Por Luis Nassif

luis_nassif-1Não se iludam com Celso de Mello.

Suas atitudes mais prováveis serão:

1. Votar pela aceitação dos embargos de infringência.

2. No segundo julgamento, ser o mais severo dos julgadores, fortalecido pelo voto anterior.

A aceitação dos embargos será uma vitória de Pirro. O resultado mais provável da AP 470 será um segundo julgamento rápido, em torno da tipificação do crime de formação de quadrilha. Poderá resultar em condenações um pouco menores, mas não o suficiente para livrar os condenados da prisão.

Com isso, se dará um mínimo de legitimidade às condenações. Celso de Mello é um garantista circunstancial, apenas a última tentativa de legitimar um poder que perdeu o rumo.

A deslegitimação do STF

Para entender melhor o jogo.

No primeiro julgamento, devido à atuação do grupo dos 5 – Gilmar Mendes, Luiz Fux, Ayres Britto, Joaquim Barbosa e o próprio Celso – o STF foi alvo de críticas generalizadas – embora veladas – do meio jurídico. Não há jurista ou advogado, estudante ou doutorado sério deste país que não tenha entendido o julgamento como o exercício abusivo do poder discricionário e da militância partidária.

Apenas uma coisa diferencia Celso de Mello de seus pares.

Este tentou preservar o mínimo apreço pela liturgia do cargo. Os demais perderam o pudor, exercem a politicagem mais malandra, típica das assembleias político-estudantis – como adiar o julgamento para permitir pressão da mídia sobre o voto de desempate de Celso – sem nenhuma estratégia de imagem. Querem exercer o poder plena e abusivamente. Não pensam na história, nem sequer na legitimação das sentenças, mas nos frutos imediatos de sua atuação.

Lembram – em muito – os burgueses da revolução industrial, os texanos barões de petróleo invadindo a Europa, pisando no Louvre de botas, agindo sem nenhum apreço pela liturgia do cargo.

Mal comparando, Celso é o juiz de faroeste que ouve todos os réus, trata civilizada, mas severamente, as partes e, cumprindo os rituais, manda todos para a forca, erguida em praça pública, com carrasco oficial seguindo o cerimonial. Os demais se assemelham ao juiz de barriga de fora, em um saloon improvisado de sala de julgamento, que interrompe o julgamento no meio, para não perder tempo, e manda enforcar os acusados na árvore mesmo.

São tão truculentos e primários que seguem a truculência primária da mídia, não cedendo em nenhum ponto, pretendendo o aniquilamento total a vitória completa, o extermínio, a vitória em todos os quadrantes, mesmo nas questões menos decisivas.

Se tivessem um mínimo de esperteza, aceitariam os embargos, atrasariam por algumas semanas o final do julgamento, e profeririam as mesmas sentenças duras mas, agora, legitimadas pela aceitação dos embargos. Mas são muito primários e arrogantes para pensar nesses desdobramentos.

A deslegitimação do padrão Murdoch

Essa é a perna mais fraca da estratégia de Rupert Murdoch e de sua repetição pelo Truste da Mídia (e pelo cinco do STF), quando decidiram conquistar o espaço político para enfrentar os verdadeiros inimigos – redes sociais – que surgiram no mercado.

A estratégia demandava insuflar a classe média, ainda seguidora da mídia, com os mesmos recursos que marcaram grandes e tristes momentos da história, como o macarthismo, o nazi-fascismo europeu dos anos 20 e 30, a Klu Klux Klan nos anos 60.

Essa estratégia exige uma linguagem virulenta, que bata no intestino do público, e pregadores alucinados, que espalhem o ódio. Qualquer espécie de juízo – isto é, da capacidade de separar vícios e virtudes – compromete a estratégia, porque ela se funda na dramaturgia, no maniqueísmo mais primário, na personificação do mal, na luta de extermínio.

Não há espaço para nenhuma forma de grandeza, para respeito ao adversário caído, para pequenas pausas de dignidade que permitissem legitimar minimamente o morticínio e dar um mínimo de conforto aos seguidores de melhor nível.

Por isso mesmo, nenhuma personalidade de peso ousou aderir a esse novo mercado que se abria. E ele passou a ser ocupado pelos aventureiros catárticos, despejando impropérios, arrotando poder, mostrando os músculos, ameaçando com o fogo do inferno, todos vergando o mesmo figurino de um Joseph McCarthy e outros personagens que foram jogados no lixo da história.

Guardadas as devidas proporções, foi essa divisão que se viu no Supremo.

A recuperação dos rituais

O universo jurídico ainda é o mais conservador do país, o mais refratário às mudanças políticas e sociais, aos novos atores que surgem na cena pública. Certamente apoiaria maciçamente a condenação dos réus.

Mas o que viam no julgamento?

Do lado dos acusadores, Ministros sem nenhum apreço pela Justiça e pelos rituais, exercitando a agressividade mais tosca (Gilmar), o autoritarismo e deslumbramento mais provinciano (Joaquim), a malandragem mais ostensiva (Fux), a mediocridade .

Do lado contrário, a dignidade de Ricardo Lewandowski, um seguidor das tradições das Arcadas, exercendo o papel que todo juiz admira, mas poucos se arriscam a seguir: o julgador solitário, enfrentando o mundo, se for o caso, em defesa de suas convicções.

Aí se deu o nó.

Por mais que desejassem a condenação dos “mensaleiros”, para a maior parte dos operadores de direito houve enorme desconforto de se ver na companhia de um Joaquim, um Gilmar, um Ayres de Brito e do lado oposto de Lewandowski.

Pelo menos no meio jurídico paulista, ocorreu o que não se imaginava: assim como os petistas são “outsiders” do universo político, os quatro do Supremo tornaram-se “outsiders” do universo jurídico. E Lewandowski, achincalhado nas ruas, virou – com justiça – alvo da admiração jurídica. Além de ser um autêntico filho das Arcadas.

É aí que surge Celso de Mello para devolver os rituais, remontar os cacos da dignidade perdida da corte, promover a degola dos condenados mas sem atropelar os rituais, Ele não é melhor que seus companheiros. Apenas sabe usar adequadamente os talheres, no grande festim que levará os condenados à forca.

14 responses to “Celso de Mello ou a última tentativa de legitimar o enforcamento”

  1. Avatar de Carlos S Lira
    Carlos S Lira

    Eu até gostava do Nassif antes de ele virar petista roxo. Agora jogou fora toda a sua credibilidade. Só aguenta ler seus artigos o cara que comunga da sua ideologia distorcida. Virou um bufão, cínico defensor de criminosos. É pena que a forca citada por ele no artigo seja apenas simbólica. Devia ser verdadeira.

    1. Avatar de blogdogersonnogueira
      blogdogersonnogueira

      Essa fúria destruidora em relação aos que pensam diferente é que caracteriza a direita brasileira, Carlos. Incrível como nessas horas o tal país cordato e pacífico desaparece do mapa.

  2. Avatar de Antonio Oliveira
    Antonio Oliveira

    Agora o articulista patrocinado chegou ao cúmulo. Quer dizer que o escore empatado em 5 a 5 mostra a resistência dos 5 que prestam, aos 5 que não prestam? Quer dizer só a mídia dita conservadora está fazendo pressão?

    O articulista tá realmente encegueirado pelo patrocínio.

    Mas, uma coisa é certa, a associação com o velho oeste foi ótima. Interessante que havendo muito mais a explorar nestes filmes ele muito convenientemente limitou a linguagem figurada ao caso dos juízes e da forca.

  3. Avatar de Pedro Paulo
    Pedro Paulo

    O L.N. está se perdendo, deveria se candidatar ao cargo de Pajé!

  4. Avatar de Harold Lisboa (@donodabola)

    Sa

  5. Avatar de Harold Lisboa (@donodabola)

    Santa Cruz x Águia.Em instantes,bola rolando

  6. Avatar de Harold Lisboa (@donodabola)

    Júnior Xuxa,fora do Santinha e ha boatos de conversas com o bicolor da Curuzu..

  7. Avatar de Édson do Amaral. Papão1° Aguia 2° PFC 3° o resto não conta

    O Aguia já pegou a 1° picada da cobra coral pernambucana, caro Harold.

    Quando nesse exato momento sai o gol do empate do Aguia, 1×1

  8. Avatar de Édson do Amaral. Papão1° Aguia 2° PFC 3° o resto não conta

    São Paulo faz 1X0 no Vasco em pleno SJ

    Aguia 1×1 Santa Cruz no mundão do Arruda

  9. Avatar de Jenilson Campos
    Jenilson Campos

    Como bem comentou um dos ministros da corte, a ação penal 470 trata do julgamento de políticos que cometeram crimes, e não da criminalização da política.

  10. Avatar de
    Anônimo

    Amigo, Gerson, mas esta fúria a que você se refere, também pode ser verificada (e como) em cada uma das linhas do inflado artigo objeto da postagem. Quer dizer, se há intolerância destruidora (e não apenas veemência na defesa dos respectivos pontos de vista) esta se manifesta de parte a parte.

    1. Avatar de blogdogersonnogueira
      blogdogersonnogueira

      Uma pena, amigo. Discussão de ideias não pode ter esse caráter discricionário. Somos todos brasileiros, afinal de contas.

  11. Avatar de
    Anônimo

    Ops. INFLAMADO

  12. Avatar de Antonio Oliveira
    Antonio Oliveira

    Ops, mais uma vez: esqueci de assinar o comentário. Mas, agora, corrijo a omissão.

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