O filósofo da aplicação

POR GERSON NOGUEIRA

Teatral, com pausas friamente estudadas, Tite se transformou em fenômeno nas entrevistas coletivas. Seu sucesso já data de algum tempo. Articulado, sabe explorar o encontro quase diário com os jornalistas para burilar um estilo muito particular de comunicação, que se assemelha aos macetes da arte dramática, incluindo a preocupação com o tempo certo das frases e silêncios.

unnamed (73)Perde tempo quem o fustiga com perguntas gaiatas, visando declaração bombástica contra outro time ou mesmo um colega de profissão. Imperturbável, ele capricha nas lições de ética, pregando respeito absoluto pelos adversários e muitas vezes elogiando (sem razão lógica) um time que acabou de derrotar.

Até aí, nada muito diferente da cantilena habitual dos treinadores, que cultivam o doce exercício da hipocrisia para garantir a boa convivência profissional, pelo menos em público. É possível até que Tite seja um cara realmente bacana e solidário, mas ao distribuir elogios imerecidos deixa entrever a intenção marqueteira.

A questão é que, pilotando o time mais midiático do país (supera até mesmo o Flamengo), Tite tem se esmerado em talhar um perfil público que o diferencie dos demais. Com disciplina e método, vai deixando para trás, com braçadas de vantagem, antigos campeões dos holofotes, como Luxemburgo, Scolari ou Abelão.

Antes de reassumir o Corinthians, Tite dedicou-se a um anunciado “período sabático”. Desempregado, acompanhou a Copa do Mundo e viajou pela Europa, observando como funciona o trabalho nos grandes e milionários clubes do Velho Continente.

Não é possível saber se aprendeu algo de útil quanto a formulações táticas, mas refinou a arte de falar em público. Antes disso, escorregava em neologismos esquisitos, recheando suas frases com termos estranhos, como “treinabilidade”. Virou folclore, alvo de piadas. Esperto, nesta nova fase ele aposentou as palavras difíceis, a tempo de não ser confundido com um novo Lazaroni, aquele do célebre “galgar parâmetros”.

Como técnico, nada de inovações. Tite apenas reproduz o trabalho desenvolvido na campanha do título mundial interclubes. Faz neste começo de temporada o Corinthians jogar aplicadamente, marcando em cima e zelando pela retranca. Aliás, poucos times no mundo são tão cuidadosos com a defesa. Lembra até o Atlético de Madri, de Diego Simeone, outro assumido apóstolo da retranca.

Mas, em meio ao desprestígio generalizado dos treinadores brasileiros, o corintiano tem o mérito da perseverança. Virou exceção ao adotar um modelo de trabalho do qual não se afasta nem sob tortura. Seu time expressa sua filosofia.

Muricy já foi assim, Felipão também, mas hoje é forçoso reconhecer que somente o “professor” Tite ostenta quase sozinho a intrépida bandeira do futebol de resultados.

O futuro dirá se isso é motivo para rir ou para chorar.

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A jornada solitária dos azulinos

Até o leãozinho de pedra lá do Baenão sabe que o Remo não pode mais errar. Ao menor deslize na fase classificatória do returno, todo o projeto de retorno à Série D estará inapelavelmente comprometido. O fracasso no primeiro turno transformou a jornada do segundo em missão quase desesperada.

Zé Teodoro, estreante em campeonatos paraenses, teve tempo para observar a cena e saber que disputa-se aqui uma competição atípica, na qual os emergentes se tornaram cada vez mais audaciosos e temíveis. Um deles, o Parauapebas, foi responsável direto pela façanha de desbancar o Remo dentro do Mangueirão logo na abertura do campeonato.

Na disputa direta com oito outros competidores pelo direito de representar o Estado na Série D, o Remo precisa vencer todos os seus jogos em casa – são três, incluindo o clássico Re-Pa do próximo dia 29 – e buscar uma vitória como visitante. Começar bem, mostrando autoridade, é mandamento obrigatório a essa altura, até para impor respeito.

O adversário é um dos emergentes mais surpreendentes do campeonato. Montado às pressas, o Tapajós fez da ousadia sua arma de guerra. Joga em casa e fora com o mesmo apetite ofensivo. Isso só não deu certo na semifinal do turno, mas o time do técnico Victor Hugo foi muito além das expectativas.

Para não ser emboscado outra vez, o Remo terá que se afirmar como o dono da casa, de preferência sufocando desde o começo. As alterações anunciadas por Zé Teodoro na sexta-feira indicam que o time está preparado para atropelar o Boto visitante.

Com Fabiano reabilitado, Levy de volta à ala direita e Ilaílson substituindo a Dadá (lesionado) na marcação, Zé Teodoro mantém Eduardo Ramos e Bismarck como criadores de jogadas. Os últimos jogos mostraram Ramos também se apresentando para finalizar, com bons resultados.

Roni e Flávio Caça-Rato são os atacantes. Com base na escalação anunciada, será possível ver em determinados momentos a equipe usando até quatro homens em busca do gol. É a receita correta, embora nem sempre seja bem sucedida.

Promessa de bom jogo, com previsão de grande público.

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A confissão do crime

Com mal disfarçado orgulho, o técnico Carlo Ancelotti confessou nesta semana que foi o responsável pela permanência do brucutu Pepe no Real Madri. “No meu primeiro dia no Real, Pepe me disse que queria sair. Eu não deixei”, revelou o italiano, feliz da vida com a ideia.

Não há jeito. O futebol, cada vez mais, se transforma no paraíso da enganação. E não estou falando exclusivamente de Belém, do Pará ou do Brasil. A coisa é globalizada mesmo.

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Bola na Torre

O técnico Zé Teodoro, do Remo, é o convidado especial do programa deste domingo. Guilherme Guerreiro apresenta. Tomazão e este escriba de Baião formam a bancada. Começa logo após o Pânico na Band, por volta de 00h10.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 15)

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