Fé cega, faca amolada

10 de março de 2017 at 9:43 11 comentários

POR GERSON NOGUEIRA

Há uma brutal diferença a separar jogos comuns de acontecimentos épicos no futebol. Nem o fato de o PSG ter se entregue de corpo e alma a uma ridícula tática defensivista diminui o tamanho do feito do Barcelona, no confronto de anteontem. Nem os erros de arbitragem reduzem a importância da façanha. Foi um jogaço, graças à aplicação e à fúria obsessiva do time espanhol.

Quando você ouvir um desses gurus da autoajuda falar em força mental procure pensar nesse time do Barcelona. Ter fé é fundamental em qualquer atividade humana. Biblicamente, a mensagem é definitiva: a fé remove montanhas. Ora, o Barça se apegou a esse princípio.

Deu certo. Nos últimos 20 minutos da decisão com o PSG, o mundo viu um time obcecado pelo gol, indo às últimas consequências para botar a bola no barbante. Daqui a algumas décadas, quando os moleques de hoje forem senhores, certamente irão recomendar que se veja o vídeo a partir dos 30 minutos do segundo tempo. É o bastante.

O futebol devia ser sempre assim. Jogado com paixão e entrega. Sem meio-termo, indo às últimas consequências. Como se não houvesse amanhã – e, na verdade, não havia.

Muitas coisas ficaram provadas no gramado do Camp Nou. A mais importante de todas é que não há resultado impossível de ser buscado. Os jogadores do Barça não hesitaram em nenhum momento. O técnico, Luis Henrique, também não. Ele, por sinal, armou um esquema todo voltado para imprensar o PSG, sem dar espaço e nem permitir sossego.

Sem laterais, mas com meias que corriam pelos lados, o Barça foi inclemente. Martelou do começo ao fim. Quando o primeiro tempo terminou, com 2 a 0 no placar, veio a impressão de que não ia dar.

Ficou ainda mais complicado quando Cavani descontou, deixando o placar em 3 a 1 e obrigando os catalães a fazerem mais três. Ora, a maioria dos times do planeta, mesmo diante de suas torcidas, iria sentir o golpe, arrefecer e entregar os pontos.

O Barça levou apenas alguns minutos para reagir. Neymar cobrou falta com perfeição e ampliou, devolvendo a sensação de que dava para chegar. Instantes depois, sofreu o pênalti e converteu, a poucos minutos do fim.

A luta contra o relógio fez com que o Barça atingisse o estágio da superação absoluta, quando há uma combinação de vontade física e de atitude mental positiva. Todos os jogadores centrados na ideia de que o sexto gol estava ali, à porta.

E começou a ser construído pelos pés de Neymar, o dono da reação, motor da sobrevivência. Mandou a bola na área, cruzada e precisa, para Sergi Roberto desviar para as redes.

Aí, por breves e intermináveis segundos, a história transpôs os limites do Camp Nou e invadiu o mundo, transformando em catarse coletiva a empolgante conquista do Barça. Tão tocante que até o frio Messi explodiu em gritos – como nunca havia feito antes – e foi comemorar com a torcida, como um Cantona reencenado.

Foi bonito. Viu-se a história acontecendo diante de todos. Como o 7 a 1 da Alemanha, no Mineirão, este é um capítulo que jamais será esquecido.

Repito: o feito suplanta até os pecados da arbitragem errática. Haverá sempre alguém a lembrar que Di Maria foi tocado na área quando o jogo estava 3 a 0, em pênalti ignorado pelo apitador. Acontece. São coisas que infelizmente o futebol se acostumou a ver, seja na Champions League, na Copa Verde ou na Lampions League.

O que não é rotineiro ocorrer foi a transfiguração de um time, obstinado a ponto de alcançar a classificação contra uma equipe igualmente forte, sem esmorecer em nenhum instante. E jogando muita bola, com passes no chão toques rápidos, sem jamais abrir mão de seu principal trunfo: a técnica refinada a serviço do resultado.

O futebol renasce sempre que alguém o homenageia dessa forma. Depois desse jogo, a temporada 2017 já pode acabar.

Importante observar que ninguém mais vai poder dizer que Neymar é pipoqueiro ou cai-cai. Tomou conta do jogo e ainda teve fibra para pegar a bola e cobrar um pênalti diante de 100 mil catalães. É preciso ter sangue nas veias para agir assim (Bebeto, nos idos de 90, refugou numa situação idêntica, em La Coruña). O craque brasileiro se agigantou e atingiu um novo patamar, só reservado aos grandes heróis.

(Coluna publicada no Bola desta sexta-feira, 10)

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11 Comentários Add your own

  • 1. celira  |  10 de março de 2017 às 10:01

    Amigos Gerson,

    Apenas um adentro ao belo texto…

    Foram dois penais legítimos para o PSG.

    Um sobre Di Maria que foi tocado por Mascherano (este já admitiu o penal) e o outro foi o toque de mão claro.

    E dois penais inexistêntes para o Barça.

    O primeiro sobre Neymar lançando-se ao toque com o jogador e o mergulho de Suarez ao final do jogo.

    Óbvio que isto não tira a beleza do futebol, já que o erro faz parte da emoção e do esporte, todavia, entristece-me ver grandes forças sendo ajudadas em todos os cantos do mundo contra times fortes, porém sem tanta influência nas federações.

    Enfim, épico por épico, confesso que fico com aquela final entre Palmeiras e Vasco do Mercosul… O canto do cisne de Romário… Ali tivemos uma virada memorável e sem ajuda amiga do árbitro.

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  • 3. celira  |  10 de março de 2017 às 10:04

    Moderação de dois links amigo Gerson…

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  • 4. Robson  |  10 de março de 2017 às 10:43

    O Barcelona sempre é ajudado pela arbitragem principalmente quando joga em casa, infelizmente por tal pratica ter se tornado tão “comum”, quase não é comentado pela maioria da imprensa.

    Bom, o fato é que mesmo com a ajudinha amiga do arbitro o PSG jamais deveria perder do jeito que perdeu se adotasse uma postura mais ofensiva no jogo. Como entrou com tamanha vantagem, entrou tb com aquela mentalidade burra de segurar o jogo.

    Espero que o jogo de ontem tenha servido de exemplo para todos estes técnicos que recuam sua equipe (muitas vezes trocando um atacante, ou meia por um zagueiro ou volante) quando seu time está vencendo.

    A melhor defesa é sempre o ataque.

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  • 5. Antonio Oliveira  |  10 de março de 2017 às 11:05

    Amigos Gerson e Celira, não pude assistir ao jogo, daí que só pude ver os melhores momentos, onde foram inseridos aqueles que suscitaram as reclamações.

    Cogitei, procurar na internet a íntegra do jogo para formar uma opinião mais abalizada sobre o jogo do ano até aqui. Mas, depois desisti. Afinal, sob o meu ponto de vista, foram muitos erros, os quais, num primeiro momento, entendi capazes de empanar o brilho do feito.

    Todavia, após a leitura da crônica, reformo a convicção inicial, e vou assistir ao jogo integral, para ver qual a sensação me desperta.

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  • 6. Gleydson  |  10 de março de 2017 às 12:59

    A força de vontade dos jogadores do Barça foi diretamente proporcional à covardia e mediocridade do time do PSG no jogo. Em condições normais, pelo elenco que possui, se jogasse de igual pra igual, dificilmente o time francês sairia goleado, mesmo com o roubo descarado da arbitragem. Perdeu merecidamente a classificação pela covardia e o barça mereceu a classificação por acreditar até o fim. Eu gostaria de ter visto dos times jogando futebol, mas só vi um, ainda assim vi um grande jogo.
    E digo mais uma vez; Neymar deu mais um tapa na cara dos seus críticos, que insistem em não enxergar que ele é sim, um dos maiores jogadores do mundo.

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  • 7. Kleber Ribas De Almeida  |  10 de março de 2017 às 13:16

    Amigo vc fez uma leitura perfeita,foi tudo isso mesmo.

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  • 8. Anselmo  |  10 de março de 2017 às 13:44

    Posso concordar em quase tudo sobre a coluna, que a virada foi épica, que o Barcelona jogou muita bola e o PSG se acanhou e permitindo a virada

    MAAAAS o juiz teve sim influencia no resultado do jogo, infelizmente.

    Foi um jogo emocionante, que sempre terá este asterisco.

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  • 9. Copulatum et Malum Remuneratum  |  10 de março de 2017 às 13:55

    Como era ganha-chama, como se dizia antigamente lá no campo do Havaí (atual Residencial Olimpus), o Barcelona enfrenta agora o Remo. Falta só definir o local. Se for aqui em Belém, é o Dewson quem apita.

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  • 10. 09751  |  10 de março de 2017 às 15:36

    Essa partida lembrou demais o Super Bowl LI. Depois do Leicester, tudo pode acontecer, mas o PSG tem uma grande parcela de ajuda nesse feito.

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  • 11. Nelio  |  10 de março de 2017 às 17:34

    Mesmo levando e conta o poderio do Barça em casa. Mesmo levando em conta ajuda da arbitragem ao time catalão, mesmo reconhecendo a grande vitória de 6×1 e virada sensacional que nunca será esquecida , mesmo considerando que o Neymar desequilibrou, fez a diferença e vem fazendo inclusive pela seleção canarinho, onde está chegando no patamar que queremos, eu não posso deixar de considerar que os jogadores do PSG fora muito frouxos e o treinador foi um elemento neutro na beira do gramado, o qual estava “vendo ” o Barça” virar o jogo e encaminhar classificação , mas não fez nada de estratégia para impedir a não ser substituir por substituir. E a bola pune, o futebol pune. E puniu o PSG porque quando fez 4×1 com Cavani na metade do segundo tempo, o mundo viu o Barça sentir o gol, os jogadores baixarem a cabeça como se estivessem entregues. Aí surgiu outra oportunidade de ouro para fechar o caixão do Barça, mas Cavani cara a cara com o goleiro um pouco na diagonal dentro da pequena área chutou muito fraco e o goleiro defendeu já depois dos 35 do segundo tempo. A partir daí a coisa começou a ficar negra para o PSG, porque Neymar que estava bem no jogo, resolveu desequilibrar em favor do Barça. Faltavam uns 6 minutos para o final onde fazer 03 gols neste tempo quando os jogadores estavam tensos, na luta contra relógio seria impossível. Bastava o treinador do PSG orientar que tinha de ser bola pro mato que o jogo era campeonato, fazer uma “cerazinha” para diminuir o ímpeto do Barça, principalmente após o gol de placa do Neymar cobrando falta e dar combate até o apito final. Mas os PSGs, além de se lançarem no ataque( não sei pra que) deixaram Messy e Neymar soltos em vez de darem combate, e o “impossível ” ocorreu com 03 gol em pouco mais de 5 minutos ficando em 6×1. Este é o retrato fiel do jogo onde os PSGs foram tão frouxos quanto os azulinos do PARISANGEREMO na derrota de 5×1 para o Cuiabarcelona em 2015, mas isto não tira jamais os méritos do Barelona e do Cuiabárcelona
    kakakakakakakakakakakakakakakakakakakakakakakakakakakakak

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