Confirmado: campanha é dos barões da velha mídia

PP-Paulista-Manifestacao-20150412-10 (1)

POR LUCIANO MARTINS COSTA, NO OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA

Os jornais de segunda-feira (13/4) absorvem cautelosamente a frustração com o menor impacto das manifestações de domingo, projetando novos lances dos grupos que se organizaram nas redes sociais e se corporificaram nas ruas. As redações registram desentendimentos entre líderes do movimento, concentrando as fichas em apenas dois deles, mas não conseguem dissimular o fato de que os protestos eram uma grande aposta da própria imprensa hegemônica.

Os jornais de sábado haviam divulgado com destaque declarações do presidente do PSDB, senador Aécio Neves, e uma nota oficial do partido, apoiando irrestritamente as manifestações do dia seguinte. Desde a sexta-feira (10/4), os três diários de circulação nacional vinham publicando chamamentos explícitos para estimular a adesão aos protestos, procurando selecionar os grupos e isolar os aloprados que ainda pregam o golpe militar e ações violentas. Não fica bem ser visto em tal companhia.

Não havia qualquer dúvida, portanto, de que a manifestação programada para manter acesa a crise política passava a ser um ato partidário sob a bandeira do PSDB, com patrocínio indiscutível da mídia tradicional.

A “pesquisa” Datafolha publicada na manhã de domingo mostrava que a queda de popularidade da presidente Dilma Rousseff havia estabilizado, o que pode ser creditado à nomeação do vice-presidente Michel Temer como negociador com o Congresso e à maior visibilidade das medidas econômicas recentes, tratadas com superficialidade pela imprensa.

Na mesma edição da consulta, o Datafolha havia inserido uma pergunta maliciosa: “Considerando tudo que se sabe até o momento a respeito da Operação Lava Jato, o Congresso deveria abrir processo de impeachment para afastar a presidente Dilma da Presidência?”

A resposta majoritária (63%) a favor de um processo era apresentada pelo jornal como apoio ao impeachment, registrando-se, ao mesmo tempo, que só 12% dos que se declararam a favor de um processo para afastamento da presidente sabiam que, em caso de impeachment, Michel Temer seria seu sucessor.

Projeto comum

É nesse contexto de desinformação e ignorância política que os jornais tentam manipular os números da manifestação, procurando dar a ela uma abrangência que nunca tiveram.

Segundo levantamento feito pelo Datafolha no decorrer dos protestos, 83% dos manifestantes que foram às ruas no domingo haviam votado em Aécio Neves na eleição presidencial. Temos, portanto, um contexto em que homens (56% do total) brancos (73%), com educação superior (77%) e idade média de 45 anos saíram às ruas para exigir um terceiro turno da eleição que perderam nas urnas.

A análise da sequência de números selecionados pelo Datafolha autoriza a concluir que está em curso um golpe contra a vontade da maioria que elegeu a presidente Dilma Rousseff, no qual a imprensa seleciona fatos e opiniões, organiza e dá densidade a uma disposição antidemocrática que até então era difusa nas camadas privilegiadas da sociedade.

Embora os jornais insistam em dar aos protestos um caráter mais amplo, os fatos do fim de semana demonstram que há um processo deliberado, com base na imprensa, de levar às ruas manifestantes com perfil conservador e tentar apresentá-los como uma representação majoritária da população. Aposta-se, claramente, que essa onda acabe contaminando as classes de renda emergentes, cujos integrantes, em boa parte, almejam ser vistos como membros da classe média tradicional.

Observe-se que alguns institutos de pesquisa, entre os quais o próprio Datafolha, vem registrando, na esteira das manifestações, uma mudança no posicionamento político das classes médias urbanas, com o crescimento do número de pessoas que se declaram “direitistas” ou de “centro-direita”. Cansada de perder seguidamente a disputa nas urnas democráticas, a mídia se empenha em validar e dar visibilidade a expressões políticas reacionárias e antidemocráticas.

Registre-se, como curiosidade que um dos artigos publicados na edição de segunda-feira (13) da Folha de S. Paulo termina com a seguinte observação sobre a passeata de domingo no Rio de Janeiro: “(…) foi fácil perceber que não havia em Copacabana gente em situação financeira precária. Eram 10 mil pessoas de uma classe média que segue a pauta dos grupos de comunicação, claramente favoráveis aos protestos. Se a crise se instalar com a força que se espera e os mais pobres saírem às ruas, é possível que a turma deste domingo corra para seus apartamentos. E chame a polícia”.

Não seria esse mesmo o projeto da imprensa hegemônica?

PS do Viomundo: A cobertura da Globonews deixou claríssimo, ontem, que a campanha é dos barões da mídia…

5 comentários em “Confirmado: campanha é dos barões da velha mídia

  1. Pois a bem da verdade de que as coisas não andam as mil maravilhas não só para o PT como para a população mais pobre em geral, ainda mais com essas leis em que o congresso, na prática, aposta na ignorância popular para fazer valer o sonho dos empresários incompetentes ou mal intencionados ou ambos, e pôr na conta do PT a desdita, da redução da maioridade penal e do esfolamento, seguido do esquartejamento público da CLT, eis que se vê que nesse horizonte malogrado para o país que a própria votação desses projetos de lei permite verificar que a tradicional esquerda votando contra ambas (PT, PSOL e PCdoB), pois sabidamente essas leis se voltam contra os pobres, voltam a ser esquerda querida dos brasileiros. Ao propor o financiamento público de campanhas, visando eliminar tretas, maracutaias, tramas sórdidas, esquemas e afins, ora tão em voga, os deputados reagem contra a reforma política reafirmando seu compromisso com as classes dominantes, de manter a velha política corrupta e conveniente às oligarquias. Vê-se mesmo um OK! aos mais ricos e donos do poder no Brasil para desmandos fazerem o que bem entendem com o empregado, subcontratado e, nalguns casos, escravizado trabalhador assalariado. Não só em negar a reforma política é que se percebe tal comprometimento com o poder oligárquico gagá, mas também em protelar planos de cargos e salários, estabelecendo carreiras no serviço público, para que, enfim, nos livremos dos DAS da vida, é que se percebe que não se luta pela mudança do estado de coisas, mas pela manutenção do cenário patético e deplorável do Estado, favorável somente aos incompetentes e corruptos. O PMDB, baseado que está hoje na mais profunda e equivocada posição de reivindicar o poder sobre o Estado, como se parlamentaristas fôssemos, ao ponto de pisotear a democracia e o princípio mais básico de independência dos três poderes, empoderado de representar aqueles que ainda choram a derrota nas urnas, inequívoca expressão de insatisfação com o novo estado de coisas, de pelo menos um bem-estar social para um quantitativo da população que sempre viveu desrespeitada e preterida por ações do governo, eis que as práticas políticas para um novo ciclo de combate a impunidade e à corrupção são postas e que, pela primeira vez na História, o governo aposta no trabalhador em vez de presentear um figurão da oligarquia, são tratadas como retrocesso em vez de um passo corajoso em direção à uma democracia mais ampla e saudável. O PT pode ter mil defeitos, mas apresentou as melhores propostas às políticas públicas de combate à corrupção e à impunidade. Não custa que a Lei da Ficha Limpa saiu em algum momento do mandato petista. A reforma política tenderá a ser esquecida e desde o começo se falou que o preço a ser pago pelo governo seria alto, mas só pode ser contra a reforma política quem dela não se beneficiará. Pessoalmente, estou inclinado a afirmar na minha opinião, daqui por diante, que todo essa ação virulenta contra o governo não se dá em virtude dessa ou daquela fraude num órgão do Estado, mas pela mais pura e simples rejeição ao sentido que deve ser dado à reforma política, que deverá eliminar as as atuais formas de corrupção a que assistimos na TV. Agora que o congresso tem-se mostrado disposto a votar assuntos delicados e feito cerão para aprovar medidas que vão contra o povo, gostaria de ver, no mínimo, o mesmo empenho para provar as reformas de que o Brasil realmente precisa.

    Curtir

  2. Protesto aos domingos?

    Quero ver fazer protesto num dia útil, segunda que tal?

    Não fazem porque perderão seus lucros e darão aos seus empregados um dia de folga.

    Domingo de manhã, apenas perdem um dia de lazer.

    Elitistas filhos de uma égua!

    A proposito, o povo até quando falta ingresso na bilheteria de futebol protesta, não importa o dia da semana ou contra quem.

    Só sabe a dor do calo, o dono do sapato.

    Os golpistas agora tem todo o apoio da sistema bobo de comunicação.

    Curtir

  3. Mas, Lopes, não há como jogar na costa do pt a aprovação da terceirização. Afinal, toda a bancada votou contra. Na realidade, além dos próprios deputados que votaram favoravelmente, responsável é o governo Dilma, eis que a esmagadora maioria de sua base aliada votou a favor.

    Agora, quanto à retirada, o retrocesso, o a viltamento, de outros direitos trabalhistas e previdenciários ocorridos recentemente, o pt nao pode ser liberado de sua grande responsabilidade, junto com o próprio governo.

    Quer dizer, não é bem exato que o pt tenha voltado à esquerda.

    Quanto ao financiamento público de campanha, tenho minhas dúvidas de que sua aprovação terá o condão de acabar com a corrupção, e o petrolão, pra mim, é um firme indício no sentido do cabimento das minhas dúvidas. Sem contar que se admitida a verdade desta tese estaremos diante de uma especie de confissao petista de que o que vem sendo afirmado por aí é verdade sobre o destino dado à verba desencaminhada da petrobras.

    Curtir

  4. De fato há um pé oligárquico no governo petista desde Lula, com José Alencar, mas, este, inteligente, entendeu que ganharia com o crescimento do mercado interno. Muitos outros entenderam e ganharam também. Num momento de crise, em que o dinheiro perde algo do seu valor para sair ainda mais valorizado após e ainda durante a crise, o ranger de dentes ressurge. Como marxista, devo apontar que nos momentos em que os lucros e os salários estão altos, os burgueses apressam-se em faturar, mas quando os lucros caem e a riqueza que circula diminui, volta à tona essa política de quintal. Quero dizer, o momento em que a crise for superada será aquele em que, politicamente, quem tiver o poder colherá os frutos pelo alívio. Não custa lembrar que o próprio Obama sofreu duras críticas e, com a economia melhor, melhorou sua aprovação junto ao povo estadunidense, inclusive promovendo a reaproximação com Cuba. As reformas a que você se refere, ocorridas no governo Dilma realmente são mesmo de direita, da qual o restante necessário do apoio para a governabilidade, e pelo qual o próprio povo topou dar essa oportunidade ao PT, pois o PT nunca foi “puro sangue” no governo, são a forma de o povo dizer que quer ir com calma, que não quer tanto assim o socialismo, quer só experimenta-lo mais um pouco antes de retornar ao velho liberalismo. Essa condição de governabilidade exigida pelo próprio cidadão afeta o programa de esquerda, fosse pelo PL, fosse pelo PMDB, patrões de carteirinha. A coisa anda tão feia que até o PTB de Vargas votou pela terceirização, jogado na lama a história do partido. Espero que o financiamento público de campanha volte a ser discutido pelo povo e que haja mobilização como houve pela lei da ficha limpa. Sem pressão popular, uma lei dessas nunca se tornará realidade. Com isso quero dizer que concordo em parte quanto a responsabilidade sobre as políticas de governo, visto que o governo é composto de mais de uma ideologia partidária, mas tem que se conhecer cada qual para entender o que se passa.

    Curtir

  5. Amigo Lopes, me permita duas palavras sobre seu comentario: a) nada obstante entenda que materialmente não seja possível dizer que os eleitores que avalizaram os 12 últimos anos do p e t i s m o no poder central, esclarecida, consciente e efetivamente apoiaram esta guinada neo_liberal anunciada desde a “Carta ao Povo Brasileiro”, creio que formalmente este apoio de referida parcela do eleitorado é inegável. Afinal, ditos eleitores têm reiteradamente vota com esta proposta. Aliás, vc não está sozinho neste entendimento, o culto teórico p e t i s ta, A n d r é S i n g e r defende esta ardorosamente tese na obra “Os sentidos do l u l i s m o”; b) me explique o que lhe faz crêr ou ao menos cogitar que com o fim do financiamento privado das campanhas se conseguirá ao menos diminuir os casos de corrupção no Brasil?

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s