Confesso que já vi este ódio

POR BETO VON DER OSTEN, no Blogosfero

Ontem me peguei refletindo sobre a imensa carga de ódio contra a esquerda que tenho visto ultimamente nas redes sociais. Nem estou falando da revista VEJA, dos articulistas da Folha e do Estadão, dos comentaristas da Rede Globo e da CBN. Estes são odiadores profissionais, são odiadores que vivem e se sustentam material e ideologicamente do seu ódio.

Não são destes que estou falando. Estou falando de ódio de gente conhecida. Amigos, parentes, gente que sei da vida, da luta. Gente que para mim é de carne e osso. Sei das suas origens e de suas famílias. Muitos são graduados, “preparados” como se arvoram. Consomem arte e refinamentos. Viajados, conhecem o mundo e sabem que o mundo está numa crise danada.

E sabem que o Brasil não vive a crise na mesma intensidade por conta de políticas acertadas de governo tais como a da distribuição de rendas e inclusão via bolsa-família, PROUNI e outras.

Mesmo assim, “a síndrome de vira-latas” compulsivamente os impele a falar mal do Brasil, a dizer que este é o pior dos países, o mais corrupto, o país que mais manipula a pobreza com “bolsas esmola”.
É certo que sempre foram conservadores de direita. Sempre temeram as esquerdas. São filhos da guerra fria sempre odiaram os “comunistas”, odeiam Cuba e Fidel Castro.

Mas eles também me conhecem, conhecem minha companheira e meus filhos. Sabem dos nossos sonhos, dos nossos medos, das nossas lutas. Sabem da militância de esquerda da nossa família. Sabem que somos dignos, íntegros e que lutamos por um mundo melhor e mais justo.

Sabem que sofremos com os tropeços que nossos governos de esquerda às vezes cometem e sabem da nossa felicidade sincera quando governos acertam caminhos, sejam de direita ou de esquerda.

Eles são da direita, acreditam na direita, mas isto até ontem nunca tinha sido um entravo para nosso relacionamento, nossa convivência. Odiavam os comunistas, mas mantinham razoável tolerância conosco da esquerda.

Tomávamos vinhos juntos. Festejávamos coisas bucólicas e familiares. Convivíamos e discutíamos nossas convicções nos limites de regras democráticas e dos direitos humanos.

Aos poucos, percebo, o ódio deles foi aumentando. O que antes era ódio difuso materializou-se contra o Lula, Zé Dirceu, ódio ao PT, ódio aos PeTralhas, ódio aos mensaleiros, ódio ao partido dos corruptos, ódio à esquerda, ódio ao pensamento diferente… e ódio a mim e a minha família.

E a cada dia as críticas foram mais pesadas, os argumentos mais sórdidos, as razões mais sorrateiras, o semblante de ódio mais visível. Os intervalos entre visitações foram se tornando mais longos. E as visitas cada vez mais curtas.

Virou um ódio pré-1964. Um ódio denso, com cheiro de caserna e inquisição.

Penso: o que poderia ter causado esta ruptura profunda, este ódio? Pensei muitas vezes em perguntar, mas acho até que eles não sabem também de onde vem tanto ódio. Foram replicando o seu ódio, absorvendo o ódio dos seus iguais e ficando impermeáveis. Hoje não lhes importa mais a razão do ódio.

E as intenções deles também mudaram… Cada um deles pouco a pouco foi se orientando para o maniqueísmo. Na leitura conjuntural que fazem, eles são os homens e mulheres de bem, sempre. As pessoas da esquerda querem implantar a ditadura do PT – o mal – logo, são pessoas malvadas que tem que ser aniquiladas.

O que era, no antes, só um odiosinho de classe, um mal estar passageiro que terminaria quando a esquerda fosse devolvida ao “seu lugar”, foi se transformando em um monstro.

Antes eles só queriam tirar o Lula, só queriam derrotar as esquerdas nas urnas e implantar aqui a “sorridente e branca democracia europeia e americana”.

Game over. O tempo correu e o plano deles foi fazendo água. Cansados de esperar esta demorada vitória nas urnas, primeiro passaram envergonhadamente a pensar em pedir ajuda aos militares. Depois, encurralados pelas circunstâncias passaram a articular com setores da mídia razões para um impeachment. Finalmente, derrotados sucessivas vezes pelo povo, só lhes restou buscar forças no ódio que dormia nos seus porões.

Contraditoriamente são pessoas humanistas, daquelas que levam para casa cãezinhos abandonados. Gente que se emociona com animaizinhos silvestres. É duro ver que não lhes importa mais o preço das vidas que serão ceifadas em um golpe militar.

Nem lhes importa que amigos, familiares, vizinhos, professores dos filhos, colegas de trabalho serão presos, torturados, banidos, assassinados. Não lhes importa mais porque o seu ódio é maior do que sua solidariedade e muito maior que sua inteligência.

Clamam que venham novamente os militares e seus canhões, suas masmorras, seus desfiles monumentais, seus hinos, suas fanfarras e sua nova ordem civilizatória. A paz dos cemitérios.

E o pior medo que tomou conta de mim foi perceber que estas pessoas não querem mais saber de onde vem o seu ódio. E não querem mais saber por que podem descobrir que o seu ódio não vem de lugar algum… É só ódio.

Eles vão assistir às prisões e assassinatos impassíveis. Foi feito o que tinha que ser feito. A democracia e a moralidade estão resgatadas no País. A corrupção é morta.

Agora sim o silêncio pode ser ouvido enquanto os canhões cantam sua longa canção.

Satisfeitos vão correr a cortina, voltar para a sala assistir o Jornal Nacional e depois dormir cedo. Amanhã tem Marcha da Família com Deus pela Liberdade.

E para os que enfrentaram a ditadura militar para conquistar liberdades democráticas, para os que lutaram pelo direito dos odiadores odiarem abertamente só restará lutar de novo pelas mesmas coisas.

Cansei…

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