: Tivemos nesta ultimas eleições municipais um monte de despreparado concorrendo à Câmara Municipal e vários como prefeitos. No pleito pra a Prefeitura de Belém, os mais votados foram Zenaldo a mesmice de sempre, sendo criticado duramente por muitos, um arremedo de prefeito. Porém seu concorrente direto que perdeu a eleição foi o Edimilson ex petista Rodrigues, que já tinha passado 8 anos no poder municipal até hoje ninguém sabe o que ele fez nos 8 anos que passou, a não propagandeada bolsa escola. Se não desse para esses dois figurantes, o outro mais credenciado era Eder Mauro, o qual só administrou delegacia. Daí administrar um município do tamanho de Belém é bem mais amplo. Se ele ganha, uns 4 anos seriam perdidos até ele ter noção de administrar um município. Seria mais desses governantes que não fazem nada e no final do mandato pedem para ficar mais 4 anos na promessa que farão “tudo de bom” nos próximos 4 anos seguintes. Por isso o povo de Belém não teve para onde correr nessas eleições. Eram só candidatos péssimos e um deles tinha de vencer porque eleição é voto obrigatório.

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  • 6. Anônimo  |  2 de abril de 2017 às 0:44

    Triste realidade, amigo Gerson. Ano passado fui visitar Belém depois de longos 3 anos.

    Foi de cortar o coração ver que, após tanto tempo, nada mudou. Pu melhor só piorou.

    E Belém tem um potencial tão grande.

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  • 7. Antonio Oliveira  |  2 de abril de 2017 às 8:50

    Nélio, desculpe aí eu me meter na sua opinião sobre os políticos candidatos na última eleição municipal, mas é preciso, para reconstituir a verdade nalguns pontos.

    Edmilson Rodrigues, pode ter tido lá seus equívicos, afinal o erro é inerente ai ser humano. E eu não sou torcedor fanático de político para não vê-los ou não apontá-los quando existentes. Mas, mesmo sendo grandemente relegado pelo presidente da república que era de seu próprio partido e miseravelmente
    prejudicado por um governador que hoje já é falecido, o Edmilson fez muito por Belém.

    Um grande exemplo foi o saneamento de significativa parte do Guamá. Ali, ruas que viviam constantemente intransitáveis por conta da lama ou permanentemente alagadas fosse inverno ou verão foram drenadas e revitalizadas, passaram a ter canais e asfaltamento beneficiando direta e indiretamente toda a cidade. E este trabalho ainda está lá. Negligenciado e abandonado pelos sucessores no que respeita à manutenção e ampliação, mas ainda está lá para ser visto por quem quiser ver. Este é só um exemplo.

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  • 8. Nelio  |  2 de abril de 2017 às 12:13

    Olá grande amigo azulino Antônio Oliveira. obrigado pela sua observação. Mas amigo eu não disse que o Edmilson não fez nada. Talvez eu tenha me expressado mal. O que quis dizer é que Edmilson Rodrigues passou longuíssimos 8 anos na Prefeitura e o que ele fez foi muito pouco para tanto tempo à frente de um governo. É isso. A Oliveira, o ex petista não resolveu os problemas do trânsito, da saúde, da moradia onde só construiu aquele conjunto da Conteto da A Montenegro. Os problemas de saneamento básico da cidade eram muitos com quase os mesmo alagamentos que ocorrem hoje. Amigo A Oliveira, eu não vou me alongar demais nesse assunto para não virar campanha eleitoral rsrsrsr, então vou fazer vc relembrar só uma coisa das mais absurdas que já ouvi e que o Edmilson falou quando era prefeito após irritado ao ser sabatinado pela mídia numa entrevista sobre os constantes alagamentos dentro de Belém. Edmilson falou: “”” Para resolver definitivamente os problemas de alagamentos dentro da cidade só se construir um guarda chuva do tamanho de Belém”. vish, o cara era governante municipal e em vez de agir e trabalhar para amenizar o sofrimento de quem tem casa indo no fundo em tempo chuvoso, preferiu botar a culpa na natureza. Pira paz amigo A oliveira.

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  • 9. blogdogersonnogueira  |  3 de abril de 2017 às 1:53

    O direitismo arraigado de parte da população de Belém – justamente a mais carente – é algo para ser analisado de forma aprofundada. Nélio, que é um cidadão inquieto, revela essa faceta ao conseguir ir lembrar de uma frase do Edmilson e passar em branco sobre os absurdos perpetrados pelo tucano Zenaldo na capital quatrocentona. O maior dos disparates foi sentar-se no ônibus e proclamar semi-inaugurado o arremedo de BRT (que, aliás, também não merece críticas dos belemenses amarelados). Mas o pior de tudo é que Zenaldo é bi-cassado e conseguiu ser empossado para, logo em fevereiro, acabar com a tradição do Carnaval alegando contenção de custos enquanto abre os cofres para turbinar a propaganda pessoal. A desmemória recente é um sinal assustador de miopia política.

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