Dona da Mercedes é questionada por envolvimento com a ditadura brasileira, mas empresa nega

POR PATRÍCIA DICHTCHEKENIAN – OPERA MUNDI

No dia em que o golpe civil-militar brasileiro completa 51 anos, a multinacional automobilística alemã Daimler S.A., fabricante da Mercedes-Benz, foi questionada nesta quarta-feira (01/04) pela Associação de Acionistas Críticos a respeito de seu envolvimento com a ditadura brasileira (1964-1985). As perguntas direcionadas à empresa repercutem o relatório final da CNV (Comissão Nacional da Verdade), que cita a firma como uma das financiadoras da Oban (Opreação Bandeirante), o órgão que, de 1969 até meados dos anos 1970, era o braço militar da repressão política e, anos mais tarde, daria origem ao DOI-Codi, principal centro de tortura e morte do regime. A empresa nega envolvimento com a ditadura.

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“O Conselho Diretor da Daimler falhou ao não investigar e esclarecer de imediato esses eventos [envolvimento com a ditadura brasileira]. A Daimler deve encarar e reconhecer sua responsabilidade histórica”, dizia a moção movida pelos Acionistas Críticos, grupo sem fins lucrativos que possui ações em mais de 25 das maiores empresas da Alemanha.

A Mercedes-Benz é citada em duas passagens no volume II do relatório final da CNV, documento entregue à presidente Dilma Rousseff no mês de dezembro:

Outro caso de graves violações de direitos humanos aconteceu com Lúcio Bellentani, na Volkswagen de São Bernardo do Campo, em 1972.53 Segundo seu depoimento, ele “estava trabalhando e chegaram dois indivíduos com metralhadora, encostaram nas minhas costas, já me algemaram. Na hora em que cheguei à sala de segurança da Volkswagen já começou a tortura, já comecei a apanhar ali, comecei a levar tapa, soco”. Foram presos no mesmo episódio mais de 20 metalúrgicos, a maioria da Volkswagen e o restante da Mercedes, da Perkins e da Metal Leve. (p. 70)

Ao lado dos banqueiros, diversas multinacionais financiaram a formação da Oban, como os grupos Ultra, Ford, General Motors, Camargo Corrêa, Objetivo e Folha. Também colaboraram multinacionais como a Nestlé, General Eletric, Mercedes Benz, Siemens e Light.  (p. 320).

ntes da reunião desta quarta, a empresa já havia respondido textualmente aos questionamentos, negando envolvimento com a ditadura e afirmando não ter sido comunicada das acusações pela CNV brasileira.

Estamos acompanhando o trabalho da comissão e começamos nossa própria investigação há algum tempo. Nossos pesquisadores ainda não revelaram quaisquer indicações de apoio da empresa ao regime militar brasileiro. Não encontramos evidências para as acusações de que a Mercedes-Benz teria financiado a Oban. Também não encontramos tais evidências no relatório da CNV. Respeitar e proteger os direitos humanos são de princípios de muita importância para a Daimler. Certamente estamos dispostos a dar apoio às autoridades brasileiras para o esclarecimento dos fatos.

Na reunião anual de hoje, em Berlim, com a presença de mais de 3 mil acionistas da empresa, a Daimler reiterou verbalmente sua posição, o que não foi suficiente para os Acionistas Críticos.

“Como a maior parte dos documentos e arquivos no Brasil não existe mais, a Daimler deveria primeiro contatar, conversar e escutar as testemunhas e vítimas, para primeiramente recuperar a memória”, sugeriu Christan Russau, membro da diretoria dos Acionistas Críticos. “Em um segundo passo, a Daimler deverá assumir responsabilidade frente às vitimas, os parentes deles e à sociedade brasileira”, completa.

Russau relatou também que o CEO da Daimler, Dieter Zetsche, afirmou que a Daimler chegou a procurar ex-funcionários alemães da época para perguntar sobre se havia notícias da colaboração da filial brasileira com o regime militar — todos disseram que não sabiam de nada.

Pressionado novamente, Zetsche afirmou que está nos planos da Daimler colher depoimentos de ex-funcionários brasileiros. O executivo, entretanto, não especificou quem seria responsável pelo trabalho de investigação e resgate da memória. Os Acionistas Críticos sugeriram que a empresa indicasse para o trabalho Valter Sanches, brasileiro, sindicalista e membro do Conselho de Administração da Daimler. Ainda não houve resposta da diretoria.

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Papel de outras empresas alemãs na ditadura 

Uma das principais concorrentes da Daimler no mercado automobilístico é a Volkswagen, que também já foi questionada pelos Acionistas Críticos durante reunião de prestação de contas da companhia em Hannover, em maio de 2014.

Na ocasião, a Volkswagen respondeu que esclareceria sua relação com a ditadura brasileira caso a Comissão Nacional da Verdade revelasse provas de que houve violação dos direitos humanos por parte da empresa no período em que os militares comandavam o Brasil.

No último mês, a Volkswagen fez parte de uma audiência pública para esclarecer a colaboração do empresariado paulista na repressão aos trabalhadores durante o período militar. A sessão no auditório da Assembleia Legislativa de São Paulo teve a presença de ex-funcionários da montadora que relataram experiências de repressão dentro da fábrica.

“A Volkswagen veio com estrutura fantástica à sessão. Mas acho que eles saíram muito mal na foto. Não responderam às perguntas, tinham uma tremenda de uma blindagem. O depoimento em si foi muito fraco e vazio, querendo proteger acima de tudo a imagem da empresa”, relatou a Opera Mundi Adriano Diogo, deputado estadual e presidente da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”. “Lá, os alemães estão abrindo tudo e analisando todos os arquivos com vínculos ao nazismo. Aqui, a Volkswagen diz que é tudo mentira”, completou Diogo.

Além da Daimler e da Volkswagen, outra empresa alemã questionada pelos acionistas foi a multinacional Siemens. “O Conselho de Supervisão da Siemens se negou a investigar e esclarecer estes incidentes, nem mesmo tendo em vista o contexto do aniversário de 50 anos do golpe militar no Brasil. A Siemens deve encarar sua responsabilidade histórica e admitir os atos que cometeu”, assinala o documento entregue pela associação e lido diante dos demais acionistas e diretores da multinacional na reunião anual da firma, em 27 de janeiro de 2015.

2 comentários em “Dona da Mercedes é questionada por envolvimento com a ditadura brasileira, mas empresa nega

  1. Os entreguistas brasileiros acabam se envolvendo com o grande capital, que passa a patrocinar isso que estamos vendo no Brasil hoje, tentativa de golpe e de destruição da Petrobras.

    Date: Thu, 2 Apr 2015 07:06:10 +0000 To: rildoagro13@hotmail.com

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  2. Não sejamos ingênuos, não há trama para destruir o Brasil por parte das multinacionais, o interesse deles é garantir mercado. Se houver um ditador no Brasil que permita altos lucros, haverá parceria. A ditadura militar, percebam, favoreceu a instalação e operação de multinacionais no país, razão pela qual o regime “prestava”. Hoje em dia, as razões para se fomentar um golpe contra a esquerda brasileira é a mesma de sempre, querem um político liberal que favoreça desde sempre os interesses de empresas e grupos econômicos internacionais e maximizem seus ganhos por aqui, não importa a consequência disso para o país e o povo. A burguesia doméstica não se interessa por empreender concorrência aos estrangeiros. Lembro de marcas como CCE, Gradiente e Gurgel. Não havia marketing e propaganda, nem incentivos federais e estaduais que garantissem uma política de diferenciação para o desenvolvimento de tecnologia brasileira. Não havia pesquisa para melhoramentos e inovações. Lembro do anúncio de Miro Teixeira, então na pasta de Ciência e Tecnologia, no governo Lula, divulgando o trabalho de técnicos e cientistas brasileiros e a liderança no desenvolvimento da convergência digital, a que hoje tantos comemoram e se valem para marcar os protestos contra o governo. O Brasil foi o primeiro país a ter a tecnologia confiável de TV no celular. Hoje, as TVs possuem a opção de se conectar à internet. E o país, lamentavelmente, importou a tecnologia japonesa como sistema digital nacional. Haveria de existir empresa brasileira que desenvolvesse a tecnologia nacional. Poderia ter sido a Embratel, se não tivesse sido privatizada. Não há uma forma de medir com exatidão a influência dessas empresas no Brasil. Particularmente, avalio o interesse delas no nosso mercado, valor de mercado da interessada e dos políticos daqui para ter ideia de se a corrupção por aqui é apenas grande ou gigantesca. Também considero saudável a desconfiança com o governo em meio à crise. Se isso for sinal de amadurecimento do nosso povo, essa capacidade de desconfiar do governo se estenderá à mídia, porque no período histórico marcado pela influência da informação, como o nosso, refletindo o poder nas mãos da mídia, o que a torna um ator político respeitável e tão influente quanto o Estado, então me daria por satisfeito por saber que o cidadão começou a entender que é preciso se defender desses velhos atores do poder, a mídia e o Estado.

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