Desafio da sustentabilidade online

POR CARLOS CASTILHO, no Observatório da Imprensa

As pesquisas sobre comportamento dos usuários de sites noticiosos na Web apontam dados que tornam cada vez mais difícil prever quais serão as prováveis estratégias financeiras capazes de garantir a sobrevivência econômica de páginas jornalísticas na internet.

Uma pesquisa do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo, que ouviu 20 mil internautas em 12 países, indicou que a maioria deles não admite pagar pelo acesso a notícias online, o que põe em dúvida o sucesso futuro do recurso ao paywall (muro de pagamento) já adotado por jornais do calibre do The New York Times. Nos Estados Unidos apenas 11% dos usuários da internet pagam para acessar o site de jornais, um índice qumobile journalism celularese não registrou aumentos desde 2013. Aqui no Brasil, este percentual chega a 23%, um dos mais altos do mundo.

Para a revista Columbia Journalism Reviewtrata-se de um índice insuficiente para financiar as atuais redações de projetos online nos Estados Unidos. E como isto não bastasse, a mesma pesquisa mostrou que os internautas estão recorrendo cada vez mais ao uso de softwares bloqueadores de publicidade online, especialmente aqueles vinculados acookies, programas que associam anúncios aos hábitos de navegação do usuário. Nada menos que 47% dos norte-americanos e 39% dos ingleses já usam rotineiramente programas bloqueadores de anúncios online como o AdBlockPlus.org.

A combinação da rejeição do pagamento e da visualização da publicidade online deixa os projetos jornalísticos na Web diante de opções muito complicadas e nada animadoras em matéria de faturamento na internet. As perspectivas são ainda mais desafiadoras quando os prognósticos feitos por institutos de monitoramento dos hábitos de consumidores apontam que até o final do ano, ou no primeiro semestre de 2016, os smartphones devem ultrapassar os tablets e notebooks como plataforma de acesso a noticias. Atualmente 26% dos norte-americanos já acessam notícias usando preferencialmente a telefonia móvel.

A enorme incerteza sobre o futuro das receitas online necessárias para sustentar projetos jornalísticos na Web está levando um número cada vez maior de empresas a apostar na chamadapublicidade nativa, ou textos patrocinados, formatados como se fossem noticias jornalísticas. Mas também aí os resultados da pesquisa sinalizam perspectivas pouco animadoras porque cerca de 40% dos entrevistados norte-americanos manifestaram irritação depois de constatar que o conteúdo lido era patrocinado.

O aumento constante do acesso a noticías por dispositivos móveis coloca em evidência umamudança radical no posicionamento dos consumidores de informações. Até agora os veículos estavam no controle da situação. Eles determinavam o que as pessoas iriam ler e consequentemente condicionavam a agenda pública de debates. Hoje isto está mudando rapidamente. É o leitor que passou a ter o poder de escolher o que vai ler, independente do veículo. É claro que ainda há uma forte influência dos jornais convencionais, especialmente em países como o Brasil, onde a cultura digital está dando os seus primeiros passos. Mas as perspectivas indicam que a mudança é uma questão de tempo.

A partir do momento em que o público passa a ter mais controle sobre o acesso à notícia, a agenda também muda e com isso o contexto político, social e econômico das audiências. Esta mudança já é visível nas redes sociais, especialmente nos segmentos com maior presença do público jovem, cujas preocupações são bastante distintas das que influenciam as manchetes de jornais e telejornais.

Tudo isso confere cada vez mais importância à preocupação com a sustentabilidade de projetos jornalísticos, sejam eles empresariais, iniciativas comunitárias, sem fins lucrativos ou vinculadas a interesses específicos. É um desafio que surge justo no momento em que mais precisamos de informação para poder lidar com a caótica avalanche de dados e notícias na internet. É um dilema complexo porque está cada vez mais claro que a solução não virá de patrocínios governamentais, dado o passivo de desconfiança acumulado ao longo dos anos em relação às políticas oficiais de comunicação. Embora em menor escala, o segmento empresarial privado também padece do mesmo mal.

Sobra assim o público como alternativa. A cada dia aumentam as esperanças de que a solução venha a participação dos indivíduos tanto na produção de informações como na sustentabilidade de projetos jornalísticos. Esta é também uma opção complexa e que ainda vai alimentar muitas discussões, mas não podemos adiá-las indefinidamente.

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