Lennon, 75 anos, e o álbum que redefiniu sua vida

POR JAMARI FRANÇA

Neste nove de outubro John Lennon faria 75 anos. Quando os Beatles acabaram, em 4 de abril de 1970, encerrou-se para ele uma etapa  iniciada em 1956 quando fundou a primeira banda, The Quarrymen. A decolagem para a História começou em cinco de outubro de 1962, quando saiu o primeiro compacto com Love Me Do e P.S. I Love You. O fim da banda o encontrou sob o tiroteio de ter se casado com Yoko Ono, uma japonesa rotulada de feia e esquisita, numa demonstração de racismo e desrespeito a uma artista plástica de vanguarda e ao direito de livre escolha de John. A violência foi uma surpresa para os dois. Yoko: “Estávamos em plena Swinging London e, de repente, a Idade Média desabou sobre nós.”

Nos últimos anos os Beatles implodiram gradualmente em contradições. John disse em 1969 que precisava de mais espaço, os Beatles o aprisionavam. Ele queria se sentir livre para fazer o que quisesse sem que o mundo desabasse em cima dos outros, como aconteceu quando ele disse, em 1966, que os Beatles eram mais famosos do que Jesus. Daí partiu para um misto de arte de vanguarda com militância política a favor da paz. Gravou discos e rodou filmes experimentais como provocação – “As pessoas são gelatinas congeladas. É preciso alguém para desligar a geladeira.” Fez os bed ins com Yoko Ono em Amsterdam e Montreal, quando criou o hino pacifista “All we are saying is give peace a chance”.

Viciou-se em heroína depois de ler Ópio, O Diário De Uma Cura, de Jean Cocteau, que fala da luta do autor contra o vício. Livrou-se da droga na marra, não quis se internar numa clínica porque a imprensa ia cair em cima. Os horrores da cura estão na letra do segundo single solo, Cold Turkey: “36 horas rolando de dor – Rezando para que alguém – Me liberte novamente!” (“Thirty-six hours – Rolling in pain – Praying to someone – Free me again”), de 1969 (o primeiro foi Give Peace A Chance). Apesar do amor de Yoko, estava mergulhado em angústia existencial e, um dia, lhe caiu nas mãos o livro The Primal Scream – Primal Therapy, The Cure For Neurosis, do terapeuta americano Arthur Janov, lido de enfiada. O método tinha um viés freudiano de influência dos traumas de infância na vida adulta, incluindo o desejo do incesto, que John confessou ter experimentado em relação à mãe, Julia Stanley. Ela o entregou com cinco anos para a irmã, Mary Elizabeth (Mimi),  quando casou pela segunda vez, mas reentrou na vida de John quando ele tinha 16 anos e morreu atropelada dois anos depois.

Janov ficou impressionado com o estado de John: “O nível de seu sofrimento era enorme. Ele era quase completamente disfuncional. Não conseguia sair de casa. Não tinha defesas, estava desmoronando, cheio de raiva, hostilidade, cinismo e ceticismo. Era alguém que o mundo inteiro adorava, mas isto não fazia a menor diferença. No centro de toda aquela fama, riqueza e adulação estava apenas um menino solitário.” A terapia incluía fazer o paciente berrar as dores infligidas desde a dor do parto. A princípio John travou mas, com ajuda de Yoko, conseguiu se soltar.

Um dos temas da terapia foi a religião. John perguntou porque as pessoas se apegavam tanto às religiões. Janov respondeu que a religião era uma busca de consolo para o sofrimento. John: “Oh, então Deus é um conceito pelo qual medimos nossa dor?” Que virou o verso de abertura da música God, em que ele nega religiões, políticos e músicos, incluindo os Beatles. E faz a grande despedida do mito: “O sonho acabou – O que posso dizer – Eu era o artífice do sonho – Mas agora renasci – Eu era a morsa – Mas agora sou John – Então, queridos amigos – Vocês tem que seguir em frente – O sonho acabou.” (“The dream is over – What can I say? (…) I was the dreamweaver – But now I’m reborn – I was the Walrus – But now I’m John- And so dear friends – You’ll just have to carry on – The dream is over”). Numa entrevista ele disse: “A gente nasce e vive a maior parte da vida com dor. Quanto mais dor se sente, de mais deuses se precisa.”

Como Janov tinha uma clínica concorrida na Califórnia, teve que voltar quando terminou a primeira fase, Lennon foi a San Francisco e completou o tratamento sob marcação da imigração por conta de uma condenação por porte de maconha na Inglaterra em 1968. Nesse processo terapêutico foram compostas as 11 canções do álbum.

Para acompanhá-lo chamou para o baixo seu velho amigo alemão Klaus Voormann, autor da capa de Revolver, Ringo Starr tocou bateria, Billy Preston tocou piano em God, John guitarra e piano e Yoko vento (John diz que ela criou a ambientação). Phil Spector, o inventor da muralha sonora, assinou a produção, mas só entrou na fase final e tocou piano em Love. Depois da complexidade da produção Beatle, de Revolver (1966) a Abbey Road (1969), John optou pela mesma simplicidade e crueza que era a idéia original do álbum Get Back, lançado como Let It Be em oito de maio de 1970 com acréscimos não previstos no projeto original, incluindo massas instrumentais pelo mesmo Phil Spector. Aqui não houve isso, instrumentação econômica e pouco tratamento na voz de John. As gravações foram feitas ao vivo, todos tocando juntos.

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