Sobre a ética tucana

Por Antonio José Soares (*)

Depois de apresentar um video mostrando o senador Jader Barbalho sendo conduzido algemado pela Polícia Federal, e afirmar que Helder Barbalho, filho do senador com a deputada Elcione Barbalho, seria uma ameaça aos cofres públicos do Pará, se confirmar sua eleição a governador no próximo dia 26, a campanha do governador Simão Jatene, que disputa a reeleição e também é acusado de enriquecimento às custas do erário, coloca no ar uma passagem do próprio Jatene dizendo que “vamos continuar com ética, sem baixaria” etc e tal.

Ética? Que ética? Os publicitários responsáveis pela campanha do governador precisam ler pelo menos Aristoteles antes de lança-lo numa situação anti-ética. E não estou aqui dizendo que Jader é inocente ou culpado. O mesmo vale para Jatene. O que digo é que em máteria de ética, não há o que se discutir. Para Aristóteles, o objetivo da ética é a felicidade. A felicidade, para ele, é a vida boa; e esta corresponderia à vida digna. Nessa direção, haveria uma subordinação da ética à política.

Como diz Carlos Boto, refletir sobre a concepção ética de Aristóteles requer alguma investigação sobre seu modo de conceber a política. Para nós, sujeitos do Brasil, dessa inflexão entre o século XX e XXI, ética e política são dois termos quase contraditórios. Daí decorre alguma dificuldade para se pensar uma possibilidade ética que, por ser projetada em relação à esfera social e, portanto, à esfera pública, constitui um alicerce para apreender a cosmovisão do autor. Em ambos o caso – ética e política – tratava-se de postular a obtenção da virtude. Compreendendo o homem como um animal político, para os gregos, a idéia de política – “quer radique na natureza quer nas convenções – prende-se à acepção de liberdade, de ausência de um senhor”.

Como destaca Victoria Camps, o protótipo do virtuoso em Aristóteles seria um suposto ser ativo; ou seja, “a ação que leva a cabo inclui uma dose de contemplação e de teoria, mas não é contemplação pura, a qual seria privativa dos deuses e não de humanos para quem a ação é inevitável” Por política compreendia-se, pois, a forma de vida que melhor corresponde à condição humana, embora, paradoxalmente, a atividade superior resida no campo da teoria pura: “o sujeito da virtude é o homem público, posto que a vida privada carece de interesse: é idion, idiota. Os homens são, sobretudo, cidadãos; encerrados em si próprios, não viveriam uma vida racional nem humana” .

(*) Antonio José é jornalista.

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