O que poderia ter sido grande, mas foi apenas mau

POR LUIS NASSIF

Quando o outsider entrou no STF (Supremo Tribunal Federal), os senhores formais aceitaram com superior condescendência. O outsider tinha currículo, falava várias línguas, desenvolvera teses importantes sobre inclusão.

Mas era outsider. Não vinha de família de juristas, gostava do ambiente informal dos botecos, era de pouquíssimos amigos e nunca fez média na vida. Conquistou tudo na porrada, dependendo dele e só dele.

Tinha tudo para entrar para a história, derrubando conchavos, despindo o formalismo e a hipocrisia de muitas togas, subvertendo formas de ver o mundo, trazendo para o Supremo os ares da contemporaneidade e a marca altiva de sua cor e dos que conquistaram tudo sem nunca ceder.

Mas faltava-lhe algo, uma peça qualquer no sistema emocional que o tornou uma espécie de Mike Tyson com toga, uma força gigantesca e incontrolável assombrada por mil demônios internos que o impediram definitivamente de se tornar um grande.

O que moldou esse lado emocional tosco, rude, cruel, não se sabe. As intempéries da vida costumam construir grandes caráteres; mas também modelam a crueldade, a revanche permanente.

Foi o caso de Joaquim Barbosa.

Seu mundo tornou-se uma ilha pequena, restrita, cercada por um oceano infestado de tubarões querendo destrui-lo, cada gesto contrário visto como ameaça ao que ele conquistou.

Cada julgamento tornava-se uma guerra a ser vencida a qualquer preço, até com a sonegação de provas, se necessário. O tribunal tornou-se a arena povoada de gladiadores sangrentos aguardando o polegar para baixo do público para a degola final dos inimigos. E todos eram inimigos, o réu a ser condenado, o colega que ousasse discordar de qualquer posição, o advogado que rebatesse seus argumentos, o jornalista que o criticasse.

capa_preta2Em poucas pessoas vi ódio tão visceral, a raiva como motor de todas as atitudes, um egocentrismo tão exasperado a ponto de tratar qualquer voz dissidente como um inimigo a ser aniquilado.

Certamente em José Serra, que, em todo caso, sempre foi suficientemente esperto para agir através de terceiros.

Joaquim Barbosa nunca usou as armas da hipocrisia, a malícia das jogadas. Como Tyson, saía de peito aberto distribuindo porradas pelo mundo. O que o movia não era a desonestidade, a vontade do poder  A busca da popularidade, sim, mas, acima de tudo, dar vazão ao ódio, sempre o ódio como seiva vital.

E esse bruto – na definição mais ampla do termo –foi transformado em campeão branco da mídia na disputa política. Emocionalmente tosco, embarcou no jogo de lisonjas, do “menino que mudou o Brasil”, foi usado enquanto pode.

Por toda sua vida profissional, exercitou o duplo jogo de quem se formou nas guerras da vida e na formalidade de um poder hierárquico. Enfrentava o mundo jurídico intimidando comportamentos formais com a truculência desmedida das discussões de rua e de botecos; e se impunha junto aos amigos de praia com a condescendência dos que subiram na vida mas não esqueceram as origens.

Acima de tudo, contava com o beneplácito da mídia, enquanto serviu, que lhe proporcionou ser ouvido pelas ruas. Com tal poder, passou a quebrar dogmas, mas da pior forma possível, atropelando direitos, protocolos mínimos de boa educação, sendo agressivo até o limite da boçalidade em um ambiente eminentemente formal.

Restava-lhe o apoio da malta, aquela parcela mais desinformada da sociedade que aplaude linchamentos, defende a lei de Talião, se regozija com qualquer bode expiatório. E, no contraponto, as vaias da selvageria que despertou no lado oposto.

Dos dois lados do balcão, o homem mau só conseguiu trazer à tona os piores sentimentos dos admiradores e dos críticos. Quanto mais se isolava, mais Joaquim Barbosa radicalizava as arbitrariedades.

Ganhou alguma sobrevida graças a mudanças nos procedimentos do STF que impediam impetrar habeas corpus contra decisões do presidente da casa, uma iniciativa do ex-presidente César Peluso supondo que jamais a presidência seria ocupada por uma pessoa desajustada.

As arbitrariedades foram tão ostensivas que um gesto totalmente fora das regras – do advogado de José Genoíno, invadindo uma sessão do STF para questioná-lo – não mereceu uma condenação sequer dos ministros da casa. Pelo contrário, estimulou a defesa de Marco Aurélio de Mello, porque sabendo ser ato de absoluto desespero, de quem via leis e procedimentos jurídicos atropelados pela insanidade de um julgador.

E aí o poderoso, o imbatível Joaquim Barbosa pediu aposentadoria e se afastou da AP 470 procurando se vitimizar, dizendo-se alvo de manifestos políticos e de ameaças do advogado. Saiu no momento em que o STF iria colocar um fim em suas arbitrariedades.

Do Jornal Nacional mereceu uma nota seca, que surpreendentemente terminou com uma frase do advogado que o enfrentou: “Agora, o Supremo poderá voltar a julgar com isenção”. De seus pares, não mereceu nada, nenhuma saudação.

Saindo, passa uma enorme sensação de desperdício. Desperdício em relação ao que poderia ter sido na renovação do STF, na afirmação da diversidade racial, na consagração do esforço individual.

Fica apenas a imagem de um homem mau e sem grandeza, que nem na hora da saída mira a história: seu objetivo único, agora, é  se vingar de um advogado que ousou enfrentar a sua ira.

12 comentários em “O que poderia ter sido grande, mas foi apenas mau

  1. esse cara é meu ídolo.
    um homem que veio do povo e enfrentou a principal máfia que se estabeleceu no país para mandar pra cadeia os corruptos poderosos que assaltaram o patrimônio publico.

    nunca vou esquecer do grande Joaquim Barbosa.

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  2. O mais incrível sobre esta figura foi a forma como a grande mídia tentou transformá-lo em um novo Fernando Collor. Chegaram a pedir que o mesmo fosse presidente. Ele tem seus méritos, mas, como muitos, se perdeu diante da soberba do poder.

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  3. A nota da OAB enquadrando esse torpe jagunço diz bastante a respeito do caráter, ou falta de, desse casca grossa. Nassif bate na ferida do reacionarismo midiático, e dos incautos ou simpatizantes dessa farsa, desnudando a não notícia mais uma vez utilizando o prestativo Barbosa, visando apenas desviar a atenção de fatos como a lista de sonegadores do HSBC, provavelmente por conter nomes globais.

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    1. Pois é, amigo Jorge. O Batman reaparece do nada, para produzir factóides e despertar a ira dos incautos. É apenas mais um lance da velha direita, lançando mão de um sujeito ávido por atenção e mídia. Apesar dos sonhos de grandeza, não funcionará.

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  4. Que moral tem Luiz Nassif membro da combatente falange petista que enche a Rede de Lorotas movidas pelo naco de dinheiro que recebem do Estado. Tentam defender o indefensável à todo custo. Isso chega a ser ridiculo.

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  5. Ok, o pessoal do PT desviou dinheiro e merece ser punido. Ponto. Ele não fez mais do que sua obrigação. Para que tanto endeusamento acerca dessa figura? O que ele mandou para cadeia não foi nem a ponta do Iceberg. Corrupção existe aos montes por ai, seja de PT, PMDB, PSDB e outros partidos. Repito: por que o endeusamento? Por acaso ele prendeu o Maluf, o Jader Barbalho, ou, sei lá, o Aécio Neves e outras tantas figuras? Por mais que não queiram admitir e digam que isso é papo de petista, um coisa é certa: quem aplaudiu Joaquim Barbosa não estava nenhum pouco preocupado que a justiça fosse feita e que criminosos fossem pra cadeia. Queriam apenas que Petistas fossem pra cadeia para provar que o seu “time do coração” (o PSDB) é melhor. E que o maior rival não presta e é corrupto. Simples. Não passa de briga de torcida. Se uma pessoa realmente abomina a corrupção, ela não pode dizer que o PSDB é um exemplo de moralidade. Muito menos vir com esse papo:”Ah, mas ele desviou menos”.HAHAHA. Se tivesse que decidir, entre PT e PSDB, quem desviou menos dinheiro, daria empate de zero.

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  6. Pesa sob a capa do Batman não ter tido a mesma voracidade em mandar prender todos os bandidos de gotham, os outros que todos conhecemos estão soltos, aos fãs deste Batman fica a impressão que aceitam a velha máxima que o crime para alguns compensa.

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