Por Gerson Nogueira
Que o rebaixamento do Paissandu não aconteceu sábado é de conhecimento até do torcedor mais distraído. A queda se desenhou ainda no começo do campeonato, quando a diretoria optou por prestigiar Lecheva, que havia obtido o acesso à Série B, mas esperou apenas três rodadas para substituí-lo sumariamente. Troca tão rápida indica que não havia interesse em tê-lo como técnico para toda a competição – e, sendo assim, não deveria nem ter iniciado o trabalho. Pior ainda foi a opção encontrada para a função. A ideia de “homenagear” Givanildo Oliveira, um técnico em vias de aposentadoria, foi mais infeliz do que iniciar o torneio com Lecheva.
No mesmo período, o clube trouxe um gerente remunerado, com boa experiência em equipes da Primeira Divisão. Oscar Yamato, porém, não teve suas recomendações atendidas. Sugeriu uma lista de jogadores a serem contratados, mas raramente foi levado em conta. Se era para ignorar por que contrataram gerente?
Por decisões colegiadas ou não, o clube começou a trazer jogadores indicados por empresários. Alguns aproveitáveis, mas a maioria sem as qualificações que a Série B exigia – e o desenrolar da competição iria demonstrar. E os reforços considerados prioritários (e boas apostas), como Fábio Sanches e Marcelo Nicácio, não renderam o esperado.
Depois do previsível fracasso de Givanildo, o clube foi buscar Arturzinho, que produziu uma ligeira injeção de ânimo, mas se incompatibilizou com as estrelas do elenco – Vânderson, Nicácio e Iarley. Além do sistema de jogo confuso que o time mostrava, o técnico passou a ser boicotado porque exigia mais treinos e responsabilidade. Caiu mais por seus méritos do que pelos defeitos.
Foi Arturzinho o autor da frase emblemática, jamais desfeita, sobre o futuro do Papão na Série B: “Nem Guardiola teria sucesso com esse time”. Apesar da irritação que marca o comentário, o técnico estava certo, pois o maior problema sempre esteve no elenco, mal selecionado e inchado artificialmente.
Com uma folha salarial que termina a competição beirando R$ 800 mil, o Paissandu em nenhum momento exibiu um time confiável, capaz de se mostrar regular entre duas rodadas seguidas. Quando não ocorriam falhas de zagueiros como Bispo e Leonardo, o ataque desperdiçava as oportunidades criadas, devido à imperícia de Nicácio ou Dênis.
Depois de Arturzinho, o Paissandu trouxe Vagner Benazzi, ainda em tempo de evitar a queda. Famoso pelos acessos e salvações de times no interior de S. Paulo, Benazzi custou caro – trouxe dois auxiliares e preparador de goleiros – e disse logo que não podia operar milagres. Repetiu isso como mantra até a penúltima rodada.
Não podia fazer milagre, mas não foi capaz de mudar questões práticas. Com ele, o Paissandu ficou ainda mais retrancado e cauteloso, justamente quando mais necessitava vencer. O empate com o Oeste, fatal para as pretensões de reação final do Papão, deveu-se muito a esse conceito defensivista. A derrota para o Braga, anteontem, também.
Portanto, mais do lamentar a atuação desastrosa diante dos paulistas, agravada pelas péssimas condições do gramado do Mangueirão, é preciso olhar para o histórico do time no campeonato. Com comportamento tão caótico ao longo das rodadas, o Papão não podia esperar melhor sorte. O rebaixamento, embora cruel e doloroso, é inteiramente merecido. O clube fez o possível e o impossível para consegui-lo.
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Além da queda, o coice
Além das perdas financeiras com os gastos feitos a rodo nesta temporada, a ausência dos patrocínios oficiais na Série C e a falta de visibilidade da Terceirona, o Papão tem que ir contabilizando desde já os prejuízos de seis jogos fora de Belém ao longo da primeira fase do torneio. A condenação do STJD aos incidentes ocorridos na Curuzu no jogo contra o Avaí não cumprida este ano por força de manobras de bastidores. Mas, em 2014, seu preço será pago de forma implacável, com efeitos previsíveis na campanha do time.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta segunda-feira, 25)
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