POR GERSON NOGUEIRA
Como morto não fala, sempre surgem oportunistas para fazer média em cima de fatos ocorridos no passado. Só não esperava que o mais novo representante da categoria fosse logo Alain Prost. Conhecido pela rivalidade com Ayrton Senna nas pistas, com direito a algumas rasteiras de parte a parte, o francês soltou ontem uma declaração no mínimo esquisita. Disse acreditar que, se estivesse vivo, Senna e ele seriam bons amigos. Tenho cá minhas dúvidas.
Do mesmo jeito que Senna e Piquet jamais seriam parceiros de pizza, Prost estava no rol dos desafetos do tricampeão mundial (e de sua família) devido a um polêmico livro que publicou anos atrás na França. Na obra, Prost dedica um generoso espaço ao relato de certa amizade de Senna – um comissário de bordo de origem portuguesa, que trabalhava como secretário particular do brasileiro, acompanhando-o por onde andasse.
No Brasil, esse aspecto da vida pessoal de Senna foi convenientemente silenciado pela grande mídia – leia-se: Rede Globo –, que tratava o ás paulistano como se fosse uma espécie de santo. O próprio Senna inúmeras vezes fez questão de explicitar suas convicções religiosas, arriscando mesmo dizer que teria visto Jesus Cristo numa curva durante uma corrida.
Prost parece estar apenas buscando holofotes. Desde que fracassou na carreira de chefe de equipe há alguns anos, nunca mais conseguiu se firmar no circo da F-1 e tem sido esquecido também do ponto de vista histórico, quase sempre merecendo dos analistas um papel modesto em relação a outros pilotos.
Cá pra nós, posição das mais justas, pois Prost sempre foi um apóstolo da direção defensiva, uma espécie de Zagallo das pistas, correndo sempre à espera de alguma quebra ou desistência à sua frente.
Na comparação direta com Senna e Piquet, por exemplo, fica muito lá atrás. Perde feio também para o campeoníssimo Michael Schummacher, maior vencedor da história, e até mesmo para o carismático Gilles Villeneuve, que não foi campeão, mas é sempre enaltecido pelo arrojo e coragem ao volante.
Na F-1 atual, tão desprovida de glamour e rivalidades, a súbita ressurreição midiática de Prost tem o mérito de nos fazer lembrar que a categoria já foi menos tediosa e comportada. Na atualidade, não cabe sequer mencionar a expressão “circo”, afinal nem fofocas de bastidores ou provocações se ouve mais. Foi-se o tempo em que Piquet, sempre ele, cutucava finórios como Senna e desajeitados como Mansell.
A F-1 não tem DNA paulistano, mas adotou com gosto o figurino coxinha. Parece convescote de seminaristas, onde palavrão não cai bem. Seria inimaginável hoje a cena antológica de Piquet descendo do carro e partindo para dar uns sopapos no chileno Elizeo Salazar, furioso com uma fechada que lhe custou a liderança do GP da Alemanha, em Hockenheim, 1982.
Como seria improvável imaginar as farras homéricas do britânico James Hunt, tão rebelde que ganhou até filme (“Rush”) relatando sua breve (e ruidosa) história de ás do automobilismo. Boa pinta, beberrão e mulherengo, jeitão de astro de rock, Hunt desafiava o coro dos contentes e escandalizava em meio aos bons moços da época, como Emerson Fittipaldi e Niki Lauda.
A competição ficou fria, metódica ao extremo e quase que exclusivamente reduzida ao jogo de equipe e truques nos boxes. Ultrapassagens sensacionais como aquelas de Piquet em Senna na Hungria ou de Senna em Prost no Japão são cada vez mais imagens perdidas no tempo. Quando crio ânimo para ver uma dessas corridas modorrentas fico sempre com a impressão de que os pilotos pedem licença antes de ultrapassar alguém.
E é óbvio que a verve implacável de Piquet, que reapareceu gloriosamente há poucas semanas detonando Senna (“sujo nas pistas”, disparou), jamais seria aceita nas entrevistas cuidadosamente ensaiadas da F-1 atual. Aliás, até nessa comparação Prost fica em desvantagem, pois jamais teve a petulância moleque do carioca tricampeão mundial.
Na verdade, a praga do politicamente correto e os regulamentos pró-escuderias invadiram de tal forma a F-1 que praticamente decretaram sua morte ali no comecinho do ano 2000. A saída de cena de Schumacher, cuja volúpia por recordes prendia a atenção de todos, deixou a modalidade quase tão chata e previsível quanto aquelas corridas nacionais feitas de encomenda para o herdeiro de Galvão Bueno brilhar.
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Pênalti à corintiana divide opiniões
Os critérios da arbitragem brasileira seguem insondáveis e misteriosos. O penal marcado contra o Sport na reta final do jogo com o Corinthians, na quarta à noite em São Paulo, reabriu as discussões sobre a interpretação de lances de bola na mão. O jogo estava empatado em 3 a 3, após grande reação do time rubro-negro, quando uma bola cruzada da esquerda tocou na mão de um zagueiro pernambucano. Fiel às recomendações da Fifa para esse tipo de jogada, o árbitro assinalou o penal. Na sequência, Jadson cobrou a infração e garantiu a vitória do Corinthians por 4 a 3.
O problema é que, domingo, na partida entre São Paulo e o mesmo Corinthians, lance semelhante teve interpretação diferente. Bola chutada por um atacante são-paulino bateu nas mãos de um zagueiro corintiano, mas o árbitro não viu irregularidade no lance e mandou o jogo seguir.
A discussão ganhou contornos mais acalorados pelo extenso histórico de marcações de arbitragem que beneficiam o Corinthians, principalmente quando joga em São Paulo. Ficou no ar a dúvida sobre se o árbitro teria a mesma convicção para marcar a penalidade se o lance tivesse acontecido na área corintiana, alimentando as desconfianças de que existe um critério para os outros clubes e um exclusivamente para a poderosa e tradicional agremiação paulista.
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RBA pode mostrar jogo do Leão
A RBATV está acertando os últimos detalhes com a direção do canal Esporte Interativo e da Band para exibir, ao vivo, Náutico x Remo, na próxima segunda-feira (17), às 22h30, pela Série D. Negociações bastante adiantadas, depois que o EI informou que não transmitirá o jogo.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta sexta-feira, 14)
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