Para voltarmos ao pré-64 só faltam os militares

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Por Ricardo Kotscho

Está feia a coisa. Para onde olharmos, só vemos problemas, tanto na política como na economia. Podemos resumir a origem destes nossos desafios do momento a apenas dois: o governo, que acaba de ser reeleito, e a oposição, que não se conforma com a derrota. Após passar três belos dias no Fórum das Letras de Ouro Preto, em Minas Gerais, volto à vida real mais preocupado do que quando saí de São Paulo. O que aconteceu, apenas uma semana após a reeleição da presidente Dilma Rousseff?

Há um clima pesado de conspiração, tanto no Congresso Nacional como nas ruas. Sabemos que muitos eleitores votaram em Dilma, menos pelas qualidades da presidente e de seu governo, e mais contra Aécio, para evitar a volta dos tucanos de FHC ao poder. Outros tantos votaram em Aécio contra Dilma, para tirar o PT de Lula do poder. Me arrisco até a dizer que estes eleitores foram a maioria. Talvez esteja aí a raiz das más notícias que assolam o país, mesmo depois de encerrada a guerra eleitoral.

Nas ruas, já se pede abertamente o impeachment da presidente e a volta dos militares – ou seja, prega-se o golpe. No Congresso, com a faca nos dentes, parlamentares derrotados nas urnas formam frente suprapartidária para impor derrotas ao governo, comandada estranhamente por um deputado do principal partido da base aliada, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), já em campanha para ser presidente da Câmara.

“Impeachment Já!”. “SOS Forças Armadas”. “Impugnação ou intervenção militar”. “Fora ladrão do PT. Fora Dilma e Lula”. “Vai para Cuba!”. Em faixas, camisetas e gritos, estas foram as palavras de ordem que mobilizaram cerca de duas mil pessoas no “desfile cívico” do último sábado, na avenida Paulista, apenas seis dias depois do segundo turno e na véspera do dia de Finados.

Não é assustador? Marchas contra a corrupção e o comunismo (outras menores foram promovidas em mais 20 cidades brasileiras no mesmo dia) para pedir o impeachment da presidente recém reeleita: o que falta ainda neste roteiro macabro para voltarmos ao clima de pré-64, o golpe cívico-midiático-militar que derrubou João Goulart e afundou o país na sua mais longa e tenebrosa ditadura? A grande diferença entre o que muitos de nós vivemos há 50 anos, quando a maioria dos manifestantes não havia nascido, e o que está acontecendo agora, é que os militares continuam recolhidos aos seus quarteis, em obsequioso silêncio, dedicados às suas tarefas constitucionais, sem dar ouvidos às vivandeiras udenistas redivivas.

Em compensação, temos agora o inacreditável ministro Gilmar Mendes, indicado por Fernando Henrique Cardoso, uma espécie de líder da oposição no Supremo Tribunal Federal, acenando com os perigos de uma “Corte Bolivariana”, expressão que cunhou (sem trocadilho) para atacar o governo do PT, que poderá ter nomeado 10 dos 11 componentes do tribunal até o final do novo mandato, em 2016.

É tudo tão esquisito que, na ausência de Marina Silva, que sumiu, sua fiel escudeira Neca Setubal, pedagoga e uma das donas do Itaú, assumiu o papel de líder da oposição da terceira via: “E ainda falam no Luiz Carlos Trabuco para ministro da Fazenda!”, queixou-se ela, ao falar do seu principal concorrente, o presidente do Bradesco.

Como já disse no Jornal da Record News, na quarta-feira passada, a derrota imposta ao governo pela Câmara, ao derrubar a proposta de criação dos conselhos populares, pode ter sido apenas a primeira de um movimento muito maior, que vem ganhando corpo no Congresso Nacional, para isolar o PT, e impedir a presidente de governar.

Este mesmo Eduardo Cunha citado acima, um remanescente da tropa de choque de Fernando Collor e principal desafeto de Dilma no primeiro mandato, já convocou para esta terça-feira uma reunião do seu “blocão”, formado, além do PMDB, por parlamentares do PTB, PR, PSC, Solidariedade e de partidos nanicos, que ele ajudou a eleger, para consolidar sua candidatura e acertar os próximos passos com o único objetivo de infernizar a vida do governo neste pouco tempo que resta da atual legislatura.

“Espera só para ver o próximo…”, costumava brincar meu amigo Ulysses Guimarães, o “Sr. Diretas”, principal líder da oposição à ditadura, quando lhe perguntavam se ele não achava o Congresso daquela época o pior que já tivemos. A profecia pode se repetir agora, ao analisarmos o novo Congresso que assume em fevereiro de 2015, com 28 partidos representados na Câmara, o que torna o país simplesmente ingovernável.

Enquanto isso, Dilma se retirava de cena para tirar alguns dias de folga numa praia da Bahia, o que é muito justo, mas deixa o país em suspense e só serve para alimentar o chamado “terceiro turno”, com boatos e ameaças catastrofistas, para alegria das patéticas contrafações de Carlos Lacerda assumidas pelos veteranos da tropa de Blogs & Colunas, e dos jovens aloprados das redes sociais, que não aprenderam nada, na escola nem na vida, sobre o que foi 1964.

“Os brasileiros que viveram o período de 1964 têm o dever de alertar a sociedade para o lugar aonde querem nos levar, e que a triste experiência da ditadura militar não se repita nunca mais”, escreve Celso Gualtieri, de Belo Horizonte, Minas Gerais, em carta publicada nesta segunda-feira no “Painel do Leitor” da Folha. Tem toda razão o leitor. É o que penso também.

Dilma Rousseff não pode alegar que foi reeleita há apenas uma semana para retardar indefinidamente o anúncio de nomes e medidas do novo governo, já que está no poder há quase 12 anos (oito como ministra e quatro como presidente da República). Não tem nada que esperar até a nova posse, em 1º de janeiro, para tranquilizar e devolver confiança e esperança ao país que lhe deu a vitória nas urnas.

Será que Dilma não pensou nisso antes, ou seja, no que deveria fazer imediatamente após a apuração dos votos, já que corria o sério risco de ser reeleita?

3 comentários em “Para voltarmos ao pré-64 só faltam os militares

  1. Dilma já deve ter pensado e repensado, mas, como o próprio Kotscho apresentou, 28 partidos deixam o país simplesmente ingovernável. E o pior de tudo é que o governo tem como principal aliado um partido duas-caras como o PMDB. Nem de longe a aliança PT-PMDB lembra a dobradinha PSDB-PFL, bem afinada. Em termos de governabilidade, FHC teve bem menos contratempos que Lula e Dilma, inclusive com apoio da imprensa amiga, que ajudou a não divulgar a corrupção que se fortalece desde lá… Agora é mais que necessário apoiar a presidente contra esse lacerdismo tardio, entreguista e à parte da população mais carente da ação do estado e da sociedade. Está cada dia mais claro, ninguém gosta de pobre no Brasil, quando o que deveria ser rejeitada é a pobreza.

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  2. Gilmar Mendes, ‘lider da oposição no STF’: um rematado ato falho.
    A propósito, e quem seria o líder da esmagadora maioria governista no Supremo?
    O Kotscho subliminarmente defende uma república federativa de um único partido. E quer que a Dilma apresente logo suas medidas para o próximo governo. Parece que não está satisfeito só com a alta dos juros. Parece que, maquiavelicamente, quer ainda, e logo, a da gasolina, a da energia, das telecomunicações, dos transportes urbanos, das tarifas aéreas, dos planos de saúde etc.
    Depois, bem lentamente, é só liberar uns beneficiozinhos pra massa, os quais são logo transformados em megabenefícios pela mídia chapa branca e correr pro abraço em 2018. Tudo, logicamente, desde que os capitalistas históricos sigam multiplicando seus haveres. Estratégia infalível.

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  3. Oliveira, não se perca na retórica atual da política brasileira, o nós contra eles. O viés da queixa dos ricos brasileiros não é a forma de integrar mais pobres à economia, mas as perdas de rentabilidade dessa minoria, que antes era abominavelmente mantida a expensa da maioria pobre. A distribuição de renda promove naturalmente os ganhos aos ricos que trabalham, que estão no mercado produzindo, gerando empregos e pagando impostos (sic). Volto a dizer, é uma aposta no mercado interno. O que temos é a pequena massa de ricos que investe fora, que consome fora, rentistas insatisfeitos com os riscos de perdas no mercado financeiro, afinal, quando antes os bancos eram financiados pela agiotagem dos juros altos promovida por FHC, a vida destes era muito, mas muito mais fácil. Não se perca na retórica de que o aumento de juros é a repetição de política econômica de Armínio Fraga e Pedro Malan, pois nem de longe se compara a altas da SELIC de 45% a.a. os atuais 11,25% a.a. Medidas contra a inflação são naturais e legítimas de qualquer governo, e as taxas atuais, mesmo altas para o padrão internacional, ainda se mostram necessárias para conter a inflação por aqui. É preciso que os salários continuem subindo para que haja formação de poupança e as pessoas evitem cartão de crédito ou o usem apenas por conveniência de não ter que andar com dinheiro no bolso. Veja bem, o discurso de conter a inflação não pode ser um mero mote para agiotagem, e este não é o caso.

    O discurso de Aécio no senado é algo ridículo, dizendo que ele representa mais de 50 milhões, o que não o põe em condição de igualdade com a presidenta, que recebeu mais votos que ele. Simples assim, omitindo a maioria do discurso, ele nega que esteja interessado no futuro do país, porém confirma a ambição no que estar por vir, a próxima eleição presidencial. Aécio se apequenou ainda mais com esse choro continuado. Uma interpretação desses números não significará necessariamente que os eleitores optaram por Aécio pelo que ele realmente representa (bom lembrar: arrocho, juros altos e concentração de renda, sem contar com engavetamentos e escândalos encobertos), mas a mais simples rejeição do governo de Dilma pelo que o governo vem enfrentando de dificuldades no cenário macroeconômico interno e externo, e também indica uma polarização de informação, com apoio da mídia propagando que o que dá certo é PSDB, e o que dá errado, PT. A campanha para 2018 já começou com esse neolacerdismo mineiro.

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