Como assim, um juiz não é Deus?!

Por Wilson Gomes

Sim, tem razão o Meritíssimo Juiz que dirigia sem habilitação e, apanhado numa blitz, considerou que o fato de habitar o Monte Olimpo da Magistratura lhe dispensava do estorvo de portar o documento que é exigido de todos os outros mortais. Como pode uma agente de trânsito, supostamente uma pessoa esclarecida, não saber que, no Estado de Direito, acima de todos está a Norma, mas acima da Norma estão os magistrados? Ao declarar que “juízes não são Deus”, cometeu a criatura o mais cruel dos enganos e só me surpreende e comove que o Magnânimo Magistrado, qual a rainha da história de Alice, não lhe tenha mandado decepar a cabeça. Estaria no seu Direito, sim Senhor.

Sim, o Direito é dos Juízes, sabe disso todo vivente bafejado por algum lume de inteligência. Não bastasse o engano jurídico, cometeu a indigna agente de trânsito o pecado de paganismo. Em que universo, em que mundo, em que Constituição juízes não são Deus? Sim, admito haver variações culturais, sucedendo aos magistrados, em certas cercanias, serem encarnações de Buda ou o próprio Júpiter, o Deus Optimus Maximus, mas em país monoteísta e de tradição judeu-cristã é forçoso admitir que Magistrados são o próprio Iahweh.

Esses enganos precisam cessar, mas, vamos ser práticos, algumas medidas precisam ser tomadas preventivamente. Proponho, antes de tudo, que a Associação de Magistrados do Brasil adite o Deuteronômio, estabelecendo que, doravante, os termos “Iahweh” e “Meritíssimo Juiz” são intercambiáveis quando aplicados aos membros da magistratura. Com isso, Deuteronômio 5,6 pode ganhar uma nova leitura, mais condizente: “Eu sou o Senhor teu Deus, não levantarás o teu bloco de multas diante de mim”. Demais disso, proponho que todo juiz possa se apresentar em qualquer blitz de trânsito nos seguintes termos: “Boa noite, eu sou o juiz Fulano, mas pode me chamar de Omnipotens sempiterne Deus”.

Acho que assim, então, a ordem do universo, violada ignominiosamente pela petulância de um servidora pública fanática pela ideia democrática de igualdade política, retornará ao seu lugar.

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