O velho Dunga de sempre

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Por Cosme Rímoli

Seleção fez sua terceira partida pós Mundial. Sem tomar um gol sequer. Feito considerável para o time anfitrião mais vazado da história. Na Copa que acabou em julho, Júlio César foi vazado 14 vezes. Depois de deixar pelo caminho os colombianos e equatorianos, a renovada equipe venceu na China a vice campeã mundial Argentina. Diego Tardelli marcou dois gols. Jefferson defendeu pênalti cobrado por Messi. O capitão Neymar tomou todos os pontapés possíveis e mesmo assim encarava os irritados zagueiros rivais.

O esquema tático foi ajustado. O time passou a marcar muito mais forte. O hino nacional deixou de ser demonstração de desequilíbrio mental. Só havia ótimos motivos para ganhar as manchetes do planeta.

Mas o gênio de Dunga não permitiu. O responsável pelo único time cinco vezes campeão do mundo não se conteve. A partida já estava nos seus minutos finais. O Brasil vencia por 2 a 0, a vitória garantida. Depois de uma entrada dura em Willian, na sua frente, ele começou a xingar, criticar os zagueiros argentinos. O massagista argentino Marcelo D’Andrea tomou as dores e passou a falar palavrões ao técnico brasileiro.

Mas não as coisas não podem ser assim. Não para quem tem a responsabilidade de ser o treinador da Seleção Brasileira. Dunga já teve o seu momento de descontrole em plena Copa do Mundo da África. Ele já havia barrado não só a TV Globo da concentração brasileira. Mas toda a imprensa nacional deixara de ter contato com os jogadores. Não havia espaço para entrevistas exclusivas.

O responsável pelo futebol da Globo, Marcelo Campos Pinto, se reuniu com o então presidente da CBF, Ricardo Teixeira. Exigiu que o acesso fosse liberado para a emissora, parceira comercial da CBF. Teixeira bem que tentou. Mas Dunga se recusou. E até ameaçou deixar o cargo em pleno Mundial. O que seria um caos, já que o Brasil até então fazia ótima campanha. “Não tem o que fazer. Mas quando a Copa acabar, ele está fora. Ganhando ou não”, prometeu Teixeira a Marcelo.

Só que o treinador sabia muito bem o que estava acontecendo. E anteviu sua saída. E tratou de demostrar que não tinha mesmo medo da Globo. Seu time havia vencido a Costa do Marfim por 3 a 1 em Johanesburgo. Ele estava em plena coletiva para jornalistas do mundo todo. Quando viu o apresentador global Alex Escobar no telefone. Explicava para o apresentador Tadeu Schmidt que o treinador não havia liberado Luís Fabiano para exclusiva na Globo. Durante uma resposta do técnico, ele balançou a cabeça. O jornalista jura que foi para o que leu no teclado de seu celular. Aqui, rara e descontraída versão de Alex em uma palestra na UERJ.

Dunga foi ainda mais duro nas palavras. Foi quando o auxiliar técnico de Gerardo Martino, Jorge Pautasso entrou na confusão. “Puto, puto, puto”, repetia o brasileiro. O jogo já nem mais importava para Dunga. Ele passou a esfregar o nariz e gritar. “Tu é igualzinho. Tu é igualzinho. Tu é igualzinho. Tu é igualzinho. Tu é igualzinho.” Sim, foram cinco vezes que as câmeras o flagraram gritando, descontrolado.

O jornal argentino Olé tentou ironizar. Resumiu a situação com uma foto de Dunga e o título ‘nariz de palhaço’. Só que o treinador brasileiro não conhece Piñon Fijo, o palhaço mais famoso do país rival. Infelizmente, na hora da raiva, a ofensa foi a pior possível. Ficou claro para os jornalistas esportivos do mundo todo, que o brasileiro fazia referência a Maradona e seu triste problema com a cocaína.

Pautasso ficou revoltado no vestiário argentino. Foi contido por Martino, que exigiu calma. Evitasse prolongar a briga. Assim como Marcelo D’Andrea foi instruído a se calar. Não esticar o incidente. Mais calmo no vestiário, Dunga poupou o treinador argentino e mesmo o seu auxiliar. Descontou sua raiva no massagista. Estava claro que desejava que todos esquecessem o incidente.

Eu estava na entrevista e, até hoje, não acredito no que presenciei. O treinador do Brasil perguntou provocativo a Alex. “Algum problema?” “Nem estou olhando para você, Dunga”, argumentou o jornalista. Enquanto as respostas de Dunga eram traduzidas para o inglês, ele passou a xingar Alex. “Seu merda, burro, cagão.” O incidente provocou editoral no Fantástico e várias trocas de telefonemas entre Marcelo Campos Pinto e Ricardo Teixeira. O presidente da CBF respondia. “Eu não posso fazer nada. Nada. Agora, não.”

O clima na Seleção ficou insuportável. O técnico sabia que não continuaria nem se fosse hexacampeão. Os jogadores se mostravam constrangidos, tensos. O auxiliar de Dunga, Jorginho, passou a confrontar jornalistas. A Seleção começou a entrar em campo ainda mais pressionada. Todos sabiam que havia a obrigação de ser campeões do mundo. Ou seriam massacrados pelos jornalistas. Essa era a mensagem da Comissão Técnica. Não foi por acaso que os atletas se desesperaram quando tomaram o empate contra os holandeses nas quartas de final. Com a virada, então, acabou qualquer raciocínio lógico, estratégia.

Essa pressão toda levou Felipe Melo a pisar com ódio em Robben. Os holandeses ousavam estar ganhando a partida. O Brasil não tinha o menor controle emocional, como seu treinador e seu auxiliar. Júlio César chorou como um bebê com fome após a eliminação porque imaginou que seria crucificado para sempre, um novo Barbosa. Mal sabia que ainda haveria o 7 a 1 da Alemanha.

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O que aconteceu na África e ontem na China está relacionado. Dunga não tem o direito de sabotar o ambiente da Seleção Brasileira novamente. Ele já mostrou toda a sua surpresa ao ter essa nova chance. Acreditou que seria nome maldito na CBF até o final dos seus dias pelo que fez com a Globo. Mas Gilmar Rinaldi havia garantido a José Maria Marin e Marco Polo del Nero. Controlaria o gênio de Dunga. Toda a sua vibração ficaria para o campo. Incendiando os jogadores. Colocando toda a sua energia na busca do resgate do futebol brasileiro.

Bastaram três jogos e novo vexame ganha o noticiário internacional. Desvia o foco da maior vitória brasileira desde a conquista da Copa das Confederações, quando acabou com a invencibilidade da Espanha. O episódio trouxe desconforto desnecessário ao grupo. Vários jogadores ainda estão traumatizados pelo vexame do Mundial. Precisam de incentivo, confiança, paz de espírito. Não descontrole emocional.

Marin e Marco Polo del Nero precisam ter responsabilidade. Cobrar o técnico da Seleção. Não há cabimento um massagista tirar a sua concentração de um jogo do Brasil. Dunga foi capitão e teve a honra de levantar a Copa em 1994. Tem de se dar ao respeito. Saber da envergadura moral que o seu cargo exige. É inacreditável ficar esfregando o nariz e dar margem à interpretação de estar chamando um adversário de usuário de cocaína. Durante um Brasil e Argentina sem se importar com as câmeras.

A CBF tenta amenizar o episódio. Mas ele não pode ser esquecido. O medo é o que pode estar por vir. Dunga já mostrou que percebeu a melhor maneira da atual geração brasileira jogar: com muita marcação, vibração e contragolpes.

Agora precisa descobrir controlar seu gênio, sua raiva. Ela é incompatível com o cargo que ocupa. Ou se conscientiza ou Marin e Marco Polo que pensem em outra alternativa. O Brasil não pode outra vez ir para uma Copa do Mundo com um treinador prestes a explodir à menor provocação. Muito menos envenenar os jogadores com seu rancor incontrolável… 

2 comentários em “O velho Dunga de sempre

  1. Ao contrário, penso que a reação do Dunga acabou surpreendendo pelo inéditismo furioso contra a provocação argentina. Ninguém quer um treinador com pinta de praticante de MMA, no entanto, não dá pra encarar a catimba dos portenhos com coubertainismo e franciscanismo, são recorrentes os casos de acovardamento de times brasileiros diante dos rompantes dos hermanos em campo, nas competições continentais
    Que o episódio morra por aí e que o Brasil reaja sempre à altura, afinal, não pode haver estrago maior do que aceitar bovinamente a água servida por Maradona.

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