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Da revista Placar

A história dos jogadores ignorados por treinadores antes da Copa do Mundo nem sempre tem o mesmo contexto. Na maior parte das vezes, foi por birra mesmo: caso de Leão, em 1982, e dos recentes Neymar e Ganso, em 2010. Mas há também histórias curiosas, como a briga São Paulo x Rio em 1930 e o dinheiro exigido por Domingos da Guia em 1934. A única participação brasileira em Mundiais que não teve polêmicas foi a de 1938. Mesmo assim, foi por pouco: o técnico Ademar Pimenta flagrou várias vezes os titulares Tim e Patesko entornando chope no navio que levava a delegação do Brasil para a Copa da França.

1930
Feitiço (Santos)
Friedenreich (São Paulo da Floresta)
Foram os maiores injustiçados da briga entre as federações do Rio e de São Paulo. Os paulistas resolveram não mandar representantes para a Copa do Uruguai.

1934
Domingos da Guia (Nacional do Uruguai)
A CBD recusou-se a adotar o profissionalismo e chamou apenas jogadores “amadores” – ainda que pagasse seis contos de réis para cada convocado. Domingos pediu 45 contos de réis (equivalente a dez automóveis de luxo da época) e teve a convocação recusada.

1938
Nenhum
Não era a vontade do técnico Ademar Pimenta: para ele, os titulares Tim e Patesko deveriam ser cortados ainda no navio que levava a seleção para a França por bebedeiras na viagem.

1950
Mauro (São Paulo)
Flávio Costa dispensou aquele que seria o capitão do bi por ser ter “decepcionado inteiramente nos treinamentos”, segundo a revista Esporte Ilustrado.

1954
Zizinho (Bangu) e Ipojucan (Vasco)
Ambos brigaram com o técnico Aimoré Moreira, irmão de Zezé Moreira, que conduziria a seleção na Copa de 1954. Zizinho simulou contusão. O escritor José Lins do Rêgo, nacionalista ferrenho, recusou-se a partir de então a citar do craque em suas crônicas.

1958
Julinho Botelho (Fiorentina)
Por uma questão simples: Julinho não jogava em clubes brasileiros. E achou justo que a seleção fosse composta apenas pelos que atuavam por aqui.

1962
Aírton (Grêmio)
Diz a lenda que o gremista não foi convocado porque ousou dar um drible em Pelé.

1966
Carlos Alberto Torres (Santos)
Era nome certo na Copa, como Djalma Dias e Roberto Dias. A justificativa foi o “excesso de contingência” e a preferência pelos veteranos de 1958 e 1962.

1970
Dirceu Lopes (Cruzeiro, foto)
Era um dos grandes craques do país na virada dos 60 para os 70 e titular de João Saldanha. Mas foi preterido pelo botafoguense Rogério.

1974
Dirceu Lopes (Cruzeiro)
O mais injustiçado das Copas: havia sido o melhor jogador dos Brasileiros de 1971 e 1972. Mesmo assim, Zagallo o colocou em uma “lista de espera” e jamais foi chamado.

1978
Falcão (Internacional)
O maior craque brasileiro em atividade naquele ano ficou de fora da convocação de Claudio Coutinho. Ele preferiu o viril Chicão, fundamental no arranca-rabo contra a Argentina.

1982
Leão (Grêmio)
Leão era o melhor goleiro em atividade no país e adversário declarado de Telê Santana. Foi preterido por outros três arqueiros em grande fase: Valdir Peres, Paulo Sérgio e Carlos.

1986
Leandro (Flamengo)
Não foi exatamente ignorado: ele desistiu de viajar quando era esperado no aeroporto do Galeão, no Rio. Pesou o corte de Renato Gaúcho, que o havia ajudado a pular o muro da concentração em Belo Horizonte depois de uma bebedeira.

1990
Neto (Corinthians)
Foi um pedido da imprensa paulista. Havia feito um bom Campeonato Paulista de 1990, mas não o suficiente para convencer o técnico Sebastião Lazzaroni de que deveria levá-lo.

1994
Rivaldo (Corinthians)
Não foi necessariamente uma injustiça. Rivaldo havia estreado bem na seleção, mas foi traído por uma negociação malfeita entre Corinthians e Mogi Mirim, que o deixou fora dos gramados nos primeiros meses do ano. Sem ritmo, não agradou Parreira e foi cortado.

1998
Raí (São Paulo)
Raí havia jogado muito na temporada anterior no PSG. Voltou para o São Paulo arrasador e foi o responsável pela vitória por 3 x 1 na final do Paulista contra o Corinthians. Mas o clima bélico do Maracanã, no amistoso contra a Argentina, contribuiu para Zagallo não chamá-lo.

2002
Romário (Fluminense)
Ele chorou depois de pedir a convocação. Felipão deu de ombros. O atacante não seria mais chamado desde que pediu dispensa para uma cirurgia na pálpebra, mas viajou com o Vasco para o México. Não fez falta: a seleção foi pentacampeã sem ele.

2006
Alex (Fenerbahçe)
Em grande fase na Turquia, não foi nem sequer lembrado pelo técnico Carlos Alberto Parreira. A justificativa foi o excesso de bons meias: Kaká, Juninho Pernambucano e Zé Roberto.

2010
Ronaldinho Gaúcho (Milan), Neymar e Ganso (Santos) e Adriano (Flamengo)
Certamente a mais polêmica das convocações pré-Copa. Ronaldinho Gaúcho nunca obteve a confiança de Dunga. Adriano perdeu a chance na reta final, por mau comportamento – foi preterido por Grafite. E Neymar e Ganso nem sequer foram testados.

2014
Miranda (Atlético de Madri)
Impecável no Atlético de Madri e um dos grandes responsáveis por deixar o clube espanhol como detentor da defesa menos vazada da liga local. Nem isso foi suficiente para Miranda ‘seduzir’ Felipão. Para a quarta vaga de zagueiro, o técnico preferiu Henrique, seu jogador nos tempos de Palmeiras. Assim, Miranda falha no seu segundo ciclo para a Copa – esteve nas prévias com Dunga, em entre 2008 e 2009.

3 responses to “Birra, dinheiro, política: os “injustiçados” das Copas”

  1. Avatar de Édson do Amaral. Torcedor do Paysandu.
    Édson do Amaral. Torcedor do Paysandu.

    Como não posso falar muito do passado.

    Acho que o Neto naquela seleção do Lazaroni, a pior de todas, foi uma grande injustiça, assim como a do Alex em 2006.

    Agora o Dunga foi um caos total.

    Esse ano pra mim a maior surpresa foi a chamada do Maicon, mas como ele pode ajudar com experiência e ainda joga um bom futebol, tá bom, gostei da convocação.

  2. Avatar de Antonio Oliveira
    Antonio Oliveira

    Até 70, minha percepção da Seleção era zero.

    Em 74, quando comecei a me dar conta de alguma coisa, registro dois fatos que pra mim também denotam injustiça.

    Um deles, foi o Edu, do Santos, não ter tido muita chance no time titular.

    E o mais importante, foi o Pelé ter declinado da convocação. Neste caso foi uma injustiça do jogador com a Seleção.

    Sobre 78, acho que a injustiça apontada é procedente.

    Quanto a 82, injustiça mesmo foi a condição de titular do Waldir Peres. Tanto o Carlos, quanto o Paulo Sérgio, para mim eram mais confiáveis. Outra injustiça foi cometida contra o Toninho Cerezo, acusado de ter amarelado depois de ter dado um passe temerário, do qual sugiu o primeiro gol da Itália naquele fatídico jogo. E outra contra o Serginho Chulapa, acusado de ser o jogador destoante da Constelação, e por isso, também responsabilizado por supostamente prejudicar jogadores como Zico, o queridinho da mídia, na época.

    Em 86, a injustiça foi a desconvocação do Renato. Quanto ao Leandro, me pareceu que foi opção dele próprio. Foi uma perda, mas não foi uma injustiça.

    Quanto a 90, prá mim, o grande injustiçado foi o Dunga. Ali a mídia colou nele a pecha do fracasso, menos pela derrota do Brasil, mais pela associação que foi feita entre ele e o execrado Collor, que foi quem cunhou o termo “era Dunga”. Bom que o atleta conseguiu, com sobras, reverter o quadro, na copa seguinte.

    Já em 94, a grande injustiça foi praticada contra a própria Seleção, depois que esta ganhou o título depois de mais de 20 anos, a qual até hoje é tida como culpada de ser uma equipe que venceu com um futebol feio, mesmo tendo na equipe dois cracaços que exibiram um futebol de alta categoria na Copa, Bebeto e Romário. Isso sem contar outros, de menor prestígio, mas de grande futebol, principalmente em jogos do Mundial.

    Em 98, o grande injustiçado foi o Zagalo. Foi considerado culpado pela derrota na decisão com a França, por ter escalado o Ronaldo, após aquele incidente da convulsão, o qual até hoje não foi muito bem explicado.

    Em 2002, a injustiça foi contra o Romário. Estava muitíssimo bem. E se o time foi campeão, a injustiça não resta neutralizada, já que lhe foi tirada a oportunidade de acrescentar mais um título mundial no seu currículo.

    Em 2006, não considero que tenha sido cometida uma injustiça contra o Alex. Este é um craque, mas integra aquele grupo de jogadores que só se dão bem nos clubes. Teve inúmeras chances na Seleção e nunca exibiu um futebol confiável.

    Em 2010, o injustiçado foi mais uma vez o Dunga. As diferenças da mídia com ele, especialmente da Rede Globo, acabaram extrapolando das medidas e ele acabou injustamente execrado.

    Em 2014, as injustiças referidas no post me parecem de bom tamanho.

    Com as escusas pelo ligeiro desvio na linha adotada na postagem, este é o meu entendimento a respeito das injustiças na Copa no âmbito da Seleção Brasileira.

  3. Avatar de Jorge Paz Amorim
    Jorge Paz Amorim

    Muito oportunas as observações até aqui feitas. Acho muito justo que se diga que pior do que a não convocação do Leão, um monstro em 74 e 78, foi a titularidade do Valdir Peres. Jogador que ri em partidas de uma competição dessa envergadura é porque quer disfarçar a tremedeira e o goleiro sampaulino tremeu escandalosamente.
    Mas eu ainda acho que a grande injustiça de 1982 foi a preterição de Adílio pela opção por Paulo Isidoro. Ali o Brasil perdeu muito do mítico futebol arte cantado em prosa e verso e que ficou apenas nos lampejos contra a forte marcação italiana. Adílio era quase do mesmo nível do Zico e um quadrado com Toninho Cerezzo, Falcão, Adílio e Zico seria algo pra desmontar essa marcação, facilitada porque quando o Enzo Bearzot colou o Gentile no Zico ninguém chamou pra si aresponsabilidade da jogada individual. A única vez que isso ocorreu foi quando o Cerezzo passou levando dois marcadores e o Falcão cortou pro meio e fez um golaço de pé esquerdo, o segundo do Brasil.
    Citaria ainda a titularidade do Elzo em 1986, e o Alemão era infinitamente melhor do que ele. E por falar em titularidade, voltando a 1982, o Edinho era muito mais zagueiro que o Luizinho.

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