
POR GIOVANNI RIZZO, no Observatório de Cinema
Alguns filmes conseguem compreender toda a mística que cercam uma boa história, entender que o ato de contá-las envolve um poder muito especial, que constrói, de repente, em torno de palavras, letras ou imagens um mundo cheio de fantasia. Kubo e as Cordas Mágicas é um desses exemplos que em pouco tempo consegue envolver seu público num universo de fantasias que brinda o poder de uma história.
Kubo e as Cordas Mágicas utiliza todo um imaginário acerca da cultura oriental, principalmente do gênero Wuxia, ou seja, as histórias de espada e mágica provindas do Japão, para construir seu universo fantástico. As lendas, mitos e figuras que são facilmente relacionadas a essa cultura estão presentes e são usadas com extremo respeito pelos realizadores do filme. Embora seja uma visão bastante ocidentalizada das histórias orientais, o longa acaba admitindo a universalidade daqueles contos, que pelo próprio cinema, permearam o ocidente.

Dessa forma, o filme tenta homenagear também certo tipo de cultura oral. Histórias que não se encontram em objetos matérias, mas são imortalizadas pela tradição de se contar algo marcante. Kubo e as Cordas Mágica sustenta que essas histórias passadas de boca a boca, de geração a geração, há um sentimento que os atos narrados são eternizados de maneira muito mais orgânica como se fosse uma expressão espontânea de todo um povo em manter uma história viva. O filme é justamente sobre isso, sobre construir histórias que as pessoas terão orgulho em mantê-las vivas. Com isso, Kubo e as Cordas Mágicas é, antes de tudo, um filme que prende por seu envolvimento emocional.

E para que a jornada desse garoto funcione em todos os aspectos citados, é necessário que haja uma preocupação com o visual do longa. E com isso Knight constrói um mundo onde a fantasia é visível, um filme repleto de imaginação, marcado por um preciosismo visual único. O estilo da animação de Kubo e as Cordas Mágicas difere, e muito, do que vem sendo feito nesse tipo de produção, o misto de stop-motion com 3D faz com que o filme use e abuse de seus elementos imagéticos, a imaginação toma vida. Os personagens parecem feitos de papel para origami, as paisagem são pintadas com cores e luzes que acentuam a beleza natural, fazendo um simples lago ou vale ficarem fantásticos.
Há mais detalhes únicos nas casas, nas árvores, e em cada um dos quadros das cenas. Em uma era na qual animação tradicional foi quase totalmente abandonada para dar lugar a computação gráfica, é incrível que ainda exista um estúdio que se dedique unicamente a isso.

Num dos momentos mais marcantes do filme, Kubo conta para aldeia as histórias de sua família, o garoto faz com que o seu acompanhamento musical, um shamisen (espécie de bandolim japonês) vire um aparato mágico, que dá vida às folhas de papel que Kubo leva consigo. Dessa forma, enquanto o menino canta as suas narrativas, origamis vão se formando magicamente, ilustrando o que Kubo conta. Rapidamente todos na vila estão presos a história daquele menino, com todos os artifícios que ele cria não há como aquele público não querer participar da história. Esse momento se conecta perfeitamente com uma cena pós-crédito, que merece ser vista, em que a equipe do estúdio Laika mostra o making-off do filme, tanto garoto quanto cineastas estão mostrando a construção, o artifício e a força de uma grande narrativa.
O blog recomenda, com entusiasmo.
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