Moniz Bandeira analisa o cenário mundial de transição pós-hegemonia dos EUA

POR LEONARDO VALENTE

A combinação entre rigor histórico, documentação relevante e não raro inédita, e análise conceitual criteriosa sempre foram as marcas dos livros de Luiz Alberto Moniz Bandeira, e este “A desordem mundial” não foge à regra. Pelo contrário, trata-se de uma das mais importantes contribuições intelectuais atuais para se entender os tempos turbulentos que chacoalham o tabuleiro do poder entre as nações. De maneira didática, mas sem perder a densidade, Moniz Bandeira dá ordem ao caos, com fundamentação relevante para o entendimento sobre um sistema internacional em franco e perigoso processo de desestruturação. Comprova, ainda, que os Estados Unidos não demonstram mais a capacidade de manter a estabilidade internacional, e que sua liderança, apesar de presente, já dá claros sinais de deterioração.

unnamedA nova ordem de transição pós-hegemonia norte-americana, mas ainda com grande preponderância dos Estados Unidos, é a desordem, pelo menos por enquanto. Em meio a uma Europa cuja unicidade encontra-se ameaçada, a uma Síria assolada por uma das mais cruéis guerras recentes, a um preocupante crescimento das extremas-direitas em todo o mundo, ao terrorismo internacional, e a ex-repúblicas soviéticas convertidas em alvo de perigosa disputa geopolítica entre Washington e Moscou, Moniz Bandeira consegue estabelecer nexos estruturais e relações causais sofisticadas, que ajudam a compreender o mundo para além da visão dominante anglo-saxã, tradicionalmente defensora da hegemonia norte-americana.

Também alerta para outro fato, muito mencionado no pós 11 de Setembro, mas que hoje é pouco analisado nos círculos intelectuais:  o de que a mais importante democracia do mundo, conhecida por tentar espalhar seu regime, continua a ver suas liberdades declinarem a passos largos, e que isso contribui acentuadamente para o colapso da ordem internacional. Uma superpotência inconformada com a ascensão de nações rivais que escapam ao seu controle, e que para fazê-las recuar na disputa pelo poder é capaz, inclusive, de sacrificar parte das liberdades individuais que a tornou tão sedutora e admirada.

Entender o frágil e conflituoso castelo de cartas das nações de nossos tempos não é uma tarefa fácil, mas Moniz Bandeira sabe como poucos traduzir a entropia da contemporaneidade em entendimento analítico. Com apresentação de Luiz Carlos Bresser Pereira e prefácio de António C. A. de Sousa Lara, o livro chegou às livrarias neste mês de outubro, pela Civilização Brasileira.

APRESENTAÇÃO:

Por Luiz Carlos Bresser Pereira

A grande desordem de que nos fala Luiz Alberto Moniz Bandeira neste livro é a desordem das relações internacionais e a confusão interna em que estão imersos os Estados Unidos. É a desordem principalmente no leste da Europa, e em particular na Ucrânia, e no Oriente Médio, cuja principal causa são os Estados Unidos, e a decadência da democracia nesse país. Não obstante, essa superpotência exporta democracia para o resto do mundo, mesmo que isto tenha que ser feito através da guerra, ao mesmo tempo que, internamente, sua democracia, que após a Segunda Guerra Mundial era a mais avançada do mundo, declina.

Nesse país, nos diz o notável historiador da modernidade, a democracia entrou em decadência ao deixar de garantir os direitos fundamentais das pessoas, ao prendê-las arbitrariamente e torturá-las, ou então ao, simplesmente, as assassinar se forem consideradas terroristas ou inimigas. A justificativa para isto é a “guerra ao terrorismo”; as verdadeiras razões são a determinação de ocupar o mercado interno dos demais países com seus financiamentos e investimentos diretos, e a inconformidade da grande potência com a emergência de outras potências que não estão sob sua esfera de influência.

Mas Moniz Bandeira não fica no plano teórico. Pelo contrário, ele mergulha na prática ao citar documentos e mais documentos, e entrevistas e mais entrevistas que levantou para escrever A desordem mundial. Para ele, o que ocorreu nos Estados Unidos foi um “processo de mutazione dello stato, de democracia para oligarquia”, e de ditadura do capital financeiro. Que está associado ao aumento das desigualdades internamente, desde os anos 1980, e ao aumento da competição representada pelos países em desenvolvimento ao se tornarem exportadores de bens manufaturados e serviços, em particular a China e a Índia.

Em vez de aceitarem um mundo multipolar, no qual os Estados Unidos serão por muito tempo o ator principal, eles adotam políticas que tornam o mundo mais inseguro e desordenado.

SOBRE O AUTOR:

LUIZ ALBERTO MONIZ BANDEIRA, formado em Direito, é doutor em Ciência Política pela USP e professor titular de política exterior do Brasil no Departamento de História da UnB. Recebeu o título de doutor honoris causa da Unibrasil e da UFBA. Em 2006, a UBE elegeu-o, por aclamação, Intelectual do Ano de 2005, conferindo-lhe o Troféu Juca Pato, por sua obra Formação do império americano. Recebeu, em 2014 e em 2015, a indicação ao Prêmio Nobel de Literatura, pela UBE, em reconhecimento ao seu trabalho com “intelectual que vem pensando o Brasil há mais de 50 anos”.

Autor de mais de 20 obras, publicadas em diversos países, Moniz Bandeira foi professor-visitante de universidades da Alemanha, na Suécia, em Portugal e na Argentina e conferencista-visitante em universidades da Europa, dos Estados Unidos e da América Latina. É portador da Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco (Brasil), comendador da Ordem do Mérito Cultural (Brasil), comendador da Ordem de Mayo (Argentina) e condecorado com a Cruz do Mérito, 1ª classe, da República Federal da Alemanha.

Luiz Alberto Moniz Bandeira, 2º Barão de São Marcos (por Portugal), tem grau de Cavaleiro da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa (Casa Real Portuguesa).

Livro: A DESORDEM MUNDIAL

Páginas: 644

Preço: R$ 84,90

Editora: Civilização Brasileira / Grupo Editorial Record

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