Na redação da Campos Sales

Por Elias Ribeiro Pinto – no DIÁRIO

1 Pode ser encontrada, nas boas casas do ramo, uma simpática e compacta edição (pela Cosac Naify) que reúne, em dois volumes, uma seleção de crônicas (que abordam temas de música popular, jornalismo e literatura) escritas por Ruy Castro e originalmente publicadas na coluna que ele assina quatro vezes por semana no jornal Folha de S.Paulo (reproduzidas aqui no DIÁRIO).
2 Numa dessas crônicas, Ruy fala de um tempo em que não havia, nos jornais, crachá, catraca eletrônica e nem recepcionista perguntando com quem quer falar. “Quem passasse pela porta do jornal, era entrar e subir. Donde as redações viviam cheias de gente que não se sabia direito o que faziam – leitores, vendedores de bilhete de loteria, bicheiros, punguistas e anônimos em geral.” O danado dessa visitação contumaz é que essa gente cismava de aparecer “sempre no pior horário – entre cinco e sete da tarde”, quando o jornal fervilha, com as reportagens sendo escritas e paginadas.
3 O texto do Ruy Castro me fez lembrar – e já assuntei sobre o tema – da portaria e subsequente escadaria que levava à redação da velha A Província do Pará, na Campos Sales. Até pouco tempo atrás, os jornais de Belém mantinham suas sedes no antigo centro comercial da cidade, para onde todos convergiam e cruzavam caminho: empregadores, empregados, fregueses e desocupados. A regra que serve para os cachorros, de entrar na igreja por encontrar a porta aberta, parecia também servir a essa espécie de frequentadores, os, digamos, sem-redação.
4 Eles eram choferes de táxi, ex-policiais (os encostados), bebuns doces & indóceis, tipos populares, aposentados e até mesmo batedores de carteira e ex-colunistas, que perderam o espaço mas não o costume de frequentar as redações.
5 Na Província, por exemplo, muitos tinham passagem livre entre os arremedos de porteiros, eram da casa, a ponto de manter uma assiduidade de quem fazia parte da folha de pagamento. Entravam, iam direto à garrafa térmica do cafezinho, serviam-se, sentavam como se estivessem na sala de suas casas e, com a desenvoltura de veteranos do ofício, comentavam a notícia do dia, para desespero, às vezes, do pobre do repórter, já pela hora da morte, ou seja, do fechamento de sua reportagem.
6 Lembro, entre os tipos populares, da professora Graziela, a Arara, que transmitiu à filha, Ararinha, o hábito de fazer poleiro das redações. E eu era, à revelia, o interlocutor preferido de outro visitante empedernido. Condenado pelo nome, minha penitência era ouvir, todo santo dia, uma exegese a respeito de meu xará bíblico. A homilia sempre terminava comigo, digo, com o profeta Elias elevado aos céus num redemoinho, numa carruagem com cavalos de fogo.
7 Não lembro do nome desse meu impertinente interlocutor de todos os dias. Trazia sempre, atravessada ao peito, uma bolsa. A mudança dos jornais para longe do centro contribuiu para a extinção dessa espécie nelsonrodrigueana, além do que o nosso personagem enfrentaria, hoje, portarias mais rigorosas no controle de entrada. Cá entre nós, ainda bem – e para o bem dos que atualmente mourejam na redação.

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